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Ygor Santos Melo

Arquiteto e Urbanista, engajado em não ser um peso para o mundo. Nessa toada, quem sabe, fazer dele um lugar melhor.

Legado eterno de um centenário

Lina Bo Bardi, responsável por obras importantíssimas da arquitetura paulistana e brasileira, completaria 100 anos no dia 5 de dezembro de 2014. Porém, infelizmente, nos deixou em 1992. Mas seu legado é mais que centenário: é eterno. O MASP, o Sesc Pompéia e a Casa de Vidro são grandes marcos, os quais sempre serão lembrados e admirados por todos, pois são as ideias materializadas de Achillina Bo.


cmais.com.br.jpg Fonte: cmais.com.br

A arquitetura concisa, direta, inteligente de Lina é surpreendente. A simplicidade e riqueza fazem dela uma verdadeira mestra no pensar e no fazer arquitetônico.

Lina.jpg Fonte: www.revistabrasileiros.com.br

Lina Bo Bardi, a mulher responsável pelo MASP e por outros marcos da arquitetura paulistana e brasileira, por exemplo em Recife e Salvador, é centenária. Imigrante fugida dos regimes totalitários da Europa, Lina nos trouxe uma arquitetura concisa, direta, inteligente. Brutal. O tecido urbano de São Paulo tem, na sua imagem, a materialização das ideias de Lina. A arquitetura paulistana tem, em sua essência, os traços de Lina. O centenário tem, como principal objetivo, homenagear, de formas e formas, uma mestra na arte de arquitetar.

cbre.com.br (2).jpg Fonte: www.cbre.com.br

Há 100 anos nascia Achillina Bo, a querida Lina. Graduou-se em Arquitetura & Urbanismo na Universidade de Roma e veio para o Brasil em 1946 com seu marido Pietro Maria Bardi. Naturalizou-se brasileira. divrita-se.uai.com.br.jpg Lina e Pietro em 1951 Fonte: divirta-se.uai.com.br

Em São Paulo, naquela época, tínhamos a figura do rico comunicador Assis Chateaubriand, que estava insatisfeito com a cultura paulistana e decidiu investir na ideia de outro museu (na época, São Paulo contava apenas com o Liceu de Artes e Ofícios, que era da década de 1880).

Chateaubriand precisava, primeiramente, de um consultor de arte. Ficou sabendo que um imigrante italiano estava no Brasil e poderia ajudar. Tal imigrante era Pietro Maria. Sendo assim, Assis também conheceu Lina, para qual designaria o projeto do novo museu da cidade, o qual se localizaria no alto do Vale do Anhangabaú, de frente para o Parque Trianon, num terreno cedido pela prefeitura da capital.

A arquiteta pensou numa forma que seguisse a Av. Paulista, uma forma que pudesse dar continuidade e monumentalidade, o que é muito difícil. O mais marcante do externo é, sem dúvidas, o vão livre. Nele, o desígnio de Lina se concretiza: um lugar para o convívio, para viver o espaço, para transformá-lo em lugar.

decracha.com.br.jpg Fonte: decracha.com.br

Internamente é impossível saber o que mais se destaca. Pietro Maria Bardi conseguiu obras raríssimas (Van Gogh, Delacroix, Gauguin, etc.) por preços quase irrisórios. Assis Chateaubriand investiu bastante e teve retorno. No MASP nós temos França, Itália, Brasil. O Mundo.

ssss.jpg Pietro Maria Bardi ao lado das obras que chegaram de navio. Na caixa que contém as preciosidades, pode-se ler "Assis Chateaubriand - Museu de Arte de São Paulo, Brasil" Fonte: masp.art.br

Achillina, além do MASP, possui outras obras que são marcos, que são ilustres, que são belas. O Sesc Pompéia é tudo isso e mais um pouco.

cbre.com.br (9).jpg Fonte: cbre.com.br

A antiga fábrica de tambores da Pompéia ganhou três vizinhos prismáticos de proporções gigantescas. Dois prismas retangulares e um cilindro. Os primeiros foram moldados com madeira e algumas placas de plástico, conferindo as linhas externas tão marcantes. As lajes são de concreto protendido. As 70 seções de um metro do segundo, o cilindro, foram moldadas em troncos de cone, o que conferiu uma inclinação às laterais, fazendo com que cada seção se encaixasse na outra e que sobrasse uma saliência para cada metro, resultando num aspecto único.

universes-in-universe.org.jpg Fonte: universes-in-universe.org

As passarelas que ligam o prisma menor ao maior são, talvez, os pontos mais marcantes do exterior da obra. Cada passarela, apesar de seguir os padrões de dois metros de largura e um metro de peitoril, tem a sua peculiaridade. Umas começam em V e terminam perpendiculares, outras começam perpendiculares e desembocam num Y, etc. Isso é Lina. Essa simplicidade complexa que resulta na beleza arquitetônica que encanta os olhos.

Além disso, internamente, a obra possui blocos à mostra, concreto aparente, chapiscos, etc. Tudo pensado. As janelas irregulares, moldadas por isopores inseridos na concretagem, bem como o aspecto interno citado, traduzem as características simplistas da arquitetura rica de Lina Bo Bardi.

sesc_pablo-colquillat.jpg Fonte: revistaveneza.wordpress.com

Em 1951, Lina projeta a Casa de Vidro, no Morumbi, a qual servirá de residência para ela e Pietro Maria. Desde 1990 a residência funciona como o Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, onde há o acervo pessoal do casal. Neste, há objetos, móveis, obras de arte, milhares de desenhos e escritos de Lina, além de registros fotográficos. O acervo é um dos grandes responsáveis por apresentar importantes conceitos da arte e arquitetura no Brasil.

a36a7cc040dc_10.jpg Fonte: www.vitruvius.com.br

Achillina Bo. Personalidade forte, marcante. Ideias concisas, transcendentais. Projetos únicos, monumentais. Arquiteta ítalo-brasileira, visionária. Artisticamente e arquitetonicamente singular, centenária.

Lina não fez só arquitetura, pensou. Fez arte na sua casa, com seu marido. Fez cinema no nordeste, com Glauber Rocha. E muito mais. Foi além.

1972506_725203394167313_1472869420_n.jpg Croqui de Lina Bo Bardi Fonte: OLIVEIRA, Olivia de. Lina Bo Bardi: sutis substâncias da arquitetura. São Paulo, 2006. Página 134.

E que todos possam admirar, refletir e se felicitar com o trabalho da mestra Bo Bardi. Simplicidade e riqueza arquitetônica caminhando juntas: vemos na obra de Lina. Concisão, seção, paixão: vemos em Lina e em sua obra. Que esta arquitetura centenária viva para sempre, pois ela é a materialização do ideário de Achillina Bo, a Lina Bo Bardi.


Ygor Santos Melo

Arquiteto e Urbanista, engajado em não ser um peso para o mundo. Nessa toada, quem sabe, fazer dele um lugar melhor. .
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