isso não é um blog

Isso não é uma descrição

Ygor Santos Melo

Arquiteto e Urbanista, engajado em não ser um peso para o mundo. Nessa toada, quem sabe, fazer dele um lugar melhor.

Discussões sobre arquitetura

Arquitetos projetam e executam, dentre outras coisas, construções magníficas, edifícios que impressionam. Fazem curvas, ângulos retos, parábolas, elipses, cubos, quadrados e círculos. Projetam, também, enclaves fortificados, (auto)segregadores, cidades desiguais e espraiadas. Agora pergunto: e a arquitetura para quem precisa de arquitetura?


www.namargem.ufscar.br.jpg Fonte: www.namargem.ufscar.br

Quando usamos o Google para pesquisar por "arquitetura", temos a seleção instantânea de inúmeras imagens de edifícios lindos, tecnicamente impecáveis, feitos por arquitetos que estão em capas de revistas e viajando para Dubai para conversar sobre novos trabalhos absurdos com algum Xeique. O primeiro contanto com a arquitetura, muitas vezes, é esse. A definição de arquiteto é, para muitos, se não de decorador com ensino superior, um fazedor de coisas bonitas e faraônicas.

As escolas de arquitetura no Brasil são muito responsáveis por isso. Uma grande parcela dessas está preocupada em injetar mão-de-obra no mercado, não aprofundando conceitos fundamentais para a produção arquitetônica, tais como filosofia, sociologia, leis de uso e ocupação do solo, função social da terra e da propriedade, etc. Nesse sentido, estamos formando mais e mais arquitetos que querem projetar casas de luxo, proliferar condomínios, shoppings, praças sem bancos, espaços sem vida e cidades sem diversidade.

001.jpg Cidade do México Fonte: Archdaily

É errado querer projetar edifícios gigantes, com curvas, com luzes, com King Kong ou com formato fálico? É errado projetar casas com muitas fachadas de vidro, piscina e campo de golf (ô esporte chato) para as madames em Alphaville? Claro que é uma discussão que resultaria em muita controversa. Não, não é errado. As madames têm direito à arquitetura e, sim, a verticalização é uma saída muito viável em certos casos. Todavia, só isso que os arquitetos podem devolver à sociedade? Um bacharel que estuda o lugar, a cidade, a filosofia, a história, etc, está limitado à produção de espaços murados, segregadores, aversivos?

É isso que devemos discutir. A política molda as nossas cidades. Existem leis que seriam extremamente úteis, se aplicadas, para atenuar os efeitos da especulação imobiliária e o apetite de extermínio dos poderosos para com os pobres.

Por que não se aplica? Pois as vontades de alguns beneficiam um parcela e condenam a outra. O sistema rodoviário desenhou muitas de nossas cidades e as tornou ainda mais segregadoras. O interesse de grandes construtoras passa por cima da lei, cometendo crimes, desconsiderando ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social), APPs (Áreas de Preservação Permanente), dentre outros mecanismos que contribuiriam para uma cidade mais heterogênea e com espaços cheios de potencialidade.

lgww9lr.jpg Rio de janeiro Fonte: Archdaily

Estamos criando cidades que não são para as pessoas - pelo menos não para todas as pessoas. O problema não é construir um grande edifício desconstrutivista, mas fazê-lo em uma ZEIS, em uma Área de Preservação Permanente; a casa do rico tem que ser projetada, porém o erro está em produzir condomínios, muros e barreiras. Edificar aberrações que, muitas vezes, são construídos em locais onde havia habitações do mais pobre, daquele que foi jogado para mais longe da cidade.

É essa arquitetura que estamos fadados a produzir? Espero que não.

Arquitetura é ação política. Muitos dos danos sociais que temos hoje são frutos históricos de um mau planejamento urbano, projetos essencialmente discriminadores, dentre outros fatores. Podemos mudar a cidade e os espaços materializando, em nossas obras como arquitetos, a política, a filosofia, a história, a sociologia, o direito e as outras facetas que fazem parte da disciplina tão plural que é a arquitetura. Assim poderemos construir uma cidade mais justa.

Com esse pensamento, o qual, certamente, deveria ser mais trabalhado na universidade, procurar fazer arquitetura para quem precisa de arquitetura. Esta é uma Ciência Social Aplicada, a qual deve ter impacto positivo na comunidade e leis como a 11.888, dentre outras, fomentam tais práticas.

markhillaryTrafalgarSquare.jpg Trafalgar Square – Londres – Foto: Mark Hillary Fonte: urbanidade.arq.br

Produzir espaços públicos que atraiam pessoas, que sejam lugares. Discutir sobre o transporte público, sobre ciclovias, sobre a mobilidade urbana em geral. Ser político ao fazer arquitetura: pensar naquele que precisa, analisar o indivíduo em todas as escalas. Produzir, dentro de seus partidos e condições (financeiras, climáticas, sociais), obras que não se limitem à unidade edificada.

Por que não propor conjuntos habitacionais que levem em consideração a cultura, o lote, as pessoas que serão contempladas com o projeto? Por que não criticar veementemente a especulação imobiliária, os interesses dos ricos e das construtoras? Por que não construir com materiais sustentáveis, para diminuir custos? Por que não fazer intervenções no espaço público? Por que não criticar os enclaves fortificados e as praças que não têm bancos? E, sobretudo: Por que não articular medidas, propor projetos, propor intervenções e propor discussões nas regiões onde mais se precisa de arquitetura?

São muitos porquês. Mas uma coisa é certa: diferente do que se prega por aí, em Hollywood, na TV e nas próprias universidades, arquitetos não são decoradores e não fazem casinhas. Arquitetos transformam o mundo.

Pelo menos podem. Por que não fazer?


Ygor Santos Melo

Arquiteto e Urbanista, engajado em não ser um peso para o mundo. Nessa toada, quem sabe, fazer dele um lugar melhor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/arquitetura// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Ygor Santos Melo