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Ygor Santos Melo

Arquiteto e Urbanista, engajado em não ser um peso para o mundo. Nessa toada, quem sabe, fazer dele um lugar melhor.

Protagonistas da arquitetura

"Quem construiu a Tebas das Sete Portas?
Nos livros constam nomes de reis.
Foram eles que carregaram as rochas?
E a Babilônia destruída tantas vezes?
Quem a reconstruiu de novo, de novo e de novo?
Quais as casas de Lima dourada
abrigavam os pedreiros?".

Bertold Brecht


cimentoitambe.jpg Fonte: cimentoitambe

Além do arquiteto e, em alguns casos, o engenheiro, existem figuras tão ou mais importantes para o fazer arquitetônico. E não, não são as grandes empresas que colocam seus nomes nas edificações que ordenaram a construção, assim como faziam os imperadores, reis e ditadores. Não são os políticos inescrupulosos que inviabilizam a produção de uma cidade mais justa, não elaboram propostas de espaços com mais potencialidade e, obviamente, não trabalham para diminuição da desigualdade.

Assim como indaga Brecht: e os pedreiros? São eles as figuras essenciais. Sejam funcionários de grande empresas, o pai de família que, sem nunca ter feito curso ou alguma obra, levanta cedo e vai levantar, tijolo por tijolo, sua casinha. Como cita Nabil Bonduki: são as casas domingueiras, isto é, feitas aos domingos, pois aquele que a ergue trabalha o restante da semana. Onde estão essas figuras no processo arquitetônico? Estamos pensando naqueles que trabalham muito para edificar os sonhos projetados?

images.jpg Fonte: VOGUE

Acima temos a arquiteta Zaha Hadid. Vencedora do Prêmio Pritzker, sendo a primeira mulher a ser condecorada com tal premiação, além de ter uma arquitetura impecável tecnicamente, foi muito infeliz ao responder uma pergunta feita pelo The Guardian, em 2014. Segundo o jornal, 500 trabalhadores imigrantes indianos e 382 nepaleses supostamente morreram na construção do estádio al-Wakrah, projetado pela arquiteta. Perceba que esses números podem até estar errados, mas o que surpreende é a resposta da arquiteta: "Não tenho nada a ver com os trabalhadores. Acho que esse é um assunto que o governo - se houver algum problema - deveria tratar. Esperamos que estas coisas sejam resolvidas."

A arquiteta ainda completou

"Sim, mas me preocupo mais com as mortes no Iraque, então o que posso fazer a respeito? Não estou fazendo pouco caso, mas penso que é o governo que deveria cuidar disso. Não é meu dever como arquiteta resolver isso. Eu não posso fazer nada a respeito pois não tenho este poder. Acho que é um problema em todas as partes do mundo. Mas, como disse, há discrepâncias por todo o mundo.".

12.11_qatar_2022_2.png Estádio al-Wakrah Fonte: mundodoesporte

A arquiteta tem muito a ver com isso, sim! O arquiteto tem que ter contato com o canteiro de obras, contato com os trabalhadores, conhecer a mão-de-obra disponível, dentre outros fatores. Não se constrói, sem se levar em conta muitos aspectos, um edifício de concreto armado nos Andes, por exemplo. Assim como não se projeta um estádio extremamente complexo e considera que seu trabalho está acabado na prancheta ou no computador. É claro que o governo possui responsabilidade, assim como as empresas que coordenam os projetos e deviam zelar pela segurança dos trabalhadores. Porém, senhora arquiteta, sair na capa da Vogue é muito fácil, mesmo que a vida de 900 pessoas (que fosse uma) tenha sido perdida.

E qual o poder de mudança tem Zaha? Talvez materiais mais fáceis de manusear, de se trabalhar, dada a mão-de-obra não especializada. Pensar um sistema construtivo mais eficiente, menos arriscado. Claro que as empresas são até mais responsáveis que a arquiteta, porém será que só podemos fazer uma arquitetura interessante passando por cima de vidas?

E os pedreiros que morreram na construção da Arena Corinthians, em São Paulo, no ano de 2014? E aqueles que morrem todos os dias nas construções ambiciosas em todo mundo? image.jpg Fonte: hojeemdia

E os pedreiros não por opção? Aqueles que constroem seus barracos em glebas, em áreas de risco e em favelas, a fim de se abrigar do vento e do frio? E os que nem condições disso têm, morando sob viadutos e em becos? Se você, arquiteto, estudante de arquitetura, engenheiro ou qualquer outro agente da construção civil se perguntar "o que eu tenho a ver com isso?", por favor reveja sua formação e seus conceitos.

O que eu tento dizer com esse texto, reiterando o que foi introduzido no inicio, é o porquê de não vermos a construção civil como uma produção contínua, desde o projeto à entrega. Por que não damos a mínima para os trabalhadores braçais? E não só isso: por que não damos a mínima para o pobre? Por que não damos a mínima para aqueles que morrem sem um lar? Por que não damos a minima para aqueles que morrem construindo nossos sonhos?

Por que só o nome do arquiteto vai pro memorial?

Por que só projetar condomínios e não urbanizar favelas? Por que não lutar por habitação social nas zonas centrais? Por que não elaborar projetos levando em consideração, também, aqueles que vão edificá-los?

O trabalho do arquiteto não termina quando a última janela foi pensada e quando os quartos foram alocados para receber o sol da manhã.

Não podemos fazer tudo, mas podemos fazer mais do que estamos acostumados.

Por que não lutar pelas casas daqueles que erguem nossas casas?


Ygor Santos Melo

Arquiteto e Urbanista, engajado em não ser um peso para o mundo. Nessa toada, quem sabe, fazer dele um lugar melhor. .
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