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Ygor Santos Melo

Arquiteto e Urbanista, engajado em não ser um peso para o mundo. Nessa toada, quem sabe, fazer dele um lugar melhor.

A ilusão e a realidade nas cidades

Ilusão: Kant definiu como "o jogo que persiste mesmo quando se sabe que o objeto pressuposto não é real" (Antr., § 13).

Realidade: esse termo indica o modo de ser das coisas existentes fora da mente humana ou independentemente dela.

(trechos retirados dos verbetes "Ilusão" e "Realidade" do Dicionário de Filosofia Nicola Abbagnano)


Favelas do Brasil 2.jpg Fonte: Favelas do Brasil. Imagem editada pelo autor.

A cidade, em termos breves, possui uma dualidade cruel. De um lado respira realidade, a qual foi construída à margem, numa periferia onde a terra era mais barata, onde a luz e água não chegavam, onde o ônibus não passava e que, hoje, só possui alguma infraestrutura graças à luta constante de seus moradores. Estes que são majoritariamente negros, originários de regiões interioranas, pobres e/ou nordestinos - protagonistas, homens e mulheres, que ergueram com sangue e a calosidade de seus corpos uma cidade ilusória que lhes vira as costas todos os dias, pois é comandada por capitais bastante engenhosos na criação de fantasias e desigualdades socioespaciais.

Thumbnail image for São-Paulo-vista-aérea-Copan.jpg Fonte: Compra Pra Mim? e Litoral Verde Viagens. Imagem editada pelo autor.

Como pode ser real uma cidade que simula tudo? Se percorrermos (a pé ou de carro, munidos de aparelhos móveis altamente tecnológicos) um pequeno trajeto em uma região metropolitana ou em qualquer centralidade urbana, seremos bombardeados por milhares de informações e imagens que são essencialmente irreais. Condomínios com nomes estrangeiros, residenciais com varandas gourmet, suítes e um render bem bonito feito no Lumion com pessoas brancas e felizes à beira de uma piscina. Ou que tal um belíssimo shopping? Nele tem de tudo: área de lazer, cinema, praça de alimentação, "espaço kids", lojas de jóias, roupas, celulares, viagens, etc. - simulação de cheiro, simulação de gosto, simulação de espaços públicos e simulação de uma sociedade que não é homogênea como os frequentadores desses enclaves.

Essas imagens espetaculares são outra face do dinheiro, um grau de acumulação de capital altíssimo, como diria Guy Debord. Você come, você dorme, você compra, você frequenta, você vive e morre através das imagens vendidas nas grandes cidades.

Vemos pássaros onde não tem nenhuma árvore. Vemos peixes onde não tem água. Vemos negros na universidade que não aceita os negros. Vemos inclusão de gênero onde há transfobia e homofobia. Vemos pobres onde só tem ricos. Vemos o que eles querem e seguimos achando que o mundo real é assim: arrumadinho, quieto, perfumado e igualitário.

Øystein Aspelund.jpg Fonte: Cafesempo. Foto de Øystein Aspelund.

Para exemplificar o simulacro esboçado nesse breve texto, vamos utilizar Brasília. Com o dito objetivo de ocupar o centro-oeste e ter uma capital menos vulnerável (dado o contexto de pós-guerra e Guerra Fria), além do projeto de desenvolvimento nacional que incluía grandes e delirantes ambições, criou-se, no meio do cerrado, uma cidade. O concurso de projetos para nova capital teve como vencedor Lúcio Costa e seu Plano Piloto, o qual ganharia elementos monumentais através dos traços de Oscar Niemeyer.

Construir uma cidade em menos de 4 anos é absurdo. Construir em uma região onde não há fornecedores de concreto, aço e mão-de-obra é ainda mais insensato. Pois bem, a solução para o aço e concreto foi a região Sudeste, a mais rica do Brasil; a solução para a mão-de-obra foram as regiões Norte e Nordeste, as mais pobres. Mas o arquiteto, o urbanista, o presidente e as outras mentes imprudentes envolvidas, pouco ligaram para o melindroso processo de erguer uma cidade que abrigaria apenas os que não carregaram um tijolo sequer.

bsb15.jpg Fonte: Crônicas Brasilienses. Candangos trabalhando na construção da Praça dos Três Poderes. Pedra por pedra.

Os candangos, "homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra"*, partiram de suas origens para serem peões de um jogo de reis e bispos. Sem casa, sem condições de trabalho e sem família, esses trabalhadores e trabalhadoras foram duramente explorados naquele imenso canteiro de obras, tendo que trabalhar de forma dolorosa e desumana em busca de alguma perspectiva.

Construíram uma igrejinha belíssima (Capela Nossa Senhora de Fátima), com curvas pomposas e uma laje tão grossa que poderia vencer um vão livre muito grande, mas vence um bem pequeno. Para construir a Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, então, foram necessárias verdadeiras acrobacias e o risco eminente de morte na elevada altura e geometria diferenciada, ao passo que outras mãos cheias de calos iam polindo o concreto para que ele ficasse branquinho, enquanto a silicose adentrava àqueles pulmões.

Construíram cúpulas que desafiavam a lógica da materialidade e tinham o desejo do projetista como protagonista, não a física e muito menos o trabalho. O resultado: muito dinheiro jogado fora e, sobretudo, muitos braços doloridos, muitos ferimentos, calos e sangue - sem contar as vidas perdidas.

Construíram tudo, do bloco da superquadra ao Itamaraty. Sobre eles [trabalhadores(as)] não se vê nada! Vemos uma cidade branquinha, limpinha, com carros, coisas sobre o JK, edifícios megalomaníacos gigantescos: polidos, revestidos, com forro, com curvas e carregados de ilusão. Não há menção ao trabalho, não há.

100415brasilia50_f_023-thumb-800x484-164295.jpg Fonte: Uol. Operários trabalham na construção da Esplanada dos Ministérios.

E sabe por quê? Pois é, a realidade está próxima como um satélite e tem em si a mão construtora. Assentamentos humanos que foram escrachados. Pessoas que tiveram suas coisas atiradas arbitrariamente em um caminhão. Tiveram suas vidas rasgadas por tiros. Tiveram suas casas derrubadas por tratores. Tiveram suas crianças analfabetas. Suas ruas cheias de lama, esgoto e doenças. Tiveram fome, frio, saudade e dor. Não tiveram uma cidade.

Hoje Brasília é uma desigualdade sem tamanho. Sua muralha invisível jogou para fora do plano todas a mãos que a construíram, sem lhes ajudar a ter uma casa, uma escola, um postinho de saúde ou uma esperança. Algumas dessas cidades são até maiores que a própria capital, entretanto conquistaram asfalto quase 30 anos após suas consolidações.

Essa distância entre o Plano Piloto e a realidade das cidades satélites foi, como citou de forma irônica e precisa Sérgio Ferro, pelo fato de que "o pássaro branco, liso e cheiroso deveria voar em céu desanuviado". Pois é, céu de verdade tem tempestade e leva barracos embora.

Thumbnail image for construcao-de-brasilia.jpg Fonte: Omensageiro77. Brasília em construção (Congresso e Palácio do Planalto já erguidos): o acampamento dos ‘candangos’ era todo de madeira.

Mas uma coisa é certa: a desigualdade socioespacial, a desvalorização do trabalho braçal e a exploração dos canteiros de obra não são uma particularidade da Capital Federal. Onde há cidade, há pressão capitalista e também há, necessariamente, desigualdade e gentrificação. Essa pressão imobiliária modifica a forma urbana das cidades, as quais resultam de incontáveis canteiros, grandes ou pequenos, que são palco da exploração da força de trabalho e base para alta lucratividade do mercado imobiliário. O modo capitalista de produção do espaço urbano se sustenta com a exploração, pois paga pouco e ganha muito.

Essa "urbanização com baixos salários" é um tema não tão presente nos debates acadêmicos da graduação em arquitetura e urbanismo, porém é muito levantado por mãos competentes como as da urbanista Ermínia Maricato e as do sociólogo Francisco de Oliveira. Essa discussão direciona um olhar crítico para a paisagem autoconstruída da cidade (as "casas domingueiras", como diz Nabil Bonduki), produto de uma "industrialização com baixos salários", que não incluía (e nunca incluiu) no pagamento do trabalhador(a), por exemplo, os custo com sua própria habitação. Sendo assim, aquele que vende sua força braçal precisa recorrer aos próprios esforços para obter um lar.

A solução é desesperada: compra-se um lote - muitas vezes clandestino -, em uma zona onde a terra é mais barata e, assim, com a ajuda dos familiares, amigos ou mesmo sozinho, ergue sua casa tendo como companheira diária apenas uma marmita fria, em um pote plástico ou de alumínio. Ou seja, além de trabalhar durante toda a semana, o indivíduo não poderá frequentar o centro da cidade, pois não há transporte público de qualidade e não poderá, também, ir à Avenida Paulista ter contato com museus e outros nichos culturais muito interessantes.

Mais que isso: terá que voltar, à noite, para sua casa alugada ou de "favor", em um transporte caro e sem qualidade. Andará pelas ruas esburacadas, frias, com lama, sem segurança. Chegará em casa esgotado(a), sem direito a um fim de semana ou feriado, e terá que levantar segunda-feira às 4 da manhã para vender sua força de trabalho e poder pagar os empréstimos e dívidas adquiridas. Tudo isso e muito mais. Quanta coisa... ao passo que, dentro de um carro do ano, duma casa sem infiltração, em uma rua asfaltada, cercada por muros, há pessoas que embolsam o excedente que deveria ser pago ao trabalhador(a) - e vivem bem, muito bem.

desigualdade5.jpeg Fonte: jornalggn

E quantas vezes vimos alguém indignado com essa situação dentro de nossas salas de aula? Tema que deveria ser essencial para qualquer graduação, pós-graduação ou ensino médio. Quantas vezes um professor largou as pesquisas acadêmicas para se dedicar a um projeto que contribuísse com comunidades e famílias em situação de alta vulnerabilidade social?

Quantas vezes a universidade priorizou, em sua estrutura, esses temas ao invés de pesquisas que ninguém vai ler? Quantos famílias carentes a FAPESP ajudou?

Enquanto somos enganados por uma cidade cheia de cores, cheia de museus e cheia de parques, existe uma periferia que não tem quase nada além de sua própria e marcante identidade. Enquanto estamos preocupados(as) em fazer ciclovias nas áreas centrais sem nenhuma conexão com o resto da cidade; enquanto estamos preocupados(as) em pensar obras sem levar em conta uma única vez quem irá construí-las; enquanto estudamos os vazios urbanos, as paisagens, o consumo, etc., sem nenhuma aplicação prática, existe muita gente sem comer, sem dormir, sem viver. Sem direito à cidade. Nenhum lugar precisa de mais atenção do que a periferia. Nenhum lugar precisa mais de escolas, parques, bibliotecas e centros culturais do que uma periferia.

Como conseguir ir até uma biblioteca pública que fica longe de casa? Como ir ao parque explorar a "diversidade", o "encontro", a "permanência" (dentre outros conceitos difundidos nos livros de urbanismo), sem mobilidade urbana, tendo filhos pra cuidar e uma casa pra erguer com as próprias mãos?

Lembre-se das mães que não puderam estudar para cuidar dos filhos. Das diaristas que atravessam a cidade toda de ônibus e andam grandes distâncias a pé. Do assédio que acontece em ruas escuras, em vielas e em becos que existem em muito maior quantidade nas periferias.

Lembre-se dos pais que acordam cedo e passam 6 horas em um ônibus por dia. 30 horas por semana. 120 horas por mês. Da marmita fria, da casa pequena e com goteiras. Que precisa viver com as dívidas, sem poder propiciar, por vezes, saúde e educação para a família.

Lembre-se das crianças que não podem estudar, dos jovens que são mortos pela polícia e que não possuem apoio para realizarem seus sonhos. Dos adolescentes que precisam trabalhar ao invés de estudar.

A cidade formal e suas grandes centralidades não possui essas preocupações, pois não abrigam a realidade das periferias.

Olhem para as periferias e atuem em sua transformação!

Veja:

ONG's como o TETO fazem parte dessa luta. Participe de uma de suas atividades, a COLETA: http://www.tetocoleta.com.br/

*trecho retirado de "A Chegada dos Candangos" - Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim.

Referências

- Arquitetura na Era Digital Financeira, de Pedro Fiori Arantes.

- Para Entender a Crise Urbana, de Ermínia Maricato.

- O Vício da Virtude, de Francisco de Oliveira.

- Origens da Habitação Social no Brasil, de Nabil Bonduki.

- Arquitetura e Trabalho Livre, de Sérgio Ferro.

- A História da Arquitetura Vista do Canteiro, de Sérgio Ferro.


Ygor Santos Melo

Arquiteto e Urbanista, engajado em não ser um peso para o mundo. Nessa toada, quem sabe, fazer dele um lugar melhor. .
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