it is alive

E se as artes fossem vivas?

Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono.

Músicas de fim de tarde

Concordamos que a música não rejuvenesce. Certo?
A música deles discorda, a música rejuvenesce a mente, a alma, o ser e não o físico. Podemos ser apenas cadáveres ainda vivos, porém nossas memórias serão eternas em nós, em velhas fotografias, e em músicas. Beirut sabe juntar memória com saudade, e transformar tanta coisa aparentemente velha em algo novo, dicotomicamente os dois lados da mesma moeda. A saudade e a juventude.


beirutNew.jpg A Orquestra de Zach Condon

Aquele sentimento que às vezes nos permeia, sempre aos fins de tarde ou no início da noite, encontra-se expresso na sonoridade da banda Beirut. Um pouco de indie-rock e muita influência vinda do leste europeu, onde o vocalista e idealizador Zach Condon passou uma temporada, estudando os ritmos tradicionais daquela área, colocam Beirut num patamar onde poucos estiveram. Suas músicas constroem ora um cenário circense francês, ora um bando de amigos cantando num coral propositadamente desestruturado, que evidencia as nuanças vocálicas de cada músico que canta.

carpe diem.png "Carpe... carpe... Carpe diem" A Sociedade dos Poetas Mortos.

A princípio fora apenas um projeto solo, posteriormente acrescido e nomeado “banda”, porém, pela quantidade de músicos nesse grupo, é comum referir-se à eles como Orquestra Beirut. Mas o que eles fazem de tão interessante além de música? O que tem a mais? Sua sonoridade nos leva a um estado de puro altruísmo, uma pura e simples vontade de amar algo, amar alguém. Suas formações sonoras são tão simples que chegam a ser um desaforo e, quando você se distrai a melodia já esta ali, pronta, só aguardando a progressão da música.

Suas letras relatam memórias, o que inclui sentimentos como saudade, amor e, principalmente “juventude”. Todavia, uma juventude despojada, boêmia, Byroniana, que seja calma enquanto estado de espírito, mas que seja efervescente enquanto diversão e memória. De certa forma o ambiente musical criado pelo grupo, proporciona uma vontade de levar ao pé da letra o Carpe Diem sussurrado pelos fantasmas daqueles que não viveram que, dizer que sua música é onírica é pouco. Postcards from Italy é, em nome, em letra e em vídeo, um dos muitos exemplos dessa saudade, o efeito de voz nasalada presente em alguns instantes da música, se assemelha ao efeito que uma conversa de telefone confere a quem escuta; o pai viajando, o irmão distante, o amor perdido. Por fim, os instrumentos de sopro completam a música, cantando aquilo que não pode ser dito em palavras.

Talvez ouvir as experiências da banda que, tanto viu a música Elephant Gun ser tocada durante a minissérie Capitu, não te torne jovem novamente mas, vale a viajem à quem quiser encontrar um canto urbano e miscigenado em meio às atuais ondas musicais. Um silencioso grito que inspirou as composições de grupos que hoje são referência. Um grito de paz e quietude, dito não pela voz, mas pela alma. Juventude bem vivida é a idéia que fica no ar, após uma ressaca de sensações experimentais e, ainda assim, coerentes em meio a tanta dispersão sonora.


Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono..
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