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E se as artes fossem vivas?

Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono.

O Sonho sem nome

Muitos artistas tentaram representar a morte em muitas áreas, nas artes, nas letras, na música. Mas foi Arnold Böklin, um pintor simbolista mais conhecido pelos “curiosos” do que pelo seu próprio nome e legado, que entregou às artes plásticas a obra prima do simbolismo no mundo do eterno sono; eterno sonho.


Arnold Böcklin geralmente não entitulava suas obras, pelo pensamento de que o título diminuiria as possibilidades interpretativas da obra, o que, de fato, parece real: o nome de uma obra, portanto, direciona o pensamento daquele que a vê. Mas não há comercio de obras de arte sem nome, o pensamento arcaico humano necessita de catalogar e etiquetar as coisas do mundo. E assim também fora feito com esta obra de arte, entituladas por Fritz Gurlitt, um comerciante que sentiu a influência funesta e maliciosa que a pintura ambicionava, entitulando-a de “Die Toteninsel” – “A Ilha dos Mortos”.

Morte 1.jpg “Die Toteninsel” - 1880, Arnold Böcklin. Kunstmuseum na Suiça.

morte 2.jpg “Die Toteninsel” - 1880, Arnold Böcklin. Metropolitan Museum of Art, New York

morte 3.jpg “Die Toteninsel” - 1886, Arnold Böcklin, Museum der Bildenden Künste, Leipzig, Alemanha

morte 4.jpg “Die Toteninsel” - 1883, Arnold Böcklin, Alte Nationalgalerie in Berlin, Alemanha.

O que faria um artista talentoso criar cinco versões diferentes da mesma obra? Talvez o fato de sua filha Maria ter sido enterrada quando criança no 'Cimitero Inglese' em Florença, muito próximo ao seu próprio atelier. Talvez tal pergunta jamais seja respondida, posto que estamos tentando decifrar a mente de um gênio da arte, artimanha que nem o próprio Sr. Böcklin pode ter sido capaz.

caronte.jpg José Benlliure y Gil, La Barca de Caronte, 1919.

As construções que existem na ilha de pedra seguem os clássicos moldes das eras antigas da humanidade, podemos, portanto, supor que o barqueiro não é ninguém senão Caronte, responsável por carregar os mortos até o reino de Hades, e que o rio não é nenhum outro senão Asqueronte. Este último, acredita-se que seja o local onde o próprio rio Estige termina, portanto a ilha é, provavelmente, o próprio reino de Hades.

Pessoalmente, costumo interpretar os quadros como um sonho, que ataca repetidas noites, até por fim tornar-se pesadelo. Talvez lembrando-nos o nosso próprio destino, ou seja, para onde iremos assim que não acordarmos mais. Um local ermo esquecido por todos os “vivos” que dá as boas vindas aos pobres desgraçados que o merecem, pode ser nesta ilha, portanto, que o fígado de Prometheus foi infinitamente devorado ou os tonéis das danaides foram interminavelmente enchidos.

Todavia, por mais sinistro que o reino de Hades possa ser, os quadros são imparciais quanto isso. Não há dilacerações ou demônios vermelhos, sequer chamas de fogo. O quadro coloca o expectador onde ele está hoje: na vida. Como um homem vivo que olha para o passado de algum ente falecido, não há torturas físicas, mas há psicológicas, há dor e sofrimento, há a desilusão de uma vida sem alguém querido. Um estado de tristeza complexo e perplexo em sua naturalidade, entretanto assustador e terrível em sua realidade. Assim descrevo como vi os quatro quadros.

Arnold Böcklin fez cinco quadros. O último, feito em 1884 está perdido.


Rodrigo Normando

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