it is alive

E se as artes fossem vivas?

Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono.

Souvenir da Eternidade

Piotr Ilitch Tchaikovsky. Um nome atado à mais de 200 obras musicais de extrema delicadeza e romance, sua música era a paz da nobreza russa, foi o grito de uma alma angustiada, é a ascenção da alma humana à música romântica . A música de Tchaikovsky nos eleva às alturas da perfeição, ao lugar onde todos os sentimentos dormem tranquilos e todos os pesares são perdoados ou esquecidos.


Para um artista, Tchaikovsky teve uma vida regada às alegrias e riquezas de uma vida nobre. Quando pequeno, quisera viver de música, era uma criança muitíssimo apegada e apaixonada pela mãe, fato que o fez realizar o último desejo de Alexandra, sua mãe : ingressar na faculdade de Direito e abandonar a música. Ao fazer isso, Tchaikovsky entrara em um mundo que não era o seu. Não tardou para abandonar os estudos legislativos e iniciar os estudos de música em um conservatório. Quando compunha, se libertava e descansava nas nuvens, sentado como um mestre ordenando um império harmonioso de cordas e arcos, flautas e oboés.

Porém havia algo que deixava Tchaikovsky: a vida. Aos cinquenta anos assemelhava-se a um senhor de oitenta cujo olhar sincero e bondoso transformava bocas em sorrisos e alegrias.

40.jpg Tchaikovsky aos 50 anos.

À época de Tchaikovsky uma doença contagiosa se iniciara: cólera, um modo simples de prevenção era o fervimento da água que iria ser bebida. Diz-se que certa vez Tchaikovsky recusara-se a beber um copo fervido de água dando preferência à um outro copo cuja água não fora tratada. Gastão Pereira da Silva, em seu livro Aplicações Práticas da Pscicanálise relata os últimos instantes de vida do compositor de A Valsa das Flores.

Shchelkunchik - The Nutckacker, Waltz of Flowers - O Quebranozes, Valsa das Flores.

À 10 de Outubro Tchaikovsky apresenta ao público sua Sinfonia Patética No 6, que havia sido terminada em agosto. A platéia delira sob a regência do próprio compositor. Após a apresentação há banquetes e festejos em honra ao gênio inabalável do músico. Em meio a multidão Tchaikovsky sente-se tonto, esmagado pelas pessoas ao redor, contudo, não deixa que ninguém note. Guarda-se em seu quarto. Fica por nove dias a preparar seus documentos enquanto rejeita médicos e visitas. Tchaikovsky sabia que estava morrendo. Escreve cartas de despedida desesperadamente. Sente que precisa terminá-las. A pena rola de sua mão e é assim que o encontram. Chamam os médicos do próprio Czar para examiná-lo. Ele acorda e diz – É ela não é? – provavelmente referindo-se à cólera. Os médicos respondem afirmativamente com a cabeça. A consciência de Tchaikovsky ainda resiste por 24 horas. Finalmente a luz se apaga à 23 de Outubro de 1893.

tumba.jpg Túmulo do Mestre, em São Petersburgo.

Tchaikovsky tivera, em toda sua vida, apenas três mulheres; sua mãe, uma aluna que lhe rendeu um casamento desastroso e a baronesa milionária Nadejda van Meck. Certa vez, a baronesa propôs a ele que trocassem correspondências sem que nunca se encontrassem. Frequentemente ela lhe enviava dinheiro e financiava seus trabalhos. Todavia, dois anos antes de sua morte, Tchaikovsky recebeu uma carta que pusera fim no relacionamento. Sentira-se arrasado. Pouco tempo depois, soube que um compositor francês chamado Debussy comerara a dar aulas de música para as filhas da baronesa. Sentiu-se pior. Além de tudo isso Tchaikovsky mantivera em segredo um relacionamento homossexual com o seu sobrinho. Homossexualismo era crime; e não só na Rússia. Tchaikovsky não se incomodava com esse relacionamento e estava quase tornando sua homossexualidade pública.

bob.jpg Tchaikovski e seu sobrinho Vladimir Davydov (carinhosamente 'Bob'). O relacionamento iniciou-se durante as turnês de Tchaikovsky em 1890.

O Souvenir eterno é uma vida que foi uma obra. Uma obra que foi vivida por Pior Ilitch Tchaikovsky. Dizem que sua ultima obra, a Sinfonia No 6, foi sua própria réquiem. No final das contas, jamais saberemos.

Sinfônia Número 6 em B menor, "Pathetique". Sobre a regência de outro músico que merece um artigo na Obvious: Karajan.


Rodrigo Normando

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