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E se as artes fossem vivas?

Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono.

Jean Valjean e a identidade dos sem

Les Miseràbles do eterno Victor Hugo é uma descrição profunda da sociedade parisiense em meados do século retrasado. Sua estória marcante é aclamada e recontada nos mais variados campos artísticos em que a alma humana atua. Desde os palcos até as telas (dos quadros e do cinema). Les Miseràbles se edifica como um desespero moral, talvez até cívico de um homem atormentado por sua própria responsabilidade quanto sujeito em duas sociedades esmagadoras de identidades: a de ontem e a de hoje.


La Liberté guidant le peuple obra de Delacroix.jpg La Liberté guidant le peuple obra de Eugène Delacroix.

Ontem: Jean valjean, da mesma forma que Roberto, Henrique e Patrícia, é um nome carregado de todos os deveres e responsabilidades do mundo humano, tudo isso inclui amor, a si e ao próximo; responsabilidade moral de amparar os fracos; sustentar-se financeiramente; prover a alimentação, senão a sua a do próximo. É por alimentar que Valjean é preso, e se encontra, contudo, em uma sociedade desamparadamente sem leis que corroborem com a justiça. À Valjean sobram 19 anos em uma vida de presidiário.

Fantine obra de Margaret Bernardine Hall.jpg Fantine obra de Margaret Bernardine Hall

A maneira como um homem leva a vida por quase 20 anos obviamente modifica o que é o homem. E se sai de lá é outro, por fora e por dentro. Não é mais um rapaz e sim um senhor, até grisalho talvez. E por dentro? O que é um homem 20 anos depois de si mesmo? Conclusão aparente: as atitudes desse sujeito serão moldadas aos moldes das atitudes tomadas nos vinte anos que se passaram na vida do sujeito. Jean Valjean será visto para sempre como um ex-detento. E fugirá constantemente, assim como tentou fazer nos dezenove anos em cárcere. Na primeira consideração o erro está em “ex” Valjean nunca será um “ex-detento” porque não se coloca um “ex” em vinte anos de existência, não se apaga a própria história. Na segunda consideração o erro está em “dezenove anos em cárcere” Jean Valjean vive o resto de sua vida em um cárcere moral profundo, enraizado nas mais profundas artérias de seu coração. E se vive tentando fugir é do próprio presente e não da volta à condição passada. Aqueles vinte anos e os primeiros dias em que o penitente entra em liberdade refletirão para sempre em suas ações e cada passo tomado por seus pés, será moralmente pesado. E no fim a justiça dos injustiçados prevalece sobre aqueles que lhe foram injustos.

Der Wanderer über dem Nebelmeer (Caminhante Sobre o Mar de Névoa) obra de Caspar David Friedrich.jpg Der Wanderer über dem Nebelmeer (Caminhante Sobre o Mar de Névoa) obra de Caspar David Friedrich.

Hoje: O sistema penitenciário não mudou tanto, mesmo que duzentos anos tenham se passado e as armas dos carcereiros tenham mudado. Os que pagam suas penitências vivem, ainda, no século XIX. Vez ou outra por cometerem crime tão menos passível de pena privada, ainda assim são julgados e condenados a duros e longos anos de confinamento físico e mental. Tudo isso implica no fato de que há “Jeans Valjeans” confinados em pequenos quartos guardados à barras de aço negro e sujas de sangue ou infectadas por doenças em plena loucura do século XXI. Ao sair de seu cárcere, tenta esquecer aquelas barras negras que lhe prendiam o espírito; mas a sociedade não deixa. Lhe oprime. O homem não consegue trabalho, será até o fim de sua vida criminoso com pena paga.

Contudo, o que acontece quando a justiça é feita? O sujeito pagou sua pena, pagou pelo mal que fez, e aos olhos da justiça o que será dele quando libertado? Passará de presidiário à ex-presidiário.

Portanto, assustadoramente o retrado da Paris de Victor Hugo no século XIX se encaixa perfeitamente ao retrato que acabamos de fazer. A sociedade, com dúbia certeza, mudou, talvez o sujeito também tenha mudado, todavia o resultado continua sendo o mesmo. O homem continua buscando pela identidade que perdeu quando criou suas responsabilidades morais e seus deveres. No entanto, o homem só começa a agir conforme suas leis morais quando, enfim, se descobre Homem.

Liberdade igualdade e fraternidade.jpg Vive la France!


Rodrigo Normando

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