it is alive

E se as artes fossem vivas?

Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono.

A peça escocesa.

Até onde você iria para ter seus desejos e sonhos realizados? Você sujaria suas mãos com o sangue inocente? Derrubaria outras pessoas do poder e utilizaria seus corpos como uma escada de sangue até a realização do seu maior desejo? E se você não tivesse um desejo, seria possível que alguém o colocasse em você e o levasse a matar por um desejo que antes não existira?


Estamos falando sobre Macbeth, a tragédia shakesperiana que narra a história de um guerreiro leal que se torna ambicioso e atormentado pelo sangue que escorre de suas mãos.

Angelo_Bronzino_003.jpg Detalhe de Alegoria do Triunfo de Vênus, de Agnolo Bronzino.

Após a leitura, aquilo que resta no leitor em relação à obra é um sentimento pavoroso de espanto: a tragédia inteira poderia acontecer nos dias atuais através de aspectos diversos, entretanto, com o mesmo fim. Em Macbeth conhecemos o péssimo lado da ambição, aquele lado que suga sua vida para o fundo do poço. Por mais que em nossa sociedade ocidental ser ambicioso seja uma qualidade, até onde pode-se ir com essa ambição e, ainda assim, dormir em profunda paz todas as noites?

Witchers.jpeg As três bruxas que predizem e zombam da credulidade de Macbeth ao mesmo tempo.

Um trabalho digno de um verdadeiro mestre conhecedor das peculiaridades da alma humana. Shakespeare, não raramente, disseca o interior de nossos corações e nos testa com as mais terríveis “brincadeiras”. A ambição de Macbeth não difere da ambição de um empresário muitíssimo bem sucedido, daquele tipo capitalista que é capaz de destruir a carreira, acabar com a vida e as esperanças de qualquer coisa que se posicione entre ele e seu - patético – objetivo.

Javert.jpg O Inspetor Javert, obra retirada do website DeviantArt.

A ambição de Macbeth não é algo incomum, sendo, inclusive, passivel de comparação com caráter do Inspetor Javert, personagem na obra Les Misérables de Victor Hugo, cuja ambição em cumprir as leis, em matar e morrer por elas; suas ordens e leis seguidas friamente o levam à falência de espírito. Macbeth padece sob o mesmo mal.

A obra é imensamente conhecida, continuamente relida e adaptada para diversos meios, mas há em quê místico em toda a obra que concede um pensamente supersticioso em relação à obra. Essa superstição, diga-se lenda, é deveras comum em países europeus em que a tradição teatral é forte e intensa. Dizem que a peça é maligna e que não se deve pronunciar a palavra Macbeth dentro de um teatro ou algo desastroso irá acontecer. Isso é tão levado a sério que em alguns países, quando a peça é encenada troca-se o nome do protagonista para the Scotish Lord ou Scotish King.

Afora a névoa que sobe das páginas de Macbeth e penetra nos corações de curiosos, permanece o clássico da tragédia humana embebido em sangue de ambição e glória por vingança. Esqueçamos das bruxas que amaldiçoaram a peça quando a assistiram pela primeira vez e nos concetremos em analisar os pormenores da arte literária, que, transcendendo as bordas dos livros,aprega-se em nossos corações como veneno em ferimento.

MACBETH.jpg


Rodrigo Normando

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