it is alive

E se as artes fossem vivas?

Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono.

O Inverno de Franz Schubert

Os sons que nos dizem que há algo além do sentimento que sabiamente conhecemos. Amor, compaixão, pena, tristeza, o que será que delimita um sentimento de outro? Haveria alguma ponte de transição do amor para o ódio? Franz Schubert em Winterreise não expõe apenas os sentimentos, mas sim as conexões entre um e outro. Pegue um cachecol e uma bebida quente, chá, chocolate ou café, e aproxime-se para ouvir as viagens de inverno de Schubert.


Somos realmente seres fantásticos, conseguimos colocar um pouco de nós em outras pessoas, as vezes não necessariamente pessoas, mas objetos, coisas que nos são, de fato, estimadas. Todavia os tempos modernos nos fizeram esquecer de nos aproximar das coisas. Tempos modernos simplesmente nos ensinaram a tornar as coisas “habituais” tornando outras pessoas as ditas “coisas”.

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Dentro do meu baú pessoal de coisas estimadas há 24 canções com compõem um ciclo de poemas que foram musicados por Schubert. Esse alemão de bochechas rosinhas popularizou a arte de intertextualizar a literatura na música; ele punha música em textos poéticos. Tal façanha nos dias vindouros é conhecida pela alcunha “Lied”, palavra alemã que significa “canção” .

Der Leiermann, Lied No 24, Winterreise, Franz Schubert, 1827.

-Viagens de inverno- é isso que quer dizer Winterreise, que é, não por acaso, o nome das ditas Lieder. Que nos contam as reflexões de um viajante em meio as neves de um cenário europeu. Suas reflexões, assim como o tom da própria música, são graves e profundos, temas diversos que giram em torno exclusivamente da tristeza em pessoa são presentes em cada uma das 24 Lieder.

Gute Nacht, Lied No 01, Winterreise, Franz Schubert, 1827.

Franz Schubert, certa vez, disse que não havia música feliz, talvez seja por isso que seu ciclo compõe-se apenas de canções tristes. Todavia, se o meu leitor ouvir com mais calma qualquer uma das músicas do ciclo, poderá facilmente perceber que há algo além da sonoridade triste, há um quê de contemplação, como se a própria morte lhe fosse bela, se a própria tristeza lhe fizesse bem. Há algo no viajante de inverno que nos faz querer guardá-lo para sempre protegido dentro do nosso baú de coisas estimadas.

A seguinte Lied -wasserflut- permanecerá para sempre dentre as Lieder menos empoeiradas, é bela.

Wasserflut, Lied No. 06, Winterreise, Franz Schubert, 1827.


Rodrigo Normando

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