it is alive

E se as artes fossem vivas?

Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono.

Como ser eterno

No mundo das artes muito se produz; muito se perde; outro tanto não se entende. Há, no entanto, aquelas obras – nem todas primas – que se enraízam em uma terra conceitual, que florescem, amadurecem e morrem, e depois da morte são revistas, têm suas páginas revisitadas, seus traços imitados. Torna-se assim eterna. Bill Waterson é pai de uma obra eterna.


Em 1985 um menino em uma tirinha apareceu, de forma irônica, ele não fora concebido para ser o personagem principal, posto que era, apenas, o irmão mais novo do protagonista. Todavia, algo peculiar nessa personagem chamou os olhares dos syndicates que Bill Waterson – o pai da personagem na vida real – havia enviado. Waterson então dedicou-se integralmente a dar vida ao seu mais novo filho: Calvin e de brinde Haroldo.

CALVIN_FOTO.jpg Calvin e Haroldo, por Bill Waterson - Aqui Haroldo, o tigre, nos é apresentado como Calvin o vê.

Calvin é um menino que terá eternamente seis anos de idade e um tigre de pelúcia. Uma personagem cuja imaginação dá vida ao seu bichinho de pelúcia e nos incendeia com percepções aguçadas a respeito da nossa sociedade enquanto um algo, que pensamos ser, estável. Embora ambas as personagens, Calvin e Haroldo, sejam um só, que é o menino em si, há diferenças absurdas entre as personalidades que, ora se completam, ora divergem.

Tirinha 615.jpg Tirinha #615 de 26 de Julho de 1987.

Talvez Calvin viva em um mundo que nunca será real, embora tenha existido e continue existindo, um mundo que se chama ‘infância’ e no qual Calvin estará condicionado para sempre por Waterson. Contradizendo o estilo de trabalho do mundo moderno, Waterson nunca quis vender o Calvin, digo; embora recebesse pelas tirinhas, ele jamais aceitaria que a imagem de Calvin e Haroldo virasse cartoon, camisetas, canecas, filmes, séries, justamente por algo que Goethe, certa vez, parafraseou Aristóteles dizendo – A arte não deve ser barganhada.

calvin-e-haroldo-final.jpg Calvin e Harold em 'O Episódio Final' - por um fã anônimo. Aqui parece que Calvin foi diagnosticado como hiperativo e, agora, toma remédios para ser 'normal'.

ultima tira.jpg Como resposta à tira anterior outro fã, igualmente anônimo, produziu a tira acima.

Não se sabe, no entanto, se Waterson conhece o dito filosófico ou se simplesmente chegou a mesma conclusão. Aquilo que afirmamos hoje com certeza é que Bill Waterson imortalizou Calvin e Haroldo, quando em 1995 parou de criar novas tirinhas a respeito do menino e do tigre. Também, as personagens criadas por Waterson nunca foram vendidas fora das tirinhas, se há algo sobre elas como camisetas, tênis, bonés, foi totalmente feito por fãs, como símbolo de amor.

calvin26a.jpg Tira produzida por Donald Trump, empresário e apresentador norte americano.

Eis o que Bill Waterson, recentemente, disse a um jornalista sobre adaptar Calvin e Haroldo para outras mídias:

"A sofisticação visual da Pixar é de tirar o folego, mas eu não tenho nenhum interesse em fazer uma animação Calvin e Hobbes. Se você já comparou um filme com um livro, você percebe que o livro é mais íntimo. É inevitável, porque os diferentes meios de comunicação têm diferentes pontos fortes e necessidades. Como uma história em quadrinhos, Calvin e Haroldo funciona exatamente do jeito que eu pretendia que funcionasse. Não há nenhuma vantagem para mim em adaptá-lo."

No fim das contas, fechar o livro de Calvin e Haroldo, que pode ter sido uma decisão difícil, não fez nada senão imortalizar uma tirinha como nunca se fez antes. O lado negativo da história é que dentro de algumas décadas os imortais de Bill Waterson entrarão para o domínio público e, sendo de qualquer um, há fortes dúvidas quanto o respeito do próximo pela história e seus motivos.

calvinultimo.jpg Última tirinha de Calvin e Haroldo, publicada em 31 de Dezembro de 1995. Parece que o fim é, em si, um recomeço.


Rodrigo Normando

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