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E se as artes fossem vivas?

Rodrigo Normando

Gosta do sentir o sabor de uma boa música. Adorador das folhas de outono.

Os monstros segundo A Metamorfose

Escrito em um mês, A Metamorfose, do escritor Boêmio Franz Kafka, deslanchou nas prateleiras do começo do século passado deixando o mesmo rastro de repugnância que o vislumbre de uma barata gigante deixaria. Será que apenas a visão de um inseto enorme nos seria repugnante? Há de haver algo mais, não? Proponho um ponto de vista diferente do habitual, vim dizer que a maior metamorfose nessa história não é a que parece.


Gregor acorda para ir ao trabalho mas mantém os olhos fechados. Pensa, cheio de cansaço, na sua rotina de trabalho: a vida de caixeiro viajante não é nada fácil. Acordar cedo e viajar sem ter certeza de sucesso era algo que ele apenas fazia para quitar uma dívida da família. Gregor já havia sacrificado cinco longos anos de sua vida nessa profissão para guardar dinheiro o suficiente, e, com certeza, outros cinco anos se seguiriam. Quando Gregor abre os olhos descobre que se metamorfoseou em um inseto: pernas asquerosas, as costas agora são feitas de um couraço marrom. Uma imagem de uma barata do tamanho de um homem aparece já no início do livro.

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O que torna a história surreal, além da metamorfose primeira, é a maneira como Gregor reage. Ele se mostra um tanto perturbado mas ainda assim quer agir de forma natural, cogita, inclusive, em pegar a maleta e ir ao trabalho! Ele não se preocupa tanto com o fato de ser, agora, um inseto, entretanto, perceber que está atrasado para o trabalho lhe dói a alma!

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Gregor morava com seu pai, mãe e irmã, ele era a força que sustentava a casa inteira e, como já disse, a força que tentava livrar a família inteira de uma dívida que poderia colocar todos no olho da rua. Agora coloque-se na posição da família de Gregor. Imagine se, repentinamente, o seu irmão se transformasse em um inseto. O que a visão de um monstro enorme correndo pelas paredes do quarto lhe causaria? E quando você descobrisse que até a comunicação com “aquilo” através da linguagem é, obviamente, impossível. O que faria? Como se sentiria? Como resolveria? A família de Gregor tem a resposta na ponta da língua. Em poucas palavras, e sem tirar o brilho da história kafkaniana, temos um clímax no final do livro em que você, ( a irmã/irmão) propõe a morte de Gregor, e, pasmem, toda a família entende que isso é o correto a se fazer, inclusive o próprio inseto!

A metamorfose não é o que acontece a Gregor em uma belíssima manhã de trabalho, isso foi uma fatalidade. Metamorfose, a meu ver, é a transformação de uma família amável em uma família que cogita o assassinato do próprio filho. Agora leia A Metamorfose de Kafka e se pergunte o seguinte: até onde você suportaria o fardo do seu irmão? Seria, pois, capaz de mata-lo para ficar livre?

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Rodrigo Normando

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