itinerário interno

Uma alma sempre a procura de transcender os limites do real, um verbo a espera de conjugação...

Madlene Nunes Cardoso

Trago em minhas mãos a poeira das constelações para contar o tempo contido na ampulheta...

Documentário: A Paisagem Mental de Alan Moore.

Alan Moore é um dos maiores escritores de graphic novels da atualidade, dentre suas obras temos nada mais nada menos que Watchmen e V for Vendetta, clássicos dos quadrinhos adaptados para o cinema. No documentário “The Mindscape of Alan Moore: Writer, Shaman” você pode conhecer um pouco mais sobre vida, obras e os pensamentos desse “mago das palavras”, como ele mesmo se define.


“Como seres humanos, habitamos dois mundos distintos e separados, habitamos duas paisagens. Habitamos o mundo físico, sendo que ao mesmo tempo nós só podemos experimentar verdadeiramente nossa percepção deste mundo, parece que na verdade, nós mais vivemos em um mundo de pura consciência e ideias, e me surpreendem os territórios que devem existir neste espaço mental que deve ser composto inteiramente de ideias e conceitos em lugar de ilha e continentes, deve haver grandes sistemas de crenças e filosofias.”

Não entendo muito a respeito do mundo dos quadrinhos, principalmente dos chamados “graphic novels”, já tive a oportunidade de ler alguns e os que me chamaram mais a atenção foram Wathcmen e V for Vendetta, coincidentemente do mesmo autor: Alan Moore.

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Mas o que há de mais nessas histórias criadas por ele? Não é qualquer leigo que terá em suas mãos um graphic escrito por Allan Moore e entenderá todo o contexto, ele aborda da forma mais racional e inteligente possível diversas questões políticas e sociais que aconteceram e acontecem ao longo da história. Juntamente com Frank Miller, Neil Gaiman e alguns outros escritores dessa linha de quadrinhos, ele foi um dos grandes responsáveis pela gradual mudança de status das histórias em quadrinhos no final do século XX, passando a conquistar um novo público nada infantil.

Veremos a abordagem de questões como a guerra fria, 1º e 2º guerras mundiais, fascismo, nazismo, comunismo, clássicos da literatura universal, arte, etc. Sem contar a diversidade das obras que “decoram” o cenário, por exemplo, em V for Vendetta veremos um busto de Nefertiti decorando uma mesa, um quadro de Picasso na parede ou A Divina Comédia em um armário...

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Como já conhecia algo sobre a obra de Allan Moore, quis saber quem era o intelectual por trás de todo aquele enredo, então tive acesso ao documentário sobre ele chamado: “The Mindscape of Alan Moore: Writer, Shaman (A Paisagem Mental de Alan Moore: Escritor, Xamã)” de 2005. O documentário possui duração de 1h e 36min, ele trata a respeito de vida, obra e pensamento de Alan Moore e a meu ver ele divide-se em três partes, que são: 1)Infância e o despertar do interesse por quadrinhos; 2)Ascensão como escritor, as obras e suas abordagens; 3)Reflexões sobre a condição humana e intelectualidades.

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1) Infância e o despertar do interesse por quadrinhos: Ao vermos o intelectual Alan Moore não imaginamos a sua infância miserável em Northampton, Inglaterra, vindo de uma família de operários. Para ele o mundo era tudo aquilo que ele enxergava: a miserabilidade da classe operária. Para ele só existia duas estratificações sociais: os operários e a rainha. Esta visão só foi mudar após ingressar em uma escola conservadora, onde ele pode ver que existia outra classe social: a classe média.

Vemos neste início de documentário a retratação de um jovem que tinha uma boa vocação para os estudos, porém a sua condição social não lhe ajudou a manter esta posição, principalmente após ingressar em uma escola conservadora, onde a maioria dos jovens teve mais acesso ao estudo. Ele começa a deixar o estudos para trás, chegando até a ser expulso da escola aos 17 anos, Moore não tinha qualquer formação profissional, porém foi o período em que ele começou a se aprofundar cada vez mais no mundo dos quadrinhos, até então ele conhecia apenas publicações simples e monocromáticas editadas para crianças operárias que mostrava a realidade em que ele vivia.

Este acesso aos de quadrinhos, até então desconhecidos, trouxe a Alan Moore a oportunidade de conhecer um novo mundo, agora ele lia histórias policromáticas que aconteciam em Nova York, o que segundo ele era um mundo a parte, não havia diferenças entre NY e Marte, ambos eram um universo longe do seu.

“Não é trabalho do artista dar ao público o que o público quer. Se o público soubesse o que quer, ele não seria o público, ele sim seria o artista. O trabalho do artista é dar ao público o que ele necessita.”

2)Ascensão como escritor, as obras e suas abordagens: Esta segunda parte do documentário trata a respeito da ascensão de Allan Moore no mundo dos quadrinhos como escritor a partir do momento em que suas obras passaram a ser amplamente conhecidas pelo público. Este período foi quando ele passou a colaborar para a revista Warrior, agora ele podia trabalhar com toda a sua liberdade intelectual que até então era negada.

A partir de então sua obra passou a chamar cada vez mai à atenção do público que lhe fez receber a oportunidade de trabalhar para a indústria norte-americana de HQs, alcançando a popularidade que nunca havia imaginado.

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Vale lembrar que Moore teve algumas de suas obras adaptadas para o cinema como: A Liga Extraordinária, V for Vendetta e Watchman. Também vale lembrar que ele não gostou nada do que viu... Pela sua enorme decepção com V for Vendetta (realmente detonaram com a HQ) ele se recusa até hoje a assistir Watchman...

Ele havia conquistado um grande sucesso que não era eu desejo, para ele a fama não significava absolutamente nada, ela era apenas algo criado para ocupar programas sensacionalistas e revista de fofoca. Neste período Alan Moore passa a se auto intitular um “mago” e opta por viver em certa reclusão social. 3)Reflexões sobre a condição humana e intelectualidades:

Nesta terceira parte vemos várias opiniões de Moore sobre algumas questões sociais, vemos um escritor vanguardista com a mente fervilhando de ideias incompreendidas pelo grande público, o que muito o faz se tachado como louco.

Entrando novamente na questão do “mago”, o que seria isto? Segundo Moore “Os escritores e as pessoas que controlam as palavras eram tão temidas quanto um mago”, para ele um mago era apenas capaz de transformar você em um monstro, porém o escritor era capaz de escrever uma sátira que destruiria você frente a sua família, amigos, sociedade e se a sátira fosse tão boa, ela ultrapassaria os limites da história e sua vergonha seria lembrada para sempre. Moore é um mago das palavras, ele reconhece sua intelectualidade e pretende mostrar ao público, para ele a arte no geral é uma forma de magia, é uma forma que o artista tem de expor uma ideia e fazer com que o público passe a ocupar um universo ainda não descoberto, como algo místico.

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“A substancia que tem maior efeito sobre a nossa cultura e nossas vidas ó podemos ver seus efeitos, esta substância é a informação.” Vemos ainda nesta terceira parte várias reflexões pessoais a respeito da sociedade e seus avanços intelectuais, sem contar uma abordagem que retrata a questão da ciência ser um fruto da magia (ele usa a pesquisa da física quântica como exemplo).

Moore propõe a existência de um território hipotético existente em nós, humanos, o chamado “espaço-ideia” da mente que deve ser explorado para deixarmos de agir debilmente apena para viver um dia após o outro, após o alcance do ápice da capacidade intelectual. Este território hipotético não é uma questão científica, pelo contrário é uma abordagem proveniente de sistemas místicos como o tarô e a Cabala, sistemas que fornecem um mapa da condição humana.

Creio que quem tiver a oportunidade de ver este documentário irá se surpreender com a intelectualidade deste xamã, assim como se interessará sem dúvidas em conhecer a sua obra. Creio que assim como eu, você passará a ver o mundo dos quadrinhos de uma forma nunca imaginada. O que você acharia de uma história em HQ que explorasse um universo erótico trazendo personagens da literatura universal no enredo? Em “Lost girls” o autor promove um mergulho nas aventuras eróticas de três das mais populares personagens da literatura infantil: Alice, de “Alice no país das maravilhas”, Wendy, de “Peter Pan”, e Dorothy, de “O mágico de Oz”.

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Em “A Liga Extraordinária” podemos ver personagens da literatura criados por Júlio Verne (capitão Nemo), H.G. Wells (Rodney Skinner), Oscar Wilde (Dorian Gray), etc. Todos juntos lutando contra o crime em uma Era Vitoriana.

the_league_of_extraordinary_gentlemen_1280x1024 (1).jpg Documentário na íntegra:


Madlene Nunes Cardoso

Trago em minhas mãos a poeira das constelações para contar o tempo contido na ampulheta... .
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