itinerário interno

Uma alma sempre a procura de transcender os limites do real, um verbo a espera de conjugação...

Madlene Nunes Cardoso

Trago em minhas mãos a poeira das constelações para contar o tempo contido na ampulheta...

The Doors – Oliver Stone. (Por que tanto decadentismo?)

O filme The Doors foi lançado em 1° de março de 1991, ele trata um pouco sobre essa banda que foi um dos marcos do rock and roll da década de 60 e início de 70, no entanto o filme faz uma abordagem principalmente na imagem de Jim Morrison. Neste filme vemos quase que exclusivamente um Jim decadentista depressivo e entregue as drogas, mas como muitos sabem, ele foi um grande intelectual e poeta, então por que esse seu lado não é tão abordado no filme de Stone?


Muita gente já deve ter visto o filme The Doors dirigido por OLiver Stone e ter achado um verdadeiro fiasco, principalmente se você conhece a história literária de Jim Morrison.

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Oliver Stone é diretor, roteirista, cronista e historiador especializado na década de 60, segundo ele: “esta foi à década de fortes turbulências”, Stone afirmava que a década começou em 63 com a morte de John Kennedy, e isto foi retratado no seu filme JFK, que foi incluído em quinto lugar na lista dos 25 filmes mais controversos de todos os tempos. Stone ganhou três Oscars, por Expresso da Meia Noite, Platoon e Nascido em 4 de Julho.

Por gostar bastante de fazer filmes que causem alguma polêmica, alguns críticos acusam Stone de ser um teórico da conspiração e que os seus filmes manipulam os espectadores, mas apesar disso muitos consideram também que Stone é considerado um dos melhores realizadores de Hollywood e também o mais controverso.

Após a morte de Jim Morrison em 1971 toda sua obra foi dividida em dois grupos representantes legais, de um lado havia os três integrantes restantes do The Doors (Manzarek, Krieger e Densmore) que possuíam os direitos legais das músicas, do outro lado havia Pamela Courson (namorada de Jim) que herdou todos os escritos e poemas que ele vinha trabalhando. Depois da morte de Pam, em 1974, os pais dela herdaram estes escritos que ficaram conhecidos como lost writings (textos perdidos).

Stone já alimentava a ideia de fazer um filme sobre o The Doors desde 1984, após a leitura do livro No One Here Gets Out Alive, livro básico sobre Jim Morrison e a história do grupo The Doors. Muitas restrições foram impostas para Stone após a ideia de gravar o filme, os pais de Pam, que haviam herdado os poemas e escritos, negaram qualquer permissão para usá-los no filme. Também contrariando Stone, o próprio pai de Jim pediu para que não fizesse filme algum sobre seu filho, pois poderia vir a manchar ainda mais a sua imagem.

Boa parte do roteiro do filme foi baseado em entrevistas com cerca de 20 pessoas próximas a Jim. O filme The Doors foi lançado em 1° de março de 1991, exatamente 22 anos depois do concerto em Miame em 1969, onde Jim saiu de si juntamente com o público e foi condenado por obscenidade, consumo de droga, etc. Para quem gosta do grupo e principalmente para quem conhecia mais profundamente a personalidade e a obra de Jim Morrison, se decepcionou bastante com o enredo pobre que mostra Jim constantemente vivendo a base de alucinógenos e álcool, totalmente depressivo e autodestrutivo, assim como não é mostrada a união que havia entre os membros do grupo. Sem contar o Jim como a figura Dionisíaca ao extremo, o deus do sexo e das drogas, que havia a constante necessidade de “levantar” seu espírito como um xamâ ao entrar em transe para assim hipnotizar multidões.

É inútil procurar a verdadeira alma de Jim, o poeta intelectual que começou a ler obras de grandes escritores com apenas 13 anos, fica difícil saber quando ele teria tempo para ler Nietzsche, T.S. Eliot, Rimbaud, Baudelaire, Blake e Shakespeare ou até mesmo quando ele teria escrito e publicado seus poemas.

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Na ocasião do lançamento do filme, Ray Manzarek, tecladista e membro fundador da banda, detestou o que viu. “Stone fez Morrison parecer um tarado. Jim era muito mais inteligente, sensível e artístico, muito mais do que a estranha e superficial ideia que Stone exibiu. É um mau retrato do meu amigo”. Manzarek ainda sintetizou que “nós nos divertimos muito e tivemos ótimos momentos juntos” agora assista a The Doors, o filme e perceba como Stone coloca a relação da banda em queda descendente, com a ridícula exceção de uma “reunião final” onde os músicos dizem que adoraram tocar com o "Rei Lagarto" e ele se despede.

Após o lançamento do filme a crítica americana se apresentou bastante desfavorável, porém a crítica de Paris, Roma e Londres foram bem mais acolhedoras. Por si só Stone é conhecido como um diretor polêmico, não estou aqui limpando sua imagem perante a direção do filme, apena quis mostrar uma questão histórica que pouquíssimos conhecem em relação a elaboração do filme The Doors, o porquê da ausência de Jim Morrison como um dos mais célebres poeta do rock and roll.

Podemos concluir com estes dados históricos que se Oliver Stone tivesse acesso a toda obra literária de Morrison, que a família de Pam lhe negou qualquer aceso, o filme poderia ter sido melhor e muito bem aceito pelo público apreciador do grupo, é principalmente para os fãs do “Rei lagarto”. Stone deu a seguinte declaração para uma revista logo que começaram as gravações do filme: “Se meu filme for um fracasso, ele poderia ter sido salvo se tivesse podido usar os poemas”.

Para quem quiser conhecer a obra literária de Jim: A obra “literária” de Jim Morrison está hoje contida em dois volumes bilíngues, editados na França:

Lords and New Creatures (Seigneurs et Nouvelles Créatures) 12384.jpg >Une Prière Américaine et Autres Ecrits. doors une priere americaine.jpg

A seguir um poema de Jim:

OS HABITANTES DA COLINA Bem no fundo do cérebro Passando bem no limiar da dor Onde nunca há nenhuma chuva E a chuva cai suavemente sobre a cidade E sobre as cabeças de todos nós E no labirinto de correntes por baixo Sossegada e celeste é a presença de Nervosos habitantes do monte nos suaves montes de volta Répteis com fartura Fósseis, cavernas, frescas elevações de ar Cada casa repete um molde Um carro de besta trancado contra a manhã Todos dormem agora Cobertores silenciosos, espelhos livres Há pó debaixo das camas de casais legítimos Enrolados em lençóis E filhas, enevoada com sêmen. Olhos nos seus mamilos Esperem! Ouve um massacre aqui Não pares para falar ou olhar em volta As tuas luvas e o leque estão no chão Vamos sair da cidade Vamos de fuga


Madlene Nunes Cardoso

Trago em minhas mãos a poeira das constelações para contar o tempo contido na ampulheta... .
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