Camila Lobo

Gosta de andar por aí tentando encaixar o mundo de um jeito diferente, invertendo perspectivas, misturando tudo e aprendendo, aprendendo...

A arquitetura atemporal de Frank Lloyd Wright

Como a obra do “maior arquiteto americano de todos os tempos” resiste à passagem do tempo e é capaz de manter-se atual e inspiradora em um contexto de arquitetura sustentável.


Falling-water-architecture-house-design-by-Frank-Lloyd-Wright.jpg Fallingwater

Há algum tempo, em um museu de arte contemporânea, eis que me vejo diante de um tanque de vidro de uns dois metros onde flutua em um liquido azul-piscina um tubarão morto, boquiaberto, inexpressivo. A obra do artista inglês Damien Hirst, de título metafisico-mirabolante-sugestivo (“The physical impossibility of death in the mind of someone living”), vendida em leilão por 12 milhões de dólares me fez pensar em como se pode distinguir o artista comum, que talvez nos impressione, nos choque, mas não emociona, daquele artista realmente genial.

Dentre muitas respostas que obtive de fontes distintas (comprei inclusive o livro “12 million dollar stuffed shark”, tamanha minha intriga) a que mais me satisfez até hoje é a idéia de que o trabalho de um artista genial, ao mesmo tempo em que tem personalidade e é inovador, é acima de tudo, atemporal. Desde então, venho tentando encaixar essa teoria sempre que me deparo com alguma obra que me parece brilhante ou especialmente emocionante e acabo comprovando que as ideias realmente geniais e originais tem tamanha profundidade que permitem uma visão desde inúmeras perspectivas, o que faz com que transcendam o seu tempo e aportem sempre algo novo para a circunstancia atual.

Alguns exemplos que descobri recentemente foram o concerto 4`33 de John Cage que pelo seu formato totalmente conceitual (se trata de 4 minutos e 33 segundos de uma orquestra sinfônica completa em silencio) poderia ter sido composta anteontem, ainda que foi de fato concebida em 1952. É o caso também da obra de Henry David Thoureau, cuja “Desobediencia Civil” de 1848 seria cartilha obrigatória dos jovens de várias partes do mundo que lutam contra a arbitrariedade do Estado e pelo retorno dos direitos básicos civis.

Mais recentemente comprovei uma vez mais a questão da atemporalidade em relação a um arquiteto que considero genial, a americano Frank Lloyd Wright (1867-1859). Considerado pelo American Institute of Architects como “o melhor arquiteto americano de todos os tempos”, sua obra é caracterizada pela constância da qualidade e do seu estilo próprio (ele tem poucos projetos de casas particulares, as chamadas “bootlegged houses” feitas unicamente pela necessidade da comissão, mas que ainda assim apresentam alguns de seus traços característicos como os bloques de janelas horizontais ou grandes espaços abertos).

Apesar de grande parte do estilo de Wright ter-se estabelecido em seus anos no escritório de arquitetura Adler & Sullivan, onde chegou a liderar todos os projetos residenciais debaixo da tutoria do último, a obra que mais me impressiona, Fallingwater, de 1939 (ah sim, claro, impressiona a mim e à torcida do flamengo: a casa foi eleita "o melhor trabalho de todos os tempos na arquitetura americana” em 2007) vem de sua fase Orgânica, nas décadas de 1920 e 1930.

Convenhamos, o termo “arquitetura orgânica” em si já soa bastante atual. Está na pauta do dia a criação de edifícios de escritório, casas particulares e projetos públicos urbanos que utilizem os recursos naturais disponíveis ao seu redor como parte integrante da construção, evitando desperdícios de energia e conectando-os de maneira mais harmônica ao contexto onde está inserido. O Harvard Institute of Design inclusive criou a App “Eco Urbanismo” que traqueia e cataloga projetos arquitetônicos ao redor do mundo que foram bem sucedidos na questão da integração com o meio ambiente.

A versão da arquitetura orgânica pelos olhos de Wright, no entanto, parece gerada menos pela questão da proteção do meio ambiente ou pelo melhor uso dos recursos naturais por necessidade, mas mais pela questão da estética. O arquiteto chamava a integração da natureza aos projetos de arquitetura uma questão de sentido comum, desprendendo o desenho da tradição estabelecida e, somando-o à paisagem, algo para ele nada menos que natural e óbvio.

O resultado, no caso de Fallingwater, é um projeto tão harmonioso que emociona. Tanto do exterior quanto em seu interior, cada detalhe foi pensando respeitando as peculiaridades do terreno e aproveitando cada elemento natural do local. Se vê que não é algo aprendido na cartilha ou no projeto final da faculdade (que Wright nunca chegou a terminar) – é a expressão máxima de um ideal, uma convicção, unida a um talento grandioso e corajoso


Camila Lobo

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