Camila Lobo

Gosta de andar por aí tentando encaixar o mundo de um jeito diferente, invertendo perspectivas, misturando tudo e aprendendo, aprendendo...

“O Capital” e “Biutiful”, duas faces da mesma moeda.


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Em 2010, Alejandro Gonzalez Iñarritu apresentava em “Biutiful” uma perspectiva inédita e reveladora sobre a situação de imigrantes africanos e asiáticos em Barcelona, além de retratar os efeitos da crise económica em um país que durante anos não soube administrar o Estado de bem-estar e onde agora cidadãos pagam o preço dos erros crassos na gestão publica.

A sequencia dura do dia a dia de chineses em uma condição laboral atroz, a insegurança de africanos constantemente perseguidos por uma policia corrupta e a incapacidade de um cidadão espanhol de viver com decência enquanto doente terminal perturbam o expectador ao limite, guiando-o cada vez profundamente ao amago do desespero dos protagonistas. Iñarritu, entretanto, nos permite um alento ao mesclar à realidade tão vívida um aspecto espiritual, fantástico: o fato de o protagonista vivido por Javier Bardém conectar-se com espíritos, falar com seu pai falecido e prever, através da visão de insetos no teto do quarto, a aproximação da sua morte. O artificio nos permite eventuais respiros do ambiente febril da película e nos lembramos de “desacreditar”: é tudo ficção.

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Mas o que me perturbou mais em “Biutiful” não foi precisamente a dureza das cenas em si, mas o “after-taste” que me fez refletir sobre como podemos conviver com tamanha inversão de valores nas relações humanas, como podemos ser conscientes de tanta coisa errada e seguir como se nada estivesse acontecendo, como se não fosse com a gente? Em que momento a ética perdeu tanto valor na nossa sociedade e o acúmulo de capital se tornou o único e grande objetivo comum, o fim que justifica todos os meios, que nos permite fazer vista grossa e justificar para pequenos tropeços morais no nosso dia a dia?

O que o filme faz é levantar a sujeira de debaixo do tapete e mostrar que a questão deixou de ser alheia, que em uma sociedade democrática e cada vez mais liberalista e globalizada somos todos sujeitos desse mecanismo, em maior ou menor escala, por ação ou omissão.

Ainda que não haja nenhuma semelhança em estética e roteiro, o sensação “pós-Biutiful” me veio imediatamente à tona depois de assistir ao “O Capital”, do grego Konstantino Costa Gavras (2012). Mostrando o dia a dia de um banqueiro de alto nível em Paris (e suas viagens por hotéis de luxo em Tokio, Nova Iorque, Miami...) o filme revela a outra cara de uma mesma moeda, já que volta a provocar a mesma questão da (pouca) relevância da ética no mundo atual. Neste caso, o banqueiro parece ignorar que suas escolhas afetem profundamente a vida de muitas pessoas, direta ou indiretamente. Promove uma demissão massiva para melhorar a performance do banco na bolsa de valores e atrai os investimentos de um ditador africano, financiando um sistema de corrupção que gera violência e pobreza para todo um país. Garante seu bônus de 1 milhao de euros. C´est la vie.

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O ponto do “irreal” também está presente como maneira de jugar com a realidade da trama a través da escolha do ator Gad Elmaleh, famoso ator de comédia francês, para o papel principal. Sobretudo na cena final do filme, na qual é aplaudido pela cúpula do banco ao prometer “manter os ricos mais ricos e os pobres mais pobres”. A cena é incrivelmente e irônica e choca por, no final das contas, ser real.

O que os dois filmes tem em comum, afinal, é questionar até que ponto nos deixamos guiar pelo “amo” (como se refere ao dinheiro em “O capital”) e passamos a ver ao outro, que bem pode ser nosso vizinho, nosso tio ou o amigo do trabalho, como um sujeito alheio em uma dissociação tamanha do nosso papel no coletivo que realmente acreditamos que nossas decisões como políticos, empresários, trabalhadores ou cidadãos não devem considerar, acima de tudo, o bem estar comum. “Don´t trust banks” diz o banqueiro ao familiar que lhe pergunta sua opinião sobrea melhor opção de investimento.

Bom, termino com uma frase do ex-presidente checo Vaclav Havel que li recentemente e resume para mim o fato da responsabilidade de uma sociedade mais justa estar em nossas mãos, individual e coletivamente, e não unicamente no “sistema” no qual vivemos: “Sem obrigações e valores morais amplamente compartidos e enraizados, nem a lei, a democracia, o governo ou a economia de mercado funcionarão devidamente”.


Camila Lobo

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