É indiscutível a importância – e o poder para nos transbordar de sentimentos – que a trilha sonora possui em uma produção cinematrográfica.
O diretor japonês Shunji Iwai parece ter como dogma esta ideia. Em seus filmes "Swallowtail Butterfly" (1996) e "All About Lily Chou-Chou" (2001), deu um papel mais do que essencial às músicas que compõe a trilha sonora. Mais do que um atrativo sonoro, as canções – produzidas, em ambos os filmes, pelo renomado músico Takeshi Kobayashi, em uma parceria que se tornaria notável entre os dois profissionais – caracterizam-se como um canal por onde os personagens transmitem aquilo que é indizível pelos diálogos e servem como forma de afirmar e (trans)formar identidades.
Depois de perder sua mãe e passar de mão em mão até chegar aos cuidados da prostituta Glico (Chara), Ageha (Ito Ayumi) se depara com a dura realidade dos imigrantes que foram ao Japão em busca de fortuna e, consequentemente, melhores condições de vida. "Swallowtail Butterfly" é um realístico retrato das ambições humanas e do que as pessoas são capazes de fazer para realizarem seus sonhos e lutarem por seus ideais. Com este intuito, Glico e seus companheiros que sofreram o preconceito por serem estrangeiros acabam encontrando a sorte e ganham a chance de mostrar do que realmente são capazes. Glico rende-se à música e, em suas canções, tenta afirmar quem realmente é e de onde veio.
Eu estava mal ontem à noite
Há muito com o que lidar aqui
Eu não sabia como seguir em frente
Ainda sortuda
Toda a confusão em minha cabeça agora está sumindo
Entre a multidão na rua
(Sunday Park)
Depois de colocar tudo que acredito em meu bolso
Eu andei um longo caminho, a grama do verão balançando ao vento
Há uma dor em meu coração, uma miragem reluz na distância
A tristeza não ecoará neste mundo contaminado
Eu só estou esperando por algo que eu passei, em algum lugar...
(Swallowtail Butterfly)
Já em "All About Lily Chou-Chou", a música ganha um papel ainda mais importante no desenvolvimento da trama: através de uma narrativa descontínua, vemos que ela é a principal influência na vida dos dois personagens principais que, juntos com um grupo de pessoas em um fórum online, afirmam que a música de sua ídolo Lily Chou-Chou tem um efeito inebriante e etéreo sobre eles, sendo sempre citado como “o Éter”.
Em meu coração eu posso ver
As sobras daquilo que não foi tomado
Suas desculpas e mentiras são inúteis como o lixo
A escada para o céu está em um lugar
Onde as mãos não podem chegar
O céu do entardecer é rubro
Se tornará negro em breve
Então jogue fora essas asas que não podem voar
- Oh, se eu jogá-las fora
Eu estarei voando e dançando
(Tobenai Tsubasa)
Aqui, as canções adquirem praticamente um aspecto de “hino ideológico” para os jovens, servindo também como a principal válvula de escape para aqueles que não encontram um sentido tangível para a vida, mergulhando em um profundo desespero em busca da salvação no “Éter”. No entanto, a busca – como muitas coisas na vida – parece inútil aos olhos da cantora, afirmando que a “escada para o céu” é inalcansável. Daí o aspecto denso do filme e da trilha sonora que o acompanha.
Aquilo que é como o vento, como cicatrizes. É erótico, como o som do mar.
(Erotic)
Por nenhum razão em especial, pelas ruas da tarde
Na multidão sombria, eu respiro...
Nós queremos ir.
Desejos que eu não tenho vontade de reprimir urgem de repente
Grande dirigível, me lança para cima.
(Hikousen)
Em um misto de poesia e música experimental, a trilha sonora fica por conta da cantora Salyu e o trabalho de Takeshi Kobayashi foi tão elogiado que encontramos até mesmo uma das músicas de Lily Chou-Chou no filme "Kill Bill", de Quentin Tarantino.
Por fim, encerro por aqui este pequeno artigo que procurou definir, mesmo que timidamente, o real papel que, por vezes, tem a música em produções cinematográficas. É visível o cuidado do diretor Shunji Iwai em deixar discretas lacunas em seus filmes com o intuito de tê-las preenchidas pelas composições de Kobayashi e, consequentemente, com as interpretações dos espectadores, que associam a melodia às suas próprias experiências e, por fim, podem compreender um pouco mais sobre a psicologia e a identidade dos personagens nos longa metragens.
Todas as músicas citadas neste artigo podem ser ouvidas aqui.
Comentários
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Guilherme
Que coiso legal!
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