jardim selvagem

Gotas de chuva sobre a folhagem

Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Sobre a (não) liberdade artística e outros demônios

Sobre tentativa de calar as letras e aprisionar aquilo que, pela norma culta, chamamos de liberdade (artístico-literária ou não).


Norma culta: termo utilizado, em grande escala, pelos estudantes da língua portuguesa (e suas literaturas) para designar a maneira de escrever que está presente em todos os dicionários e que nos é ensinada, desde sempre, na escola, como a maneira “correta” de escrever.

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Apesar do visivelmente simples conceito que este termo carrega, há de se ter em conta que a língua é viva e sua oralidade é mais veloz do que sua escrita, o que acarreta em diferentes maneiras de expressar o que se sente, através do fenômeno que nomeamos como “variantes linguísticas”.

A introdução deste texto, com cara de ter sido retirado de um livro didático, tem o intuito de chamar a atenção de estudantes, professores, leitores e “simpatizantes” da literatura para o projeto de lei nº 1.983/2011, protocolado na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais pelo deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB), “que proíbe a distribuição na rede de ensino pública e privada do Estado de Minas Gerais de qualquer livro didático, paradidático ou literário com conteúdo contrário à norma culta da língua portuguesa ou que viole de alguma forma o ensino correto da gramática de nosso idioma nacional, bem como conteúdo que apresenta elevado teor sexual, com descrições de atos obscenos, erotismo e referências a incestos ou apologias e incentivos diretos ou indiretos à prática de atos criminosos”.

Com a aprovação de tal ideia, os alunos de escolas públicas mineiras não estudarão obras de autores imprescindíveis da literatura brasileira como Guimarães Rosa e Clarice Lispector, apenas para citar dois grandes nomes. Logo, praticamente todo o movimento modernista será banido, já que uma das principais características de seus autores era a rebeldia contra o que chamamos de “normal culta”, explicado logo no início. Além de obras modernistas, outras que foram escritas em épocas onde o português diferia do que conhecemos atualmente também podem ser esquecidas, fazendo com que a sociedade perca, assim, um enorme e riquíssimo patrimônio histórico-cultural. Será a língua algo tão reciclável, onde a cada novo acordo firmado toda a produção anterior é esquecida?

A literatura, como um dos mais antigos e sublimes meios de expressão artística, usa da liberdade como uma das principais armas para a construção de seu material. “Erros” gramaticais (normativamente falando), que muitas vezes procuram dar um novo sentido àquela palavra, (des)construções em diversos níveis e até criações de palavras novas são algumas das grandes armas usadas pelos escritores para garantir novos sentidos e originalidade às suas obras. Inspiração, sentimentos e a fome por traduzi-los em palavras não pode ser detido, não se limita por regras. Pelo contrário, se rebela contra elas.

Não se trata apenas do descaso com obras clássicas, mas com toda e qualquer forma de expressão literária contemporânea e a que ainda está por vir. Semelhante ao tempo em que se lutava para ter voz, agora é preciso o mesmo esforço para que tenhamos o direito de produzir (e consumir) literatura – seja clássica, paraliteratura ou amadora – com a segurança de podermos deixar voar esse sentimento que é como um pássaro selvagem e que, de acordo com a norma culta, chamamos de liberdade.


Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio..
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