jardim selvagem

Gotas de chuva sobre a folhagem

Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

O ventilador, as margaridas e o alvorecer


impressionsoleillevant.jpg

O barulho do ventilador girando em seu próprio eixo, sem ir a lugar algum, traz até mim os aromas, sabores e desgostos de memórias inocentes que costumavam ficar escondidas em algum lugar do meu eu. Eu posso ver um menino – que braços finos! – que traz em seu semblante um enigma infantil que ele desvendará ao amadurecer – ou talvez perceba que é indecifrável.

As margaridas no jardim da escola são pisoteadas pelos pequenos pés saltitantes das crianças que correm em círculos, e as lágrimas que escorrem das pétalas agora sujas afundam na terra, plantando a esperança de que novas flores, cuja cor é de um amarelo alegre, possam florescer novamente ali. O buraco escuro no tronco da árvore que se encontrava no centro do pátio lhe fascinava. Ali depositara seus medos, suas cartas de amor com erros ortográficos, sua raiva e palavras de melancolia. O vácuo presente na árvore era como o que havia em seu coração. Ou talvez ele, em si, fosse o vácuo. Talvez tivesse sido devorado por ele sem dar-se conta.

De volta à classe, silêncio. As crianças apenas conseguem falar alto, mas nada se ouve realmente. Seus ouvidos não decifram o que sua mente não quer notar. Sentado na pequenina cadeira de marfim, feita especialmente para acomodar alguém de seu tamanho, o garoto observa de longe a árvore grande e imponente que havia lhe devorado. Do buraco, vê um inseto sair e ser abençoado por um raio de sol. Era um inseto tão pequeno quanto sua existência, pensou ele, mas com um desejo de alcançar o sol tão grande quanto o seu.

Ao som do sinal, o garoto de braços e pernas finas correu com sua mochila nas costas. Ele sairia daquele buraco escuro e encontraria seu raio de sol, e nem mesmo o alvorecer o impediria disso. Ele havia amadurecido, e estava florescendo como as margaridas que, mesmo pisoteadas, se reerguiam belas e sem medo.


Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/literatura// //Michael Pantaleão