jardim selvagem

Gotas de chuva sobre a folhagem

Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Uma história de amor para a nova geração


"Nas nossas drogas e no nosso amor, nos nossos sonhos e nossa fúria, turvando as linhas entre realidade e fantasia". Uma interpretação do "Romeu e Julieta" descaracterizado e imoral de Lana Del Rey.

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“O dinheiro é o hino do sucesso”. Com estas palavras a recém descoberta Elizabeth Woolridge Grant, conhecida mundialmente pelo seu nome artístico Lana Del Rey, começa sua canção “National Anthem”, cujo videoclipe gerou diversos elogios – e pesadas críticas – ao ser lançado.

A origem da polêmica é clara nos primeiros momentos do vídeo. Del Rey escolheu retratar parte da vida (e a morte) do ex-presidente americano John F. Kennedy na tentativa de ilustrar sua “história de amor para a nova geração”, como canta em um dos últimos versos.

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No entanto, admira-me que novos artistas (pressionados pelas gravadoras para venderem milhões de discos e trabalharem como caixinhas de música) usem temas por vezes controversos e referência inteligentes, como a senhorita Grant nos apresenta agora.

Começamos com Lana Del Rey recriando a antagônica cena de “Happy Birthday, Mr. President”, originalmente performada por Marylin Monroe em 1962.

Na segunda cena, Lana toma o papel de Jackeline Onassis em sua vida tipicamente americana e feliz, regada de reuniões com amigos, passeios pela praia com os filhos e extravagâncias. Podemos tirar uma fotografia daquilo que podia ser considerado como uma "união estável e tranquila".

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No entanto, é agora que Del Rey pretende dar a ideia de que o que parece perfeito aos olhos da sociedade, na verdade está apodrecendo por dentro: os boatos de que Kennedy tinha Monroe como amante rondam até os dias atuais, depois de décadas, mas a existência do então triângulo amoroso nunca destruiu a perfeita pintura da felicidade que o presidente e sua primeira dama transmitiam. Nem tudo o que parece realmente é.

Por outro lado, a canção caracteriza-se, de facto, como um hino para a perda da inocência ao nos aventurarmos na imensidão misteriosa que definimos como “amor”. É a tentativa de retratar através de versos a instabilidade do que, por vezes, acreditamos ser eterno. No entanto, a perda da inocência e o amadurecimento nos traz à tona a terrível realidade de que tudo pode acabar num piscar de olhos, na mesma velocidade em que uma bala dança no cano de uma arma e rasga o ar por onde passa, daí materialização desse sentimento na morte de John Kennedy no vídeo.

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Mas engana-se quem pensa que o foco do vídeo é a morte do ex-presidente. A cena em que o tiro é disparado é rápida e sem muitos detalhes. O foco é dado antes, no entrelaçar de dedos, na demonstração de amor. Mais do que a destruição daquilo que se acreditava ser eterno, a canção dá enfoque à pessoa que mais sofreu com a perda, com o fim do sonho.

“National Anthem” é um belo retrato da geração que vive “em uma agitação desenfreada, vencendo e jantando, bebendo e dirigindo, comprando excessivamente, tendo overdoses e morrendo”. É o caminhar pela linha tênue que divide a realidade e a fantasia, é o impacto do amadurecimento, é a ruína de um mundo que parecia indestrutível.


Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio..
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