jardim selvagem

Gotas de chuva sobre a folhagem

Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Os ensaios de amor de Alain De Botton

"Essays In Love" mostra, através de ensaios que viajam do divertido ao trágico, como o relacionamento de duas pessoas se desenvolve, do dia em que se conheceram até o momento em que tudo acaba sob uma perspectiva inteligente e moderna, citando também mestres como Platão e Marx.


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Antes de começar a escrever aqui, tentei me lembrar das regras que minha professora ensinou no primeiro ano de faculdade para fazer uma boa resenha. Mas daí lembrei que isso não será um texto acadêmico, então não preciso seguir nenhuma norma e muito menos colocar o sobrenome do autor antes do primeiro nome, em caixa alta (apesar de gostar de fazer isso em todas as situações). Eu posso escrever como quiser.

Comecei minha maratona de leitura nas férias de verão com o livro "Essays In Love", do Alain De Botton. Não que minha “maratona” consista em uma lista com mais de três títulos, mas qualquer coisa que eu possa ler sem ser por obrigação pra alguma disciplina da universidade é lucro.

“Essays In Love” trata-se, como o nome diz, de uma série de ensaios que acompanham o relacionamento de duas pessoas, desde o dia em que se conheceram até o dia em que os corações se partem. O autor analisa o amor sob diversas perspectivas, citando diversos autores (de Platão a Marx) e ilustrando tudo com situações do cotidiano pelas quais todos nós passamos.

O que achei mais curioso nessa livro foi a forma como ele se caracteriza praticamente como uma sessão de auto-ajuda com tom romanesco. Eu, como leitor, mal consigo dizer onde a história do casal acaba momentaneamente dando lugar às opiniões, análises e intertextualidades do autor. Você termina cada capítulo (ou ensaio) com a cabeça dando giros de 360º com as observações que ele fez – coisas óbvias mas que você nunca pensou, ou melhor, escreveu sobre – e ainda fica aflito pelo destino do casal. Achei genial. Em um dos ensaios, provavelmente o meu favorito, De Botton cria uma ponte entre o amor e o Marxisto, ao falar sobre como às vezes preferimos o amor como apenas uma fantasia, um desejo distante pois, ao alcançá-lo, simplesmente deixamos de o querer.

Marxists unconsciously prefer that their dreams remain in the realm of fantasy.

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Outro ensaio interessantíssimo é “Speaking Love”, onde somos obrigados a pensar sobre a (des)importância de dizer as três palavrinhas que geralmente nos ficam engasgadas. O autor aponta o fato de pelo menos uma sociedade (em Manu, na Nova Guinea) não haver sequer uma palavra para descrever “amor”. Diz também que o que sentimos é possivelmente influenciado pela mídia que nos rodeia (como músicas de amor que tocam nas rádios) e que, segundo La Rochefoucauld

Some people would never have fallen in love if they never heard of love.

Acredito que estes dois exemplos sirvam para deixar qualquer um ao menos um pouco curioso para descobrir o que Alain De Botton tem a dizer sobre a complexidade do amor em seus outros vinte e dois ensaios. E acreditem, haveria assunto para ainda mais textos se tratando de um tema como esse.

Ficou a dica pra estante de vocês.


Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio..
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