jardim selvagem

Gotas de chuva sobre a folhagem

Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Haruki Murakami: um retrato do escritor em fuga


Um breve relato sobre o tema mais recorrente nas obras do romancista Haruki Murakami: a fuga, em seus mais diversos sentidos.

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Em Portugal, um fato curioso chamou minha atenção: ao entrar nas livrarias, os livros de Haruki Murakami permaneciam por semanas na prateleira dos mais vendidos. Traduções em português de um autor asiático não costumam ocupar tal posto, principalmente quando não há uma jogada comercial por trás de tudo isso (um filme, por exemplo). A explicação mais plausível é que Murakami escreve histórias que acontecem no Japão como metáforas para sentimentos e dúvidas extremamente universais.

Nascido no Japão do pós-guerra, Murakami teve sua vida marcada pelo rastro do medo de toda uma geração, e procurou fugir da sociedade nipônica através da música e da literatura. Sempre sofreu influência da cultura ocidental, principalmente da literatura norte-americana, o que o diferenciaria da maioria dos escritores japoneses quando, aos 29 anos de idade, escrevesse seu primeiro romance: "Hear the Wind Sings".

Depois de formado em Teatro, o autor cuidou, por alguns anos, de um Jazz-Café - o Peter Cat - em Tokyo, na companhia de sua mulher, e escrevia após o expediente, durante a madrugada. Traduziu também obras importantíssimas para a língua japonesa, como "The Great Gatsby" e "My Lost City", de F. Scott Fitzgerald e "The Catcher in the Rye", de J. D. Salinger.

O seu maior êxito veio em 1987, com o sucesso de vendas “Norwegian Wood” (título que faz referência à canção dos Beatles), uma história sobre sexualidade, solidão e a perda da inocência. Mais tarde, em 2010, foi lançado uma adaptação cinematográfica da obra, dirigida por Tran Anh Hung.

No entanto, o tema principal de Murakami é, sem dúvidas, a fuga. Em "Kafka on the Shore", o protatonista Kafka Tamura foge da vida oprimida que leva com seu pai para encontrar a mãe e irmã desaparecidas, mas foge também da possibilidade de se ver envolvido em uma tragédia grega (referência à "Édipo Rei", de Sófocles); Sumire, em "Sputnik Sweetheart", faz sua fuga geográfica até a Europa em função de sua paixão, Miu, e depois desaparece como areia fina após uma brisa na Grécia; e os personagens do romance citado anteriormente, "Norwegian Wood", também encontram-se em movimento: Naoko corre desesperadamente dos traumas que a tornam tão emocionalmente instável, enquanto Toru precisa fugir do vazio deixado em seu peito pela amada, buscando sua fuga nos livros e no Jazz - o que nos remete a figura do próprio Murakami.

É certo que a "persona" do próprio autor encontra-se, como não poderia deixar de ser, em muitos de seus personagens. O sentimento de um homem que viveu em um país assolado pela guerra e que não se orgulha disso transborda pelas linhas de seus romances; seu único refúgio era a arte, em suas mais distintas manifestações.

Isso torna Haruki Murakami um dos romancistas mais célebres da atualidade: escreve de maneira simples o sentimento complexo de se sentir deslocado, o desejo quase imparável de se deslocar, de manter-se em movimento para não cair no mais profundo abismo do "eu", da consciência do que se é, de onde se vive.


Michael Pantaleão

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