jardim selvagem

Gotas de chuva sobre a folhagem

Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Fontes

Rilke disse uma vez que até a mais sublime ideia pode se tornar banal se proferida muitas vezes. Logo, não posso sempre beber da fonte presente em meu quarto que, coitada, parece ter secado há muito tempo.


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Estive pensando em escrever sobre algo e faço agora, com urgência, enquanto o fado toma conta do ambiente. Estranho ouvir música portuguesa e não entender praticamente nada, mas ser tomado por uma sequência de emoções causadas por ela. Deve ser o café. Ontem em meu quarto tentei escrever algo e a tentativa foi em vão. Dominado pela frustração, percebi que minhas linhas sempre começam descrevendo a grande janela a minha frente, a pouca luz que ela deixa entrar, tornando o meu quarto um ambiente que varia entre o mórbido e o confortável, ou a fumaça provocada pelo incenso.

Acredito que uma história, mesmo que péssima, jamais poderia surgir dali. Escrevo o que vejo, e é exatamente esta a paisagem com a qual me deparo todos os dias, sem exceção. No entanto, Rilke disse uma vez (e não me perguntem onde exatamente vocês poderão encontrar isso em Cartas a um jovem poeta) que até a mais sublime ideia pode se tornar banal se proferida muitas vezes. Logo, não posso sempre beber da fonte presente em meu quarto que, coitada, parece ter secado há muito tempo. Enquanto escrevo, o magro homem que facilmente poderia ser confundido com um andarilho profere palavras incompreensíveis a mim enquanto canta o fado com sua voz quase desumanamente forte, acompanhado pelo som melodramático da guitarra de Coimbra que chora e pelo suave sussurrar do violão. As canções são antigas, mas nem por isso perderam a magia ao serem interpretadas agora. Algumas fontes não secam. É como se a arte, às vezes, encontrasse um moinho que renovasse sua água, fazendo com que ela sempre corra como se percorresse caminhos virgens.

Não posso me renovar, sinto que tudo em mim fica mais velho com o passar dos minutos, e também não sei onde encontrar a virgindade das coisas para dessas fontes beber. Acho que, na verdade, estou constantemente recebendo coisas novas, só não dou-lhes o devido valor: não escrevo. De que adianta viagens para lugares belos e desconhecidos se, ao me deparar com tudo isso, apenas dou um gole no meu café e, com olhos de ressaca, suspiro? O que é arte deve ser colocado no papel, e o que não é transformasse. Afinal, até o que por vezes é incompreensível pode resultar nas mais belas – e também incompreendíveis – emoções, como o som do fado que agora cessa, deixando apenas silêncio e o cheiro de café no ar.


Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio..
Saiba como escrever na obvious.
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