jardim selvagem

Gotas de chuva sobre a folhagem

Michael Pantaleão

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Da pornografia e seus demônios

Uma breve análise da evolução da pornografia, desde a origem do termo até a conquista de tais produções no grande mercado 'mainstream' mundial, e as problemáticas que esse gênero de criação imagética produz.


A pornografia é uma das formas mais antigas de representação do corpo humano nu e do ato sexual. Suas realizações sobreviveram o passar do tempo e se transformaram de acordo com a época e o contexto social em que se encontravam no momento.

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Pornografia. A palavra deriva do grego clássico porno, que significa “prostituta” em conjunto com o sufixo –grafia, que indica um escrito sobre determinado assunto. Logo, podemos entender o termo pornografia como “um escrito descritivo ou uma ilustração de prostitutas”. A pornografia é, inicialmente, a representação explícita de uma matéria sexual com o intuito de gerar algum tipo de gratificação, que hoje encontra diversos meios para se propagar como a literatura, os jogos eletrônicos, revistas especializadas, filmes, etc.

Para compreender este fenômeno, devemos ter em mente que as primeiras manifestações desta natureza aconteceram há muito mais tempo do que imaginamos. Como exemplos, citarei primeiramente uma escultura encontrada na Áustria, que se acredita ter sido feita entre 2500 e 2000 a.C., intitulada Venus de Willendorf. A imagem representa uma figura feminina nua. Já no século XIX, o pintor e gravurista japonês do período Edo (1603-1868) causou uma ruptura na arte nipônica ao mostrar suas obras contendo um alto teor explícito (para a época e para a sociedade em que elas se inseriam). Uma das mais famosas é The Dream of the Fisherman's Wife (1814), onde uma mulher é estimulada sexualmente por dois polvos. No mesmo século, Gustave Courbet provocou a crítica e os consumidores de arte na França com uma de suas pinturas mais simbólicas da estética realista, L'Origine du monde, que trata-se do retrato o corpo despido de uma mulher, dando especial foco em seu abdômen e órgão genital.

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A pornografia encontrou seu auge no final do século XIX com os filmes eróticos, que surgiram logo após a criação do motion picture em 1895, tendo Eugène Pirou e Albert Kirchner como pioneiros dessa nova arte. O cinema trouxe consigo a possibilidade de popularização de um tipo de manifestação que até então estava oculto pela subjetividade artística e a dificuldade em compreendê-la (e até mesmo usufruir dela, visto que o acesso à arte nunca foi democrático). A quantidade de cenas produzidas e a facilidade em acessá-las contribuíram para a naturalização de tais manifestações visuais.

Apesar do grande espaço que a pornografia acabou conquistando na cultura visual contemporânea, alguns movimentos assumem-se terminantemente contra tais manifestações por diversos motivos. Uma das maiores fontes de argumentação contra o a pornografia encontra-se em grupos cujas crenças religiosas mostram-se contrárias à exibição explícita do corpo nu e do ato sexual. Apesar de não existir nenhuma passagem na Bíblia que diretamente proíba a produção ou o consume de imagens com teor sexual, muitos adeptos da Igreja Católica baseiam-se na interpretação de Mateus 5:27-28 para contestar esta prática: “Vocês ouviram o que foi dito: 'Não adulterarás'. Mas eu digo: Qualquer que olhar para uma mulher e desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração”.

Algumas feministas mostram-se também contra a pornografia pelo seu caráter misógino, argumentando que esta é uma industria que comercializa o corpo feminino, além de ser cúmplice na violência contra a mulher. é preciso entender que os filmes pornográficos, por exemplo, caracterizam-se pela atuação de profissionais (atores) pagos pelo serviço, tratando-se, por isso, de uma obra fictícia. No entanto, “representation refers to the use of language and images to create meaning about the world around us” (Sturken e Cartwright, 2009). Tais produções cinematográficas ajudam a criar uma ideia falsa do corpo da mulher, da sexualidade, do desejo e do ato sexual em si.

Estes filmes tem a tendência de colocar o homem no papel de dominador, de “líder”, aquele que conduz o ato sexual e encontra o prazer enquanto prova para o espectador (e para si mesmo) sua masculinidade, enquanto a mulher é caracterizada apenas como um objeto - é coisificada, perdendo seu ato, sua voz e seu prazer.

Além disso, a figura social da mulher é completamente distorcida a partir do momento em que os filmes pornográficos tem a tendência de retratá-la como um ser fácil, indefeso, que está sempre disponível para o ato sexual independente da situação, do local e do parceiro. “Women who charge men with sexual abuse are not believed. The pornographic view of them is: they want it; they all want it” (MacKinnon). Outra questão a ser abordada pela crítica feminista à pornografia é a disseminação da violência contra a mulher através de filmes eróticos, além do silenciamento das mulheres ao tentarem expressar suas próprias vontades. Vemos o estupro, por exemplo, ser comumente erotizado em produções direcionadas ao grande mercado.

Logo, o desejo de criar uma pornografia sem relações assimétricas de poder entre duas (ou mais) pessoas, com uma visão real sobre a sexualidade, onde o prazer é compartilhado e a mulher caracterizar-se-ia como um ser ao invés de um objeto são as motivações para a criação de um novo tipo de imagens. Esta pornografia, que se transforma num meio de expressão feminista, detém uma pequena mas crescente parcela no mercado. É um trabalho consciente para contradizer - e problematizar - outras pornografias que representam o ser humano como objetos sexualmente unidimensionais.

O movimento da pornografia feminista procura ressignificar as imagens que essas manifestações visuais costumavam transmitir aos seus espectadores. O prazer masculino e feminino são igualmente importantes. Um bom exemplo é a coletânea de curta-metragens pornofeministas suecos Dirty Diaries, produzida por Mia Engberg com produções de diversas diretoras. A produção foi recebida com críticas negativas e controvérsias em seu país de origem, especialmente pelo fato do orçamento dos filmes ter vindo do governo Sueco.

É necessário pensarmos na pornografia como uma forma de expressão plurissignificativa, que pode carregar significados diversos em situações diversas, sendo estas mensagens direcionadas a diferentes públicos capazes de (re)interpretá-las e extrair delas novos valores.


Michael Pantaleão

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