jollyroger 80s para as massas

Os sistemas caóticos possuem uma ordem oculta.

Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo

Batman de Tim Burton: 25 anos depois, o filme ainda tem muito a dizer

O filme Batman, dirigido por Tim Burton, acaba de completar 25 anos. A obra, que já nasceu clássica devido ao seu apelo visual, ainda divide opiniões em relação às suas escolhas na construção dos personagens e da trama. Mas, se formos comparar com a visão realista de Christopher Nolan, o filme de 1989 pode ser considerado infantil? Acho que não. Batman é resultado de um trabalho artístico coletivo, e o filme de Burton possui personagens tão complexos e interessantes como os da última trilogia de Nolan.


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Quando uma obra de arte alcança determinados estágios de existência é comum a ocorrência de uma celebração coletiva acompanhada de uma revisão de seus conceitos, de sua importância e, principalmente, a análise sobre o que a mesma ainda tem a dizer. O Cinema, enquanto forma de arte inserida no que podemos chamar de Indústria Cultural, fornece produtos que são reflexos do contexto histórico, político, estético e comercial da época.

No entanto, algumas obras tornam-se fenômenos instantâneos de bilheteria, causam uma euforia generalizada e tempos depois passam a ser apenas um passatempo esvaziado de conteúdo, quando não esquecidas.

E o que dizer de obras que praticamente já nascem clássicas? Como analisar da maneira mais imparcial possível, certos fenômenos culturais que provocam excitação e discussão a níveis planetários? Ainda mais quando foram lançados em uma época em que a profusão de informações não ocorria com a velocidade e abrangência de hoje.

São vários os exemplos, mas em virtude da data, e por questões afetivas pretendo tratar aqui de BATMAN e dos 25 anos do filme de Tim Burton estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson. Desde sua estreia, o filme já voou por todos os tipos de mídia e angariou todo tipo de reação, amores e ódios.

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Em 1989 o personagem Batman completava 50 anos e a editora DC Comics lançava uma série de edições especiais para comemorar a data (como por exemplo, "O Messias" e "A Piada Mortal"). O personagem ainda gozava da imensa popularidade alcançada pela minissérie de Frank Miller "O Cavaleiro das Trevas" (The Dark Knight Returns). Os sombrios anos 1980 colocavam Batman em um contexto sinistro, gótico, solitário e violento.

Vale ressaltar que o personagem é dinâmico o suficiente para transitar com bastante propriedade pelas mais diferentes versões e cenários. Se pararmos para analisar, o Homem-Morcego em sua história já passou muito mais tempo colorido e sorridente do que como uma criatura sombria.

Por isso, filmes como "Batman Eternamente" e "Batman & Robin", ambos de Joel Schumacher, não devem ser vistos como desrespeitosos ao ícone. Porque enquanto mito, ele pode e deve servir às mais diversas interpretações. E isso é ótimo!

Por que ficarmos com apenas uma visão do personagem? Compreendo a revolta causada quando a essência de algo é deturpada, mas talvez já tenha passado da hora de abandonarmos os radicalismos e sermos mais maleáveis, ainda mais se estivermos tratando de um personagem de histórias em quadrinhos.

Devemos nos permitir novas interpretações, visões, diversões. Não sejamos carrancudos e deixemos que Batman possa ser o que ele tiver de ser. Acredite, Adam West, Burt Ward e até mesmo George Clooney merecem suas gargalhadas.

Divagações à parte, voltemos ao filme de 1989. A estreia de Batman causou uma euforia generalizada, pois tratava-se de uma visão séria e dark do personagem que, pela primeira vez era pintado com tons épicos. Independentemente dos fins e dos meios o Cinema é uma manifestação artística coletiva. E sempre considerei injusto quando o valor de um filme é reduzido ao enaltecimento somente da figura do seu diretor.

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Por isso, gostaria de fazer justiça e afirmar que o valor do filme de 1989 está nas mãos de um coletivo de artistas, que podemos resumir em: Tim Burton, Michael Keaton, Jack Nicholson, Sam Hamm, Anton Furst, Bob Ringwood e Danny Elfman. O diretor, os protagonistas, roteirista, designer de produção, figurinista e o compositor, respectivamente.

Mesmo o personagem Batman, em essência é fruto da dedicação e criatividade de centenas de artistas que trabalharam nele por décadas. Não é somente de Bob Kane. Batman deve muito a artistas como Bill Finger e Jerry Robinson (co-criadores de Robin e Coringa), Frank Miller e Alan Moore. O vigilante de Gotham é resultado de um ininterrupto processo de construção coletivo, assim como seu filme que teve por objetivo representar a versão definitiva do personagem até aquele presente momento.

No final dos anos 1980, Batman era um vigilante sombrio, incansável, implacável e violento. E que no referido filme possui um ar um tanto psicótico e assassino. A desaprovação sofrida por Ben Affleck atualmente não chega perto do que Michael Keaton sofreu quando foi escolhido para o papel.

A decisão não foi uma jogada de marketing, mas uma escolha conceitual de Burton, que confiava que o ator poderia fazer um autêntica interpretação apesar de ser conhecido por papéis cômicos. A performance de Keaton, como Beetlejuice é hilária e nos leva a crer que ele também poderia fazer um bom Coringa.

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Durante anos, Keaton foi massacrado, o que foi uma grande injustiça tendo em vista a seriedade com que interpretou o papel. No final das contas, o tempo foi generoso e depois das decepções geradas pelos dois filmes de Joel Schumacher, a sociedade deu o braço a torcer e passou a enxergar com mais carinho o trabalho de Keaton.

Burton quer sempre fugir de certas regras, de padrões. Ele não queria um Bruce Wayne que parecesse poder ser o Batman. Talvez, em sua visão, a roupa é que realmente tornasse Batman quem ele é. Uma grande inovação foi o uniforme inteiramente preto (e sem cueca por cima da calça) criado por Bob Ringwood.

No final das contas, o Batman de Michael Keaton não tem o físico esperado do herói, mas possui sua alma. O uniforme de borracha limitava a movimentação do ator, mas ele acabou incorporando isso na composição da personalidade e estilo do personagem. Seu vigilante não tem movimentos bruscos, ágeis, mas parece estar sempre no controle das situações de combate.

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A trama do filme não explica como Bruce Wayne treinou e criou seu arsenal bélico, o que incomodou muitos fãs que viam Batman como secundário em relação ao Coringa. O que vemos é um milionário excêntrico, levemente distraído, recluso e aparentemente relutante em manter relacionamentos, tendo em vista suas incursões ao submundo de Gotham como vigilante fora da lei.

Acompanhamos as primeiras investidas de Batman contra o crime, a formação de sua aura mitológica, de lenda urbana, a curiosidade da imprensa e as autoridades (o promotor público Harvey Dent, o prefeito e o Comissário Gordon) se esquivando do assunto.

O Batman de Burton/Keaton patrulhava as ruas possuído por seus próprios demônios e não hesitava em espancar, explodir, metralhar, incendiar ou jogar de grandes alturas os criminosos que encontrava pelo caminho. Essa postura foi sendo suavizada com o passar dos anos, e nos últimos filmes, Batman não tirava vidas tão facilmente.

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Em um primeiro momento, a trama do filme parece bastante simples, o que é usado também como argumento a favor dos filmes de Christopher Nolan. Essa é uma comparação fora de contexto, pois são épocas, estilos e opções estéticas totalmente diferentes. No entanto, vale ressaltar que alguns aspectos dos filmes de Nolan remetem aos de Burton, como a boca rasgada do Coringa e a cena em que Batman vai em direção ao Coringa com sua moto, semelhante à cena da batalha aérea do de 1989.

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O que acho bastante interessante são os traços de personalidade dos personagens. Nicholson é Jack Napier, um gângster narcisista, misógino, egocêntrico, ambicioso, emocionalmente instável e psicopata. E apesar dele negar, é sem dúvida um assassino.

Napier cai em uma armadilha organizada por Carl Grissom (Jack Palance), o chefão (não declarado) do crime organizado da cidade. Na realização de uma queima de arquivo na Axis Chemicals, a situação sai do controle com a chegada da polícia e de Batman, que culmina com a desfiguração do rosto de Napier e sua queda em um tanque de substâncias químicas.

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O Coringa de Heath Ledger (que não teve sua origem contada explicitamente) se apresenta como um agente do caos, como um outsider que despreza as convenções, os códigos de ética da sociedade por considerar tudo uma grande farsa. Em suma, as pessoas seriam boas enquanto podem ser e todos os valores morais são abandonados ao primeiro sinal de problema. O caos está representado em seu próprio corpo com cicatrizes na boca, maquiagem borrada, cabelos sebosos e tiques nervosos.

O Coringa de Jack Nicholson é um criminoso com ambições bem definidas no começo da trama. Ocupa uma posição confortável na conjuntura da organização criminosa da qual faz parte, espera pacientemente o momento de ser o chefão e, enquanto o dia não chega, ocupa o lugar de amante de Alicia Hunt (Jerry Hall), mulher do chefe. O que desencadeia de vez sua loucura foi a armadilha de Grissom para eliminá-lo e a intervenção de Batman, por quem culpa por seu novo sorriso permanente e cara de palhaço.

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Napier renasce como Coringa segundos antes de matar Grissom. Durante o acerto de contas, deixa claro sua indignação pelo ex-chefe ter armado para ele por causa de uma mulher. “Você me traiu por causa de uma mulher. Uma mulher! Você deve ser louco”. No começo e por razões óbvias, Napier não aceita bem sua nova condição e usa uma pesada maquiagem em tom de pele para esconder sua coloração alva, cabelos verdes e lábios avermelhados.

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Creio que o Batman e Coringa do filme de 1989 são tão profundos e complexos quanto os de Nolan, só que sua complexidade não fica tão didaticamente exposta. As motivações deles estão presentes em seus atos e em suas falas durante o filme, mas de maneira diferente do estilo adotado por Nolan, que faz com que seus personagens expliquem detalhadamente suas intenções e pontos de vista. O Coringa de Ledger, Ra´s Al Ghul (Liam Neeson) e Bane (Tom Hardy) embasam suas ações em sólidas ideologias que ficam bem explicadas para o telespectador.

Pode-se dizer que esse filme ocupa um relativo tempo com a ascensão do Coringa e pouco com Batman. Na melhor das hipóteses é um filme sobre Coringa e Batman. No entanto, é realmente difícil imaginá-lo com menos cenas do Palhaço do Crime, mas obviamente algumas coisas poderiam ser diferentes.

A fixação do Coringa pela fotógrafa Vicki Vale poderia dar lugar a mais material sobre as motivações de Bruce Wayne. Ou o fato do Coringa e Batman se interessarem pela mesma mulher foi uma das maneiras de indicarem similaridades entre as personalidades de ambos? Interessante ponto de vista, não? Batman e Coringa seriam dois lados da mesma moeda ou da mesma carta de baralho?

A Vicki Vale de Kim Basinger sofre uma ridícula transformação comportamental logo no início da trama quando de obstinada fotógrafa, que chega a Gotham para investigar a história de Batman, subitamente desiste de tudo ao se apaixonar perdidamente por Bruce Wayne depois de uma única noite juntos! A atriz então passa o filme inteiro como a donzela em perigo, dando gritos estridentes, perseguindo o milionário Wayne e sendo salva por Batman das garras do Coringa.

A gota d´água é quando Alfred permite que ela adentre à Batcaverna, para espanto de Bruce. É o momento da verdade, lhe foi revelada a identidade de Batman e o que ela pergunta para Bruce? "- Me diz que aquela noite não foi apenas uma noite para nós. Nós nos apaixonamos, não foi?". Fica difícil não imaginar que ela não queira dar o golpe do baú.

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O Coringa quer se vingar de Batman e mostrar para toda a cidade quem ele é. Ele também deseja o caos, propagar medo e pânico. Também despreza as instituições, o poder público e os cidadãos. E se pararmos para contar, o Coringa sempre acaba matando mais bandidos que o Batman.

Enquanto narcisista ele se vê deprimido com um problema estético (seu rosto bizarro e sorridente), mas seu egocentrismo e loucura o fazem exaltar sua nova face e querer naturalizar seu novo ideal de beleza. Seu ataque inicial é envenenar uma série de produtos de beleza que, quando usados em conjunto, podem levar as pessoas à morte. Engraçadíssima a propaganda pirata televisiva do Coringa anunciando seus produtos e as duas modelos mortas com sorrisos estampados na face.

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A vaidade é um dos pecados capitais e a busca por produtos de beleza pode matar na Gotham aterrorizada pelo Palhaço criminoso. É bastante interessante (?!) a ideia de matar as pessoas por meio da busca delas por um ideal de beleza, tendo em vista que isso ainda é algo bastante atual. Quantas pessoas não morrem ou sofrem deformações por causa de uma obsessão e busca por padrões de beleza impostos? O Coringa pune as pessoas por suas fraquezas, por seus pecados capitais, como a vaidade e a cobiça.

Com seu ataque ao Museu ele busca absurdamente adaptar as obras de arte de acordo com sua visão artística, destruindo obras clássicas, quadros e esculturas ao som de "Partyman" de Prince. Depois de um ataque de gás venenoso, que mata todas as pessoas do museu, e da readaptação das obras, surge um ponto chave da trama quando o personagem explica para Vicki Vale suas pretensões.

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Ele acredita estar destinado à grandeza devido à sua condição de artista e quer que Vicki fotografe seu trabalho de artista homicida, que ela se junte a ele na vanguarda de uma nova estética. Em suas palavras, ele faz arte até que... alguém morra. É um vanguardista, o primeiro artista homicida do mundo!

Nesse momento, surge uma desorientada e mascarada Alicia. Vicki pergunta o porquê da máscara e o Coringa responde que a máscara é apenas um esboço, pois Alicia havia sido remodelada de acordo com sua nova filosofia e, assim como ele, havia se tornado uma obra de arte viva.

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Alicia era uma modelo que passava a maior parte do tempo fazendo compras e lendo revistas de moda. Coroando suas experimentações, misoginia e desprezo pela amante, o Coringa mutilou o rosto de Alicia. Realmente, acho difícil entender como alguns podem dizer que o filme seja infantil. É uma das cenas mais rápidas, porém mais chocantes do filme.

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Talvez a maior licença poética dessa produção tenha sido colocar o Coringa como o assassino dos pais de Wayne, o que tornou a relação de ambos ainda mais odiosa e intrínseca, na medida em que um foi responsável pelo surgimento do outro. Cada um deles criou no outro seu maior adversário. É uma adaptação curiosa da história, mas que acaba por engrandecer em importância a figura do Coringa e diminuir a história pessoal de Batman.

O confronto final foi o mais cinema-espetáculo de todos os filmes com a Batwing dando rasantes por entre os prédios de Gotham tentando salvar as pessoas que estavam sendo envenenadas pelo gás do Coringa. Mais uma vez, o personagem provoca um genocídio em massa de pessoas gananciosas que foram seduzidas pelo dinheiro que ele distribuía. E, mais uma vez, pessoas sendo mortas por se renderem às tentações de um demônio. Impagável é a declaração do Coringa afirmando que estava libertando as pessoas de suas vidas inúteis, mas que, se elas tinham que morrer... que morressem sorrindo!

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Com a incrível trilogia de Nolan faturando bilhões nas bilheterias e suscitando favoráveis críticas e debates, foi comum surgirem também opiniões depreciativas em relação aos filmes de Tim Burton. Infelizmente, é um comportamento e fraco recurso argumentativo recorrente depreciar algo para poder supervalorizar outra coisa.

Com esse texto, pretendo demonstrar as inúmeras possibilidades de interpretação e análise dos aspectos de um filme. E principalmente ressaltar como as diferentes visões dos ícones culturais podem se manter fortes, contemporâneas, autênticas e divertidas.

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Rogério Marques

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