jollyroger 80s para as massas

Os sistemas caóticos possuem uma ordem oculta.

Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo

Edward Mãos-de-Tesoura: uma fábula crítica contra a assustadora "normalidade"

Os filmes do diretor Tim Burton geralmente contam histórias de outsiders. Personagens à margem da sociedade dita "normal", excêntricos, antissociais e incompreendidos. No entanto, a tal sociedade "normal" retratada nos filmes de Burton é geralmente esquisita, imbecilizada, alienada e preconceituosa. Fica a questão: Quem são, de verdade, as aberrações em seus filmes?


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Edward Mãos-de-Tesoura foi o primeiro exemplar da longa parceria de Burton com o também cultuado ator Johnny Depp. Foi um projeto pessoal escrito, produzido e dirigido pelo talentoso diretor em uma época de frescor criativo, quando ele não se limitava a fazer refilmagens personalizadas de outros filmes (e séries) clássicos.

Beetlejuice, Lydia, Batman, Coringa, Mulher-Gato e principalmente o Pinguim, Ed Wood, Edward Bloom (Peixe Grande), Willy Wonka, Ichabod Crane, Sweeney Todd e tantos outros. O que esses personagens têm em comum? São excluídos, de alguma forma, da complexa teia de relações sociais. E são os outsiders, a matéria-prima inspiradora de toda a carreira do diretor.

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A criatura gótica Edward da película em questão não é diferente. Podemos entender as "mãos" de tesoura do personagem como uma grande metáfora para retratar um ser completamente inadaptado ao convívio social ou como uma forma lúdica e fantasiosa de contar o drama de um freak, aberração, de uma pessoa deformada.

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Edward Mãos-de-Tesoura foi o último filme do ícone do terror Vincent Price, que veio a falecer pouco depois. Ironicamente, sua última cena foi a morte de seu personagem, o cientista que criou o dócil Edward, mas o deixou inacabado. Vincent Price trabalhou em dezenas de filmes de terror desde os anos 40 e era um dos maiores representantes do gênero junto com Christopher Lee e Peter Cushing.

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Após a morte de seu criador, Edward fica em completo isolamento em uma casa no alto de uma colina, até ser encontrado por uma amigável vendedora de cosméticos. Ela decide levá-lo para o mundo civilizado e hospedá-lo em sua casa. Em um primeiro momento, todos ficam espantados e curiosos com a presença de uma estranha figura como Edward. Logo, ele se sobressai criando estilosos cortes de cabelo nas mulheres da vizinhança e fazendo esculturas nos jardins das casas padronizadas do subúrbio multicolorido.

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No entanto, a tal sociedade "normal" retratada nos filmes de Burton é geralmente esquisita, idiota, caricata e alienada. Povoada por personagens hipócritas de valores deturpados. Exageradamente coloridos e essencialmente mais monstruosos do que os injustiçados protagonistas dos filmes. Não demora para que Edward seja transformado em persona non grata e perseguido violentamente pelos moradores da vizinhança.

Mesmo diferente do padrão estético "aceitável", Edward é talentoso e possui sentimentos. É um ser capaz de sentir afeição, carinho e amor. E de ser amado. Essa mensagem é bastante clara e básica no filme. O problema humano é que a curiosidade se torna repulsa, o amor vira ódio, a admiração se deforma em inveja e no final, se destrói o que não se compreende.

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Kim (Wynona Ryder) se apaixona por Edward e este é hostilizado pelo agressivo e ciumento namorado dela. Além deste, outra personagem sintetiza bem a feiúra dessa sociedade: a dondoca suburbana Joyce (muito bem interpretada por Kathy Baker), que tenta transar com Edward e diante da assustada rejeição, passa a demonizá-lo e incentivar que os outros moradores o rejeitem.

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A sociedade assustadoramente comum, ironizada e atacada pelo diretor está presente em praticamente todos os seus filmes, mas seu deboche encontra-se mais explícito nos filmes Edward Mãos de Tesoura, Marte Ataca!, e em suas versões de Planeta dos Macacos e A Fantástica Fábrica de Chocolate.

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Danny Elfman, ex-líder do Oingo Boingo (uma das melhores e mais criativas bandas estadunidenses) compôs as trilhas-sonoras de quase todos os filmes de Tim Burton. A de Edward Mãos-de-Tesoura é uma das mais emotivas e está entre seus melhores trabalhos junto do diretor.

A doce música-tema capta toda a aura de pureza, tristeza e solidão do personagem. O filme é uma fábula moderna com uma trama aparentemente simples, mas talvez as mensagens mais honestas e profundas possam ser encontradas nas manifestações mais singelas.

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Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo .
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