jollyroger 80s para as massas

Os sistemas caóticos possuem uma ordem oculta.

Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo

Rambo e a ressignificação dos símbolos culturais

Nos anos 1980 o personagem Rambo interpretado por Sylvester Stallone se tornou um dos mais famosos símbolos de propaganda política dos Estados Unidos. Nesse artigo, demonstramos as diversas formas que um mesmo ícone cultural pode ser apresentado, apropriado e ressignificado de acordo com a necessidade e as intenções políticas e mercadológicas do contexto histórico.


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Durante a década de 1980 uma das mais presentes temáticas nas produções cinematográficas norte-americanas foram os filmes de guerra. De maneira simplista podemos contextualizar a época como o período de mundo marcado pela bipolaridade, dividido e sobre influência de dois blocos ideológicos relativamente antagônicos. Desde o término da Segunda Guerra Mundial no final dos anos 1940 tivemos a chamada Guerra Fria com o embate entre o Capitalismo e o Comunismo, representados pelos Estados Unidos e pela União Soviética (URSS) respectivamente.

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As duas nações disputavam áreas de atuação ao redor do mundo e empreendiam uma corrida armamentista sem precedentes. A ameaça de um conflito atômico era uma realidade e gerava uma grande tensão entre os países. Além de ogivas nucleares, os estadunidenses possuíam o Cinema como grande arma de propaganda ideológica.

O Cinema com seus discursos e representações pode influenciar sua audiência propagando uma série de ideologias que dão legitimidade para projetos políticos, militares e econômicos de determinados grupos poderosos. Os filmes sempre foram utilizados pelos Governos de países como Rússia e Alemanha como forma de propaganda.

Durante muito tempo os Estados Unidos mantiveram uma imagem de invencibilidade. Imagem que ficou enfraquecida com os atentados de 11 de setembro de 2001. O mérito dos filmes nesse processo de construção do imaginário não deve ser subestimado, muito menos ignorado.

Os filmes da série Rambo, personagem interpretado por Sylvester Stallone, cumpriram bem esse papel. O personagem herói da guerra do Vietnã inspirou várias cópias desde sua estréia em 1982. No geral, todos os outros como "Braddock", interpretado por Chuck Norris, trataram do tema de retorno ao Vietnã, a ferida aberta no orgulho estadunidense. Nesse texto pretendo realizar uma breve análise dos 3 primeiros filmes da série.

Os heróis estadunidenses sempre são retratados como heróicos, justos e virtuosos enquanto os vilões russos comunistas são representados como frios, calculistas e desprovidos de ética. Nos filmes de temática militarista o estilo de vida estadunidense é sempre vítima de ameaças externas.

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Essa temática frequente está intimamente relacionado com a paranoia cultural dos EUA de se enxergarem como povo escolhido e invejado. E a maneira mais lógica apresentada nesses filmes para sua emancipação é geralmente através da violência. O cinema hollywoodiano retrata o estrangeiro de uma maneira estereotipada seguindo uma tradição maniqueísta da luta "simples" do bem contra o mal.

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Geralmente os filmes representam o contexto da época de sua produção. É interessante o modo como o personagem Rambo adquiriu novos significados a partir do segundo filme da série para se adequar às necessidades da política externa dos EUA no período.

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No filme de 1982, "First Blood", dirigido por Ted Kotcheff, o veterano de guerra John Rambo é um outsider, um pária, um indivíduo levemente perturbado, que ao tentar visitar um colega, é preso sem motivo e humilhado pelos policiais de uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos. Com o devido tempo, toda sua fúria reprimida vem à tona resultando em muitos feridos, na destruição da cidade e quase morte do xerife Will Teasle (o ótimo Brian Dennehy).

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No desabafo final de Rambo para seu mentor, o Coronel Trautman (Richard Crenna), fica evidente a crítica que o filme faz ao modo que os soldados foram tratados por seus compatriotas ao retornarem da guerra do Vietnã. Rambo não se enquadra mais na sociedade, não tem mais amigos, não consegue emprego e não confia mais em ninguém.

Apesar da catarse provocada pela fúria armamentista de Rambo contra a cidade, seus moradores e policiais, podemos ver nesse primeiro filme uma crítica à guerra (do Vietnã, pelo menos) e aos danos irreparáveis que ela provocou na alma orgulhosa do país.

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Tudo isso muda já na segunda metade dos anos 1980. O Governo republicano de Ronald Reagan foi marcado por momentos de crise internas e externas, embates com a URSS, corrida armamentista e intensa propaganda de superioridade militar. Era necessário cicatrizar as feridas e reacender o viés patriótico. Nesse novo contexto, o personagem Rambo passou por uma ressignificação.

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O segundo filme (Rambo First Blood part II) também foi baseado em livro de David Morrell. Foi dirigido por George P. Cosmatos, mas com roteiro de Stallone e James Cameron. A nova aventura apresenta o herói retornando ao Vietnã com a missão de fotografar campos de prisioneiros de guerra. Rambo aceita essa missão com a promessa de ser libertado da prisão em que se encontra.

Logo no prólogo do filme, ele pergunta ao Coronel Trautman: "Ganharemos a guerra dessa vez, senhor?" Ganhando como resposta um "Só depende de você". Temos então um país inteiro personificado em John Rambo, que além de resgatar os prisioneiros de guerra, mata todos os vietnamitas que encontra pelo caminho, os russos que os lideravam e ainda sobra energia para desferir sua raiva contra seus cínicos e debochados compatriotas.

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Um aspecto bastante curioso ressaltado por Douglas Kellner, um estudioso da cultura da mídia, é o de como o personagem, mesmo sendo um representante dos valores conservadores da era Reagan consegue abarcar valores da chamada contracultura. Rambo usa o cabelo comprido, come alimentos naturais, é próximo à natureza e hostiliza a burocracia do Estado, ou seja, posturas semelhantes a dos contraculturalistas da década de 1960.

Rambo nem mesmo apresenta o padrão de beleza do homem estadunidense, sendo que nos livros é informado que ele possui ascendência indígena e alemã. Isso é um exemplo de como o sistema é capaz de incorporar qualquer tipo de modismo ou rebeldia e neutralizá-los em seus valores originais.

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É verdade que mesmo com a propaganda militarista ideológica desse segundo filme, ainda existe uma pontual crítica à posturas arrogante de políticos e burocratas norte-americanos, representados principalmente nas personagens Murdock (Charles Napier) e Ericson (Martin Kove). O primeiro impede o resgate de Rambo e não dá a mínima se realmente existem soldados ainda mantidos prisioneiros.

O que talvez mais motive o retorno do personagem é seu desejo de vingança por Murdock. A glorificação se dá com a destruição de todos os equipamentos e computadores da base e termina com Rambo empunhando sua lendária faca exigindo que Murdock encontre os outros prisioneiros de guerra norte-americanos.

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Ou seja, ao mesmo tempo que o filme "reescreve a História" ao fazer com que os EUA "ganhem a guerra do Vietnã" ele tece uma crítica aos altos escalões do Governo. Não podemos afirmar com certeza absoluta de que formas o público assimila as mensagens dos filmes. Qual ou quais personagens causam mais revolta? Murdock ou os militares russos e vietnamitas?

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No entanto, o que chama mais atenção são as novas sessões de tortura a que o personagem é submetido nas mãos dos russos, o sempre suado Tenente Coronel Podovsky (Steven Berkoff) e Sargento Yushin (Voyo Goric). Reparem que nos dois filmes, as cenas de Rambo sendo ferido remetem às imagens bíblicas do Cristo crucificado.

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Inconscientemente ou não, o público é levado a se compadecer da dor sofrida pelo personagem e ansiar por sua vingança. Não há muitos alívios cômicos nesse filme, mas inesperadamente um breve relacionamento amoroso entre Rambo e a bela agente Co-Bao (Julia Nickson).

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O momento contemplativo dura pouco, pois a mesma é assassinada pelo tenente Tay, o personagem construído de maneira deplorável que tem por objetivo fazer o público desejar que Rambo mate todos os vietnamitas.

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Em 1988, o terceiro filme teve direção de Peter MacDonald e apresenta John Rambo no Afeganistão indo ao resgate de seu amigo Coronel Trautman, mantido prisioneiro pelos russos. Em ambos os filmes os russos são visualmente personagens sujos, sempre suados e adeptos de métodos de tortura. O contexto histórico de produção dessa película é justamente a Guerra Afegã-Soviética, que durou de 1979 a 1989.

Dessa forma, Rambo III também pode ser considerado um filme propaganda estadunidense completamente inserido no contexto da Guerra Fria.

Rambo se une aos os rebeldes afegãos e consegue provocar uma derrota no inimigo em comum. O filme Rambo III foi dedicado ao valente povo do Afeganistão, país invadido pelos EUA nos primeiros e questionáveis conflitos dos anos 2000 à procura de Bin Laden.

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A imagem guerreira, poderosa e "inocente" do personagem endossam a ideologia masculinista e patriótica muito presentes na Era Reagan. Uma era de recessão econômica e de política de intervenção externa. Nada mais conveniente que Rambo se torne a figura paterna de uma criança afegã e consequentemente um modelo para jovens do mundo todo.

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Somos manipulados pelos discursos e representações dos filmes para nos identificarmos com o ponto de vista dos Estados Unidos. São películas muito bem produzidas e dirigidas, com personagens e atores bastante carismáticos e trilha-sonora inspirada de Jerry Goldsmith.

Cinema é manipulação e manipular é algo intrínseco ao processo de comunicação. Pesquisas indicam que na época do lançamento do segundo filme, o número de jovens alistando-se nas Forças Armadas aumentou sensivelmente, o que comprova o poder de influência dos filmes sobre corpos e mentes.

Rambo inclusive ganhou uma versão em desenho animado em que atuava em conjunto com uma equipe composta de uma mulher de traços orientais e um outro personagem negro. Lutando pelos nobres ideais de "liberdade" e justiça, esses dois personagens animados cumpriam seu papel numa posição hierarquicamente inferior ao herói título.

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A serie de animação deu um novo gás para a fabricação de brinquedos que junto com os famosos G.I. Joes (Comandos em Ação) da época alimentavam nas cabeças infantis a empolgação e o deslumbramento pela estética militar. O ator Sylvester Stallone também utilizou seu outro famoso personagem, o boxeador Rocky Balboa como propaganda política no filme Rocky IV, em oposição aos rivais soviéticos.

Douglas Kellner ressalta que para realizar uma crítica ideológica multicultural de Rambo seria necessário, além de atacar sua ideologia militarista imperialista, também criticar as figuras e discursos que compõe a problemática sexual e racial.

As questões militaristas dessa trilogia, assim como de todos os outros filmes de guerra servem como legitimação para a intervenção dos Estados Unidos em áreas como o sudeste asiático e o Oriente Médio. Portanto, divirta-se se puder, mas sem deixar de lado o senso crítico.


Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo .
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