jollyroger 80s para as massas

Os sistemas caóticos possuem uma ordem oculta.

Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo

A Indústria Cultural e o Cinema

Os meios de comunicação de massa surgiram e se desenvolveram com o processo de Industrialização. Essa cultura de massa se solidifica no século XX quando o capitalismo cria as condições para uma sociedade de consumo alavancada pela TV e cinema. São nos momentos de lazer onde as ideologias são mais facilmente absorvidas. O que precisamos ter em mente é que as formas da Cultura de massa são intensamente políticas e ideológicas, sendo de fundamental importância aprendermos a lê-las criticamente.


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A invenção dos tipos móveis de imprensa por Gutemberg no século XV é considerada como sendo o início dos meios de comunicação de massa. No entanto, isso não significou a existência imediata de uma Cultura de massa. Alguns autores acreditam que a cultura de massa surgiu com os primeiros jornais, sendo que outros, vislumbram uma importância maior do romance de folhetim. Estes produtos se direcionavam para um público amplo, apresentando uma arte "fácil" e "simples".

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Na análise dessas questões não se pode esquecer um termo muito importante: Indústria. Ou seja, não se pode falar de Indústria Cultural e obviamente, em cultura de massa em um período anterior à Revolução Industrial do século XVIII. Assim como acrescentar os fatores de uma economia de mercado (baseada no amplo consumo de bens) e a emergência da sociedade de consumo, observada na segunda metade do século XIX.

A Indústria cultural, os meios de comunicação de massa e a cultura de massa surgem e se desenvolvem com o processo de Industrialização. A exploração da mão-de-obra, o uso do maquinário, a divisão do trabalho são traços marcantes desta sociedade capitalista. Assim como a "coisificaçao" e a alienação.

Se estabelece uma importância exacerbada à coisa, ao bem, ao produto, à propriedade. Tudo se converte em coisa, inclusive o homem. Existem correntes de pensamento que acreditam que a cultura feita em série, de maneira industrial, perde seu valor de instrumento de crítica tornando-se um ordinário produto de consumo rápido.

Essa cultura se solidifica ferozmente no século XX quando o capitalismo cria definitivamente as condições para essa sociedade de consumo, alavancada ainda mais por veículos como a TV e o cinema. Uma das grandes questões para os especialistas e estudiosos desse processo é o papel dessa indústria cultural. Seus benefícios e malefícios para o homem, sua adequação ou não ao desenvolvimento de suas potencialidades e projetos.

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Concordo com Douglas Kellner em seu livro "A Cultura da Mídia" quando este afirma que as formas da Cultura midiática são intensamente políticas e ideológicas. É de fundamental importância aprender a lê-la politicamente. Ou seja, enxergar como o contexto sociopolítico e econômico a influencia e como seus componentes codificam as relações de poder e dominação na propagação de valores. Devemos situá-la no seu contexto histórico e desvendar como suas imagens dominantes, seus discursos, sua estética incorpora posições políticas e ideológicas.

Kellner analisa o cinema americano dos anos 80 e afirma que filmes como Rambo, Rocky, Top Gun (e outros com enfoque em guerras) apresentam a ideologia conservadora do governo Reagan e explicitam o período da Guerra Fria, por exemplo. Para o autor, são nos momentos de lazer onde mais facilmente são absorvidas as ideologias.

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Em se tratando de Hollywood, devemos perceber que os grandes lançamentos cinematográficos norte-americanos não são simplesmente pura diversão escapista, mas sim produtos ideológicos que mobilizam desejos, privilegiam certos valores em detrimento de outros e tem a função de fazer com que o público identifique-se com o que é apresentado.

A indústria cinematográfica e televisiva dos Estados Unidos são as mais abrangentes, mas as técnicas de propagação de ideologias foram feitas da mesma forma pelos filmes alemães dos anos 1940 (da onde Hollywood se influenciou bastante), pelo cinema de propaganda russo e atualmente por novelas brasileiras, por exemplo. Ideologias que buscam convencer o indivíduo de como viver e pensar são propagadas por todo tipo de meio de comunicação em todos os países.

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Theodor Adorno, um importante teórico da Escola de Frankfurt leva a crítica à Industria cultural ao ponto máximo. Em seu "A Indústria Cultural: O esclarecimento como mistificação das massas" ele apresenta um pessimista e bem elaborado estudo sobre a cultura contemporânea e sua capacidade de conferir a tudo um ar de semelhança. Acredita que o cinema, o rádio e as revistas constituam um único sistema e o grande adversário do individuo é o poder absoluto do Capital.

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Em uma de suas inúmeras afirmações polêmicas declarou que o rádio e o cinema não precisavam mais se apresentar como arte, pois sendo um negócio, eles a utilizam como ideologia para legitimação da produção do lixo. Adorno acreditava que não há saída para o exercício da subjetividade, que não há capacidade intelectual que vença a lógica massificadora. Suas pessimistas teorias não são imunes à críticas, mas é curioso e assustador como podem se apresentar atuais.

No filme de Alan Parker "Pink Floyd The Wall", baseado no álbum da referida banda, é apresentada uma forte crítica aos processos niveladores de massificação. A execução da canção "Another Brick in the Wall" é realizada em conjunto com imagens de crianças sendo oprimidas em sua criatividade e tendo sua individualidade destruída pelo rigoroso sistema educacional. Os estudantes percorrem inertes em uma esteira, como que fazendo parte de uma linha de produção industrial, para no final do percurso se arremessarem espontaneamente em um moedor de carne!

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Em determinado momento também é feita uma analogia da uniformização e massificação como facilitadores de totalitarismos e da violência. A mensagem pode ser conferida tanto no filme como nos shows conceituais do ex-líder da banda, Roger Waters.

Vale ressaltar que o filme é uma obra oriunda da chamada Indústria Cultural e que permite várias interpretações. Sendo assim, podemos concluir que mesmo os produtos culturais e comerciais podem apresentar discursos emancipadores políticos e sociais. Consequentemente, nós, enquanto consumidores somos capazes de dialogarmos com o que vemos e ouvimos, exercendo nossa autonomia frente às ideologias propagandeadas.

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E você? De que maneira consome a cultura de massa?


Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo .
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