jollyroger 80s para as massas

Os sistemas caóticos possuem uma ordem oculta.

Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo

Videodrome, o sexo e a violência na Televisão

É muito interessante pensar como obras literárias ou cinematográficas representam certas realidades inerentes à época de sua produção. No caso, o filme "Videodrome" de David Cronenberg apresentou, no estilo autoral psicológico gore científico-surrealista do diretor, questões perturbadoras da década de seu lançamento, mas que ainda se mantém atuais. A película é pontuada por um discurso polissêmico que pode originar múltiplas interpretações.


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Max Renn (James Woods) é um polêmico executivo de um pequeno canal de TV especializado em atrações violentas e de conteúdo pornográfico, que se encontra insatisfeito com a programação. Renn “por acaso” toma conhecimento do Videodrome, um misterioso programa onde os participantes se submetem a sessões mortais de tortura e sexo. Max vislumbra que o referido programa representa o futuro da televisão. E essa crença, assim como suas investigações fazem com que ele se veja imerso em alucinações, conspirações e manipulações cerebrais.

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Um aspecto ressaltado por Tadeu Capistrano, Doutor em Literatura Comparada pela UERJ e professor de Teoria da Imagem da Escola de Belas Artes da UFRJ, é crucial para se fazer o link da trama com aspectos da contemporaneidade: o processo de virtualização dos personagens do filme.

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Esse aspecto se manifestou nas pessoas reais nos últimos anos com a explosão das redes sociais como o falecido Orkut e Facebook. O contexto atual é: Se as fotos de um evento não forem postadas na internet é como se o mesmo não tivesse ocorrido; se um acontecimento não vira notícia na TV é como se não tivesse existido; se algo não for escrito em livros de História não se torna um fato. Deprimente considerar essas hipóteses, mas é o comportamento padrão assimilado pelas pessoas.

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Um dos vários aspectos interessantes da trama é a busca incessante do protagonista por uma atração que oferecesse emoções reais e intensas para os telespectadores. Ele e sua amante sadomasoquista Nicki (interpretada pela lindíssima e talentosa Debbie Harry, vocalista da banda Blondie) cada qual a sua maneira, encontram no subversivo programa Videodrome a válvula de escape ideal para esse público ávido por sexo e violência.

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Acredito que não seja um absurdo afirmar que o Videodrome é o agora! Alguns “reality shows” e programas de auditório na Televisão nacional e estrangeira expõe seus participantes a situações de dor e humilhação. No Brasil, o mais famoso deles, “Big Brother” (* Pergunte para algum dos participantes ou dos telespectadores se eles sabem o porquê desse nome!) tem apelativo conteúdo sexual.

Grande parte da indústria cultural brasileira é baseada em sexo. Outras manifestações também não fogem dessa regra e no You Tube existem milhares de vídeos com crianças e adolescentes dançando sexualmente, massificadas pelo funk e demais ritmos popularescos.

Tanto no Brasil como em outros países, programas sensacionalistas fazem bastante sucesso apresentando cenas de violência nas grandes e pequenas cidades. Ou seja, o chamado "mundo cão", o x-rated, o underground tornou-se uma Instituição, sendo transmitido no horário nobre para milhões de pessoas. Os parâmetros de comparação se perderam, ludibriados pelos exageros de cretinos iludidos e pós-modernos alienados.

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Em seus estudos o professor Tadeu Capistrano salientou a ideia dos corpos apáticos, insatisfeitos em sua essência que buscam superexcitação e experiências. Na atualidade, a TV e as redes sociais da internet são consumidas com o objetivo de saciar os anseios e carências de milhões de pessoas por todo o mundo.

Será que podemos concluir em um primeiro momento que Max Renn sabia muito bem o que o público queria assistir? Ou os indivíduos se massificam devido ao processo nivelador da programação televisiva? Sexo e violência, assim como fofocas de "celebridades" dão audiência simplesmente porque ocupam grande parte da programação televisiva? O público foi condicionado a querer receber esse material ou a Televisão fornece apenas o que o público quer?

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No filme, Max Renn passa por situações grotescas onde não se pode dizer ao certo o que é realidade e o que é fantasia. Como cenas emblemáticas podemos citar o protagonista sendo engolido pela tv, a fita cassete sendo inserida pelo mesmo em sua barriga e a arma se mesclando organicamente com sua mão.

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A televisão ainda ocupa lugar de destaque como meio de (des)informação e entretenimento barato, mesmo com o advento da internet. O poder que a TV exerce no personagem Max Renn pode servir como exagerada e estilizada metáfora para o modo como as pessoas podem ser influenciadas e manipuladas pelas notícias e por “gurus” televisivos. Não se pretendeu nesse breve texto fazer uma resenha do filme de David Cronenberg, mas chamar atenção para determinados aspectos da história e convidar o leitor para essa jornada crítica. Mas não seja como Max Renn. Preserve sua carne!

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Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo .
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