jollyroger 80s para as massas

Os sistemas caóticos possuem uma ordem oculta.

Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo

Narradores de Javé. Cinema, História Oral e Arquivos

Narradores de Javé é uma produção do cinema brasileiro dirigido por Eliane Caffé e magistralmente protagonizada por José Dumont. Conta em tom de comédia o drama dos moradores do pequeno vilarejo de Javé que estão desesperados com o iminente desaparecimento de sua cidade devido a construção de uma Hidrelétrica. Trata-se de um produto cultural que possibilita uma série de análises a respeito da cultura, das estruturas de poder, dos arquivos e das identidades.


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O drama dos moradores de Javé é a iminente construção de uma hidrelétrica pelo Governo que deixará a pequena cidade submersa em pouco tempo. A única esperança para sua sobrevivência seria se ficasse comprovada sua condição de patrimônio histórico e que isso ficasse atestado com base na criação de um documento de "valor científico". Fica estabelecido através de uma assembleia dos moradores que a história de fundação da cidade será escrita, documentada. Dessa maneira ficaria comprovado o valor histórico de Javé.

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Como praticamente todos os moradores são analfabetos, a responsabilidade para o grande feito recai sobre os ombros e mãos do execrado Antônio Biá (José Dumont). Biá era um ex-funcionário do Correio e único morador que sabe ler e escrever. No começo do filme enquanto está em seu exílio, Antônio Biá está desprovido de sua identidade e parece deprimido. Em um primeiro momento parece relutante em aceitar a proposta de escrever o livro, mas no primeiro dia de trabalho já se mostra um novo homem. Porque nesse novo emergencial contexto ele havia retomado sua identidade e seu espaço, na medida em que, seu saber agora era necessário.

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O filme apresenta vários temas que têm relação com a História, como por exemplo: a História oral e a problemática entre os limites entre a construção do fato histórico e o artefato literário. Com a ameaça de inundação de suas terras os moradores precisam "render-se" ao uso da escrita. A escrita é o modo, o saber especializado de comunicação e de uso político que Javé terá que se enquadrar para se fazer presente frente ao Estado.

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A História Oral começou a ser utilizada nos anos 1950, após a invenção do gravador e consiste em uma metodologia de pesquisa baseada em entrevistas gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, modos de vida ou outros aspectos da história.

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Antônio Biá deve então registrar as histórias contadas oralmente pelos moradores. Histórias muitas vezes confusas, fantasiosas e que se complementam ou se refutam. É realizado um trabalho de construção de uma memória, na medida em que os narradores de Javé apelam para o morador que detém o poder simbólico da escrita e do documento.

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A História de Javé é contada ligeiramente diferente e sob diversas perspectivas. Algumas privilegiando uns ou outros supostos personagens icônicos. A história de fundação da cidade é permeada por acontecimentos gloriosos como quase todo mito de formação de povos e países.

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É interessante ressaltar que mesmo na contemporaneidade ambas as práticas, leitura e escrita não são dominadas completamente pelos grupos sociais. Nas sociedades existem grupos que se apresentam mais através da expressão oral e visual; outros na escrita. Ou seja, esta ainda não teria alcançado toda a gama de possibilidades de expressão humana.

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Os moradores tentavam conferir legitimidade aos fatos apresentando fotografias de antepassados e seus objetos pessoais. Em certo momento os engenheiros responsáveis pela Hidrelétrica gravam com uma filmadora depoimentos emocionados dos moradores. Ou seja, com o uso de tecnologias toda aquela oralidade foi registrada e se configura em documento escrito e audiovisual.

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Existem paralelos interessantes entre o produto fílmico artístico e os Arquivos. Um determinado arquivo quando avaliado e conservado acaba por refletir as transformações ocorridas no interior de uma empresa ou instituição. Assim como pode servir de base para o conhecimento do contexto histórico de um período, de um Governo e de um país, por exemplo. Um filme (tanto o ficcional como o documentário) também deve ser considerado um tipo de documento.

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É sempre bom ressaltar que o Cinema é uma importante fonte de pesquisa histórica porque as tramas dos filmes geralmente apresentam discursos e ideologias que expressam o contexto histórico e político de sua produção. O filme em questão estreou no ano de 2003 e Eliane Caffé, além de dirigir, assinou o roteiro em parceria com Luis Alberto de Abreu.

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Portanto, o filme Narradores de Javé é um produto cultural que possibilita uma série de análises a respeito da cultura, da política, das identidades e das estruturas sociais de poder. O longa-metragem é difícil de ser definido quanto ao seu gênero e entende-se que qualquer tentativa de classificá-lo acabaria simplesmente por limitar pontos de vista sobre a obra.


Rogério Marques

Historiador da Indústria Cultural, Pretensioso Novo Artista Marginal, Violador do Status Quo e Produto para Consumo .
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