kairÓs

culturas em movimento, identidade e história.

Emerson de Oliveira

Emerson de Oliveira é Doutor em história e escritor.
e-mail para contato: [email protected]

O medo à liberdade

Padrões sociais de sucesso, criaram na atualidade uma separação entre a liberdade e a felicidade, dando vida a uma espécie de escravidão, aceita pelas pessoas por medo de ousar, de se expor, de se tornar objeto de crítica, por não se adequar aos modelos preestabelecidos...


liberdade.jpgO psicanalista e filosofo alemão Erich Fromm, ao analisar a adesão do povo alemão ao nazismo, trabalhou com uma ideia interessante: o que motivou essa adesão, foi o medo que a liberdade traz. A maior parte das pessoas tem medo de assumir o leme de suas vidas, precisa ter um líder, alguém que seja responsável pelo seu destino e que faça as escolhas "certas" por elas.

Atualmente tenho visto algo muito intrigante, um medo da liberdade disseminado em nossa sociedade. Esse medo pode ser visto em diversos aspectos de nosso cotidiano, na política, na cultura, nas artes e sobretudo nas nossas vidas. As pessoas anseiam por liberdade, falam de liberdade, mas vivem presas a conceitos e padrões preestabelecidos, que muitas vezes sequer conseguem perceber.

Somos escravos das tecnologias, que deveriam nos libertar, da moda, do desejo de sucesso, entendido como ganhar dinheiro, das pressões sociais, que constroem uma falsa separação entre razão e emoção, entre força e sensibilidade, de tal sorte que dizer de alguém: -fulano é muito sensível! se tornou quase uma ofensa. Como se o ser sensível fosse algo próprio de gente fraca, incapaz de sobreviver no mundo da instantaneidade.

O modelo do sucesso vigente exige que sejamos fortes, que tenhamos uma vida profissional cheia de êxitos, que sejamos, como no poema de Fernando Pessoa, campeões em tudo. falhar é inadmissível...

O político deve ser à prova de erros, o artista um exemplo, o professor um sacerdote do saber, e o que conseguimos com essa espécie de paranoia coletiva que vivemos? somos cada vez mais infelizes, pois exigimos de nós mesmos a perfeição, quando a grande verdade é que a imperfeição é inerente a condição humana. cobramos de nossos filhos um desempenho escolar imaculado, de nossos amigos a eterna disposição para nos ajudar, dos cônjuges que nos amem de maneira total, quando percebemos alguma falha reclamamos e muitas vezes deixamos de ver a inteireza das relações humanas em pequenos gestos.

Sem nos darmos conta, nos tornamos objetos nas mãos dos especialistas em marketing, números na próxima pesquisa de opinião, uma vírgula da estatística ou pior ainda, zeros à esquerda. mas como romper esse circulo vicioso? nos humanizando! entendendo que o erro e o acerto são etapas da vivência da liberdade, que ser sensível é ser forte, pois exige que saibamos conviver com aquilo que nos afeta, que nos sensibiliza e que nos torna mais inteiros.

Sermos humanos de maneira total não é fácil! exige coragem, ter o destemor de seguir, errando, acertando, fazendo coisas belas e tentando evitar as coisas ruins, fazendo nossas escolhas e sendo responsáveis pelos resultados, bons ou ruins que obtivermos, caindo, levantando e fazendo de cada momento uma oportunidade de aprendizado e crescimento.

Ser livre não é fazer tudo que se deseja, sempre que se deseja, ser livre é compreender nossos limites e fazer escolhas conscientes a partir dessa compreensão. Portanto, nos humanizemos e sejamos livres de maneira plena, sem nos submeter aos planejamentos e cálculos, aos números e às estatísticas que medem o grau de satisfação, ou simplificando ao máximo: sejamos livres, buscando ser, simplesmente, felizes.


Emerson de Oliveira

Emerson de Oliveira é Doutor em história e escritor. e-mail para contato: [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @destaque, @obvious //Emerson de Oliveira