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culturas em movimento, identidade e história.

Emerson de Oliveira

Emerson de Oliveira é Doutor em história e escritor.
e-mail para contato: [email protected]

Burrices cotidianas

a destruição e a degradação da natureza são inerentes ao capitalismo. A sede de lucro entorpece e desumaniza os seres humanos, quais os caminhos para superar isso?


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Com a mecanização da criação de gado no nordeste brasileiro, substituindo os jumentos pelas motocicletas, hoje se vê um fenômeno em diversas rodovias e estradas: muitos jumentos abandonados à própria sorte. Estes animais, tão úteis no passado, hoje perambulam sem rumo, sem qualquer espécie de cuidado e ao mesmo tempo se tornando um estorvo para a circulação dos veículos e mercadorias.

Ahhh! a circulação das mercadorias! no fundo é isso que fundamenta seu abandono, são mercadorias que perderam valor, são seres que não representam nada para o mundo capitalista, na medida em que não oferecem lucro ou dividendos. se fosse só com eles que isso acontecesse seria burrice. Mas existem outras burrices piores em nosso país.

Viajando pelo interior do maranhão pude ver crianças também às margens de rodovias, relegadas a condições de abandono talvez piores que as dos jumentos, na medida em que estes tem ao menos o capim das margens da estrada à sua disposição. Onde vamos chegar com este vazio de valores? que futuro pensamos construir ao agir de maneira tão egoística? precisamos entender que isso nos afeta a todos, quando um ser humano é tratado como objeto ou como fonte de lucro, todos perdemos. Ou como dizia Ernest Hemingway: o sofrimento de qualquer ser humano me afeta.

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Somos tão apaixonados pela tecnologia, fascinados pelos avanços da ciência e cegos para as mazelas que esses avanços vão deixando pelo caminho. A degradação da natureza (a falta de água na atualidade é uma expressão disso), a destruição da juventude e da esperança em nome da acumulação de dinheiro, irão nos levar a uma situação de caos incontornável, caso não tomemos atitudes concretas na superação desse modelo de vida, que se mostrou esgotado, por sua característica predatória.

Recentemente o presidente de uma empresa de alimentos declarou que a água não é um bem coletivo e que deveria ser privatizada. A sede de lucro é insaciável! não pode ser saciada até que se destrua a última fonte hídrica. Nos tornamos hidrófobos, encantados pelo brilho do metal esquecemos que ele pode queimar nossas gargantas.

Podemos fazer diferente! podemos cuidar melhor do mundo, das pessoas e da vida! basta que tomemos essa decisão. comecemos por valorizar aos nossos semelhantes, depois os outros seres e logo teremos uma verdadeira relação ecológica com a vida. cultivando novos valores e encontrando melhores vias que as que até agora utilizamos. não será fácil! mas se tentarmos podemos conseguir. ainda é tempo!

os jumentos me fizeram refletir sobre algumas de nossas burrices cotidianas. É como diz o ditado popular: quando um burro fala o outro escuta...


Emerson de Oliveira

Emerson de Oliveira é Doutor em história e escritor. e-mail para contato: [email protected]
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