kaléidoscope

um olhar múltiplo sobre a arte & a vida

Patricia Smaniotto

Patricia Smaniotto é escritora, tradutora, jornalista. E antropóloga, maga, mãe. Um pouco de tudo vivido, cinema, teatro, dança. Muitas vidas em uma. Muitos saberes em um. Muito de mim ao meu redor e tanta,tanta marca alheia no meu caminho. Sabor de cachoeira, vertigem de vida inteira.

A Grande Mãe

São Paulo, onde fui criada, é caleidoscópio. Minha vida, como ela, é caleidoscópio. Como estou chegando devagarinho, vidrilho rosa sobre vidrilho roxo, deixo com vocês um pouco de mim neste cenário. Um curriculum vitae com outra cara.


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Foto: Luiz Henrique Assunção

São Paulo é minha mãe, mesmo não tendo me parido. Uma Grande Mãe geográfica, cultural, histórica, psíquica e arquetípica. Do seu jeito anárquico e anticonvencional (como boa aquariana que é), me deu uma infância de interior cheia de aventuras na selva urbana. Guerras de mamona, corridas de rolimã, duelos de pipas coloridas com linha de cerol, partidas de futebol de botão na calçada, figurinhas da seleção ganhas no pif-paf, gibis trocados com os amigos, expedições à casa assombrada ao lado da minha, onde coelhos vindos sabe-Deus-lá-de-onde pulavam no jardim tomado pelo mato (mais misteriosos ainda eram o fusca inteiraço guardado na garagem semi-aberta e os aposentos perfeitamente mobiliados – que espreitávamos através das janelas – na casa abandonada há anos). Sem falar das grandes bolas de granizo que caíram numa tarde e fizeram a festa – e alguns hematomas – da meninada da antiga Berrini, ainda uma rua de terra cortada por um riacho no bairro Cidade Monções do começo dos anos 70. E do cometa que riscou o céu da cidade numa noite e deixou todas as crianças com sonhos de astronauta.

Como uma mãe meio moleca meio professora, São Paulo também soube me proporcionar um festival de surpresas científicas, delícias gastronômicas e prazeres infantis. Sorvete italiano de limão com Don’t let me down na jukebox em frente à escola em Santo Amaro, o êxtase da chuva de papel picado na conquista da Copa de 70, a divina rosca de limão da Padaria São Domingos, a novidade do automobilismo no treino oficial de Interlagos de 1974, muita pizza, nhoque, pão italiano e de lingüiça na Bela Vista, a deslumbrante decoração de Natal noturna do recém-inaugurado Shopping Iguatemi (o primeiro do Brasil?) – que eu, meus irmãos e amigos pudemos desfrutar com olhos arregalados e pijamas amassados depois de nos desentalarmos do fusca de minha mãe, onde ela conseguira espremer onze crianças.

E brincadeiras ao ar livre, enormes tobogãs escorregados sobre sacos de estopa, waffers holandeses com calda de chocolate e coloridas sombrinhas de papel japonesas no Parque do Ibirapuera. Mais os bichos engraçados do Jardim Zoológico, as sessões de pintura a guache nos grandes rolos de papel das manhãs de domingo na Praça da República, as temíveis cobras e serpentes do Instituto Butantã, o deslumbrante céu do Planetário (marcado na memória como o primeiro vislumbre do Universo!), a excitação exploratória no Simba Safari (onde todas as crianças viravam aventureiros em plena África e Indianas Jones pré-Spielberg), a adrenalina imediata do Playcenter, muito antes do espetáculo tecnológico dos parques temáticos e dos perigos virtuais dos videogames.

Meio mágica, meio fada, São Paulo significava noites de alegria e encantamento no Circo Orlando Orfei. Visitas divertidas ao Parque da Mônica. Piqueniques na represa de Guarapiranga. Caminhadas ao Pico do Jaraguá – primeira aventura real, comemorada com pipoca e guaraná! Em dias nublados, bolinhos de chuva diante da TV recém-comprada. Novelas em preto-e-branco da Tupi. Super Dínamo, Vila Sésamo, Jornada nas Estrelas e Túnel do Tempo. Em dias de aula, Escolinha da Mônica – onde se podia fazer teatro, e tomar banho de piscina sem roupa alguma. Em dias sem babá, o cantinho na redação da Folha de S. Paulo, onde eu e minha irmã nos orgulhávamos da máquina de escrever quebrada à nossa disposição enquanto minha mãe saía para conseguir furos de reportagem – como o primeiro transplante de coração do Brasil, feito por Zerbini, e a prisão de jornalistas e estudantes no congresso da UNE em Ibiúna – ou para acabar tendo que se esconder da polícia na invasão da Faculdade de Filosofia da USP ou na do Teatro Ruth Escobar, onde Marília Pêra, sua entrevistada, encenava Roda Viva.

Meio útero do passado meio nave do futuro, São Paulo viu nascer minha mãe guerreira da liberdade e do conhecimento e, bem mais tarde, meio princesa meio palhaça, assistiu ao meu primeiro beijo na boca (dado em cima do muro pelo lindo menino loiro, descendente de suíços, que era meu vizinho), me viu receber minha primeira rosa (que, roubada do meu próprio jardim pelo mesmo garoto, despetalou-se inteira ao ser entregue), recepcionou a vinda ao mundo de meus irmãos mais novos (um loirinho de sangue negro, outro moreno de sangue quente). Também me revelou a identidade do meu pai, que nesse instante adicionou mais quatro irmãos ao clã familiar que eu conhecia até então.

Colocou na minha casa e na minha memória algumas empregadas únicas e especiais: Maria do Carmo, uma negra alegre e muito gorda que nos dava divertidos banhos de mangueira toda vez que lavava o quintal, que precisou de duas cadeiras largas para se sentar enquanto devorava literalmente toda a ceia do Natal e que obrigava minha mãe a pegar o carro e sair feito louca à sua procura a fim de evitar um desastre – já que a moça marcava encontros com seus cinco namorados no mesmo horário e saía para dar uma volta com o primeiro que comparecesse. A portuguesa Amália, pálida como um fantasma, magra como um palito, que mal falava e mal comia. A mineira Maria Olívia, negra bonita e vaidosa, que nos contava histórias de assombração na escuridão do quarto enquanto a brasa do seu cigarro estivesse acesa.

É daquela época também – numa São Paulo meio deusa, meio demônio – a lembrança de Carlos o Mágico, que fazia as coisas desaparecerem das suas mãos – assim como a lembrança do meu medo de desaparecer para sempre, como Carlinhos, e de morrer longe da mãe, como Araceli. E, depois de presenciar a morte de Vladimir Herzog sendo chorada dentro de casa, o medo da polícia política e de que minha mãe também desaparecesse na noite escura dos porões da ditadura. Ainda bem que havia outras coisas divertidas para viver, como a festa de final de ano com temática infantil na FEBASP, onde minha mãe lecionava para futuros artistas plásticos – que compareceram a caráter, mulheres de vestidinhos e maria-chiquinhas e homens portando apenas fraldas presas por alfinetes de segurança, o que causou verdadeiro escândalo (e me fizeram rir) nos corredores do prédio onde hoje fica a Pinacoteca do Estado. E a magia tecnológica da velocidade subterrânea do metrô e da porta automática na entrada do Shopping Iguatemi, as muitas horas de interpretação cover dos Secos & Molhados em frente ao espelho junto com as amigas, os bailinhos do Brooklyn Novo – em que as crianças mais novas eram impedidas de entrar e se contentavam em espiar, por trás do muro, os adolescentes dançando agarradinhos ao som de Angie, dos Rolling Stones.

À medida que eu crescia, a Grande Mãe, que era São Paulo para mim, foi introduzindo na minha vida o caos, a impermanência e todas as descobertas surpreendentes, belas e dolorosas que sempre reserva aos seus rebentos. Meio profeta meio parteira, São Paulo me deu meu único filho, Gabriel – que fiz questão que nascesse paulistano e palmeirense num hospital do Paraíso. Me deu, depois disso, longas noites de espera na Santa Casa com um bebê adoentado e uma salvadora família de vizinhos nordestinos que evitou que meu filho e eu sufocássemos com a fumaça das mamadeiras que eu esquecera no banho-maria. Meio vidente meio arteira, colocou no meu caminho amigos estranhos e criativos, aulas de cinema na USP, de jornalismo na Cásper e de todas as artes nas Oficinas Culturais Três Rios, empregos e desempregos, oportunidades incríveis e rasteiras retumbantes.

Meio cupido meio clown, São Paulo me proporcionou a cantada mais inesperada e deliciosa que uma mulher que acaba de ser mãe – e que trazia o filho pendurado no “canguru” – jamais imaginaria receber de um homem bonito e desconhecido numa banca de jornais em frente à TV Gazeta. Preparou o set de uma cinematográfica noite de amor sob a Lua Cheia – com um amigo que se tornaria cineasta. Fez desembarcar diante de mim um inesquecível e encantador uruguaio que me fez rir quando eu era infeliz. E me deu o maior amor e o amigo mais querido.

Meio perversa meio sedutora, deu-me as torres iluminadas da Paulista para me orientar e muitas noites de tenebrosa tortura para me perder. E um assalto à mão armada e um seqüestro relâmpago. Por outro lado, me fez pegar carona num táxi com Caio Fernando Abreu e encontrar artistas – famosos e desconhecidos – em qualquer lugar como se eles fossem arroz de festa. E sessões de cinema no Belas Artes, noites de balada no Massivo, no Pourquoi Pas e no Superbacana, uma conversa inimaginável com Maurice Béjart e uma solidão indescritível nas tardes de domingo. E comícios e reuniões da esquerda petista (por causa de um amor regado a vinho e Trotski), fotografias magníficas feitas numa velha Canon, ensaios diários da Vai Vai e sua bateria, ouvidas da minha janela madrugada adentro, e noites de Ano Novo terrivelmente vazias.

Insensível ao meu sonho de um novo tempo, me deu também o baque da derrota de Lula, amargada em plena Paulista numa noite de dezembro de 1989 – para, numa noite de outubro de 2002, oferecer-me no mesmo lugar a recompensa pela minha espera e o júbilo pela vitória do admirável “gnomo da esperança”. Do mesmo modo estranho e original, São Paulo me deu caras-pintadas na revolta e drag-queens na celebração da diferença. E também o sentimento de impotência diante de uma mãe sem-teto e seu bebê de quatro dias, Patrick, famintos e com frio numa noite de tempestade – e a quem só pude dar comida e roupas, mas não a dignidade a que tinham direito.

Generosa e cruel, São Paulo me obrigou a aceitar a morte da doce mulher do meu pai, tragada no desabamento de sua casa após as chuvas torrenciais de 1983. Mas também me encantou com as exposições de arte na Bienal e nas galerias, os livros de seus sebos e livrarias, suas bancas fartas de revistas e jornais do mundo todo, os ciclos de cinema espanhol no MIS e cinema francês na FGV, o colorido das feiras livres e do artesanato da Praça da República. Permitiu-me a sensação de estar do outro lado do mundo nas ruas orientais da Liberdade, ajudou-me a escrever páginas e páginas de um diário desesperado, acobertou-me em noites de voyeur (vocação verdadeiramente paulistana, com tantas janelas nos prédios a nos convidar para entrar furtivamente). E também me mostrou, com a mesma paixão, as fotografias antigas e misteriosas nas lápides tristes do Cemitério da Consolação e o coração verde-e-branco do sempre amado Palmeiras – agora finalmente de volta à primeira divisão.

Ao mesmo tempo dura e terna, São Paulo me revelou falhas de caráter, a sensação de pertencer ao mundo, rostos estrangeiros em cada esquina, flores inesperadas em meio ao concreto das avenidas, o MASP como meu quintal, visto da janela do apartamento. Dispensou-me sua indiferença e sua solidariedade, seu silêncio de suspense na madrugada e seu estardalhaço diurno de buzinas e britadeiras. Provocou bebedeiras, ataques de riso e de choro. Inspirou-me a meditação no jardim público e fez-me ver o peso da história na Praça da Sé. Sem qualquer piedade, relegou à memória uma amiga que morreu de AIDS e um amigo que morreu na estrada. E, sábia e paciente, fez com que eu experimentasse todos os (re)nascimentos possíveis – os da existência e os da minha alma.

Fascinante, louca e repleta de segredos e ardis, São Paulo não é amor fácil de esquecer. Longe dela, chorei de saudade em frente à TV ao ver suas imagens no Jornal da Cultura. Por lealdade a ela, permaneci anos sem fazer novos documentos em outro Estado (em substituição aos que me roubaram) só para não perder o vínculo tênue – mas oficial – que o RG e o título de eleitor tirados em São Paulo me conferiam. Pelo sentimento de lhe pertencer, enfrentei o desconforto de seis horas dentro de um ônibus interestadual apenas para poder votar nas eleições presidenciais de 2002 e comemorar na Paulista a vitória de Lula, sem me preocupar com a longa viagem de volta na manhã seguinte: nenhum esforço era grande demais para poder estar “em casa” num momento histórico como este. Simplesmente porque São Paulo e sua história ajudaram a construir a minha própria história – o que não é pouco para se agradecer no 450º aniversário desta velha senhora. E, apesar da sua idade avançada, diante do brilho das veias luminosas que correm por seu farto corpo de concreto e aço, ela ainda é, para mim, a jovem, bela, inventiva e (sobre)humana Grande Mãe da minha infância.

(publicado no livro Crônicas: São Paulo 450 anos, 2004)


Patricia Smaniotto

Patricia Smaniotto é escritora, tradutora, jornalista. E antropóloga, maga, mãe. Um pouco de tudo vivido, cinema, teatro, dança. Muitas vidas em uma. Muitos saberes em um. Muito de mim ao meu redor e tanta,tanta marca alheia no meu caminho. Sabor de cachoeira, vertigem de vida inteira..
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