Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Obvious e ScreamYell. Atualmente trabalha em dois livros: um livro-reportagem provisoriamente intitulado “A Arte de Narrar Vidas", com perfis de grandes biógrafos brasileiros; outro contando as histórias dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin).

Entrevista exclusiva com Marcello Pompeu, vocalista do Korzus, orgulho do metal nacional

Durante seus mais de 30 anos de carreira, a banda de Thrash Metal, Korzus, se tornou uma das maiores representantes e um dos maiores orgulhos do Metal Nacional, uma verdadeira máquina avassaladora da cena brasileira.
Formada por Marcello Pompeu (vocal), Dick Siebert (baixo), Antonio Araújo e Heros Trench (guitarras) e Rodrigo Oliveira (bateria), a banda está prestes a lançar seu novo disco e foi sobre ele e outros assuntos que conversei, com exclusividade, com Marcello Pompeu, que me recebeu no estúdio Mr. Som em São Paulo onde ao lado de Heros Trench, forma uma das melhores duplas de produtores do Brasil.


korzus.jpg Foto: Divulgação

Paulo Pontes: Pompeu, são mais de 30 anos de carreira, uma experiência incrível. Fazendo um balanço entre os ano 80 e os dias atuais, como era e como é a relação entre as bandas, existe uma união, um companheirismo?

Marcello Pompeu: Tem sim, mas é mais superficial, porque, nos anos 80, era pouca gente que curtia metal, vou falar basicamente aqui em São Paulo, e dessas poucas pessoas que curtiam metal todo mundo tinha banda, então, todo mundo que ia a um show do Harpia ia no show do Korzus, todo mundo que ia no show do Korzus ia no show do Vírus, sempre as mesmas pessoas, você acaba tendo uma identificação maior e um conhecimento maior das pessoas, agora, hoje em dia já não, tem muito mais público, tem mais público que artista, entendeu, e várias bandas espalhadas pela cidade e acredito que no Brasil inteiro deva ser assim, então eu acho que se perde o controle, quando é muita gente você perde o controle. Mas isso não quer dizer que a gente não tá ligado no que está sendo feito, ou que há uma questão de união ou desunião, acho que não, acho que todo mundo corre atrás da sua carreira.

E você esperar que alguém vai fazer algo pela sua carreira, é melhor esperar sentado, porque em pé você vai morrer, cada um tem que correr atrás primeiramente da sua, pra poder ajudar um ao outro tem que estar com a carreira andando, você não pode estar com sua carreira meia boca e ver o lado de outro, entendeu, cada um tem que correr atrás do seu, eu acho.

PP: Como você avalia a importância da internet paras as bandas?

Pompeu: Eu acho que a internet é importante porque você fica conhecendo todo mundo que está no mercado, você tem mais contato com seus fãs, antigamente era só pelo correio ou telefone, que era caro pra caralho, então era só correio e poucas pessoas têm saco de ficar escrevendo cartinha e indo no correio postar, e já na internet não, é tudo mais rápido, é “real time” né. Acho que a internet de uma forma melhorou algumas coisas e atrapalhou outras, mas acho que a quantidade de melhorias é muito maior do que ela atrapalhou.

PP: Vamos falar um pouco do disco novo. Em que fase do processo a banda se encontra?

Pompeu: Já está terminado e foi enviado para a Alemanha (AFM Records). Tá espetacular, no meu modo de ver, espetacular, agora eu quero saber o que as pessoas vão achar, porque é importante a gente saber a opinião dos nossos fãs, se estamos no caminho certo, se foi realmente dentro das expectativas, se a gente pisou na bola. Uma pessoa que não quer saber o que a outra pensa sobre o trabalho dela, não melhora, entende, ela não evolui. Mas falando seriamente do disco, estamos muito feliz com o resultado que alcançamos.

O disco sai agora em outubro, entre os dias 20 e 24, não sei exatamente o dia, faltam alguns detalhes de ajustes entre as gravadoras, mas vai dar tudo certo.

PP: Qual o título do álbum?

Pompeu: Legion

Legion.jpg Capa do álbum Legion

PP: O disco conta com alguma participação especial?

Pompeu: Tem uma participação especial, que é do Edu Ardanuy, guitarrista do Dr. Sin, ele fez o solo em uma música chamada Time Has Come, e ficou excepcional, assim, era o que a gente esperava, acho que eu fiquei até mais surpreso da forma com que ele desenvolveu sua parte, espetacular, acho que todo mundo vai curtir.

PP: O “Discipline of Hate” foi um álbum muito aclamado, existe uma cobrança da banda em fazer sempre um álbum melhor?

Pompeu: A banda se auto cobra muito de um trabalho para o outro, é por isso que demora muito pra sair…um dos fatores de demora entre um disco e outro é a auto cobrança que a banda coloca dentro dela mesma, é uma coisa natural, que acontece, não é forçado, mas a gente gosta de pensar muito bem no que tá fazendo, nas músicas, na mensagem que a gente está mandando de um disco para o outro. O objetivo da banda é sempre a superação, então pra isso você tem que pensar, não adianta eu acabar um disco e ir fazer um outro logo depois, vai ficar igual aquele ou pior, pra ser superior ou com alguma coisa diferente, atacar em alguma coisa que a gente possa aliar ao nosso estilo, você não vai ter essa oportunidade se for muito rápido, só com tempo, por isso que tem sempre uns espaços. Até acho que 4 anos do “Discipline” pra esse, em se tratar de Korzus, é meio que um recorde (risos).

Clipe da faixa Truth, presente no disco "Discipline of Hate"

PP: E, tem alguma faixa em português no novo disco?

Pompeu: Tem, como em todo disco tem. Em todo disco a gente sempre faz alguma coisa em português e também é tradicional, desde “Ties of Blood”(2004), a gente colocar uma faixa, uma homenagem, alguma coisa que se refere, se remete ao movimento Punk, Hardcore, que gostamos muito, então tem uma faixa com um refrão que é bem Hardcore, bem Punk e tem uma música em português, que se chama Vampiro.

PP: Você está gravando um disco-solo, certo?

Pompeu: Sim

PP: Você pode adiantar alguma coisa sobre o projeto?

Pompeu: Ah, eu queria falar mais de Korzus agora (risos), deixa o disco solo pra gente falar na época do disco solo. Mas é um Heavy Metal tradicional, ele é totalmente diferente do Korzus, é em português e vai ter várias participações, as pessoas que vão gravar comigo são músicos bem conhecidos no meio metal. No momento eu já gravei a bateria, quem gravou a bateria no meu disco foi o Aquiles Priester, e tem as outras pessoas que ainda vão gravar os outros instrumentos.

Eu parei meu disco solo exatamente pra desenvolver o novo do Korzus, agora que tá pronto, mixado, que está saindo, eu vou cuidar só de me preparar para a turnê nova do disco e simultaneamente vou terminar meu álbum, com previsão de lançamento para 2015.

PP: Eu estive presente no show do Korzus no Sesc Campinas, e na ocasião você fez um protesto contra o Funk que é praticado no Brasil. Eu gostaria de deixar registrada a sua opinião.

Pompeu: Ah cara, eu não sou contra a batida Funk, o ritmo, eu sou contra essa facção que emburrece a música brasileira, as pessoas que de alguma forma levam influencias nas suas vidas, porque música é uma coisa que leva influencias paras as vidas das pessoas, a pessoa começa a se vestir, falar como está na música, e eu não concordo com esse Funk de ostentação, esse funk de malandro, de ladrão, não concordo com esse funk que trata a mulher como uma rolha, uma bosta, uma tampinha de garrafa, entendeu, transformando todas elas em putas e vigaristas e mulheres safadas com o “zóio” maior que a barriga, então eu acho que se esse tipo de cultura musical continuar no nosso País, daqui 10, 15 anos a gente vai estar vivendo no meio de um monte de ladrão e um monte de puta, malandra pra caramba, que vai querer tomar aquilo que não é dela, que ela não buscou, não lutou pra ter e sim, que você fez e ela vai tomar, e os caras a mesma coisa, e eu acho que isso, na atual conjuntura do Brasil, totalmente maléfico. Se eu pudesse colocar uma censura no Brasil, a primeira coisa que eu ia censurar é a música funk de putaria e de malandro.

Não o funk como o Claudinho e Buchecha já praticou ou Pepê e Neném praticavam no passado, que eu detestava na época, eu achava uma merda, cara, hoje eu falo: “que saudade daquilo”, antes fosse daquele jeito. Esse monte de mulher pelada, “coxuda”, bombada, com voz de homem, falando que isso é padrão de beleza, ou passando essa ideia sabe, essa conjuntura que é, música, cultura, televisão, tudo ao mesmo tempo, empurrando isso pra você, só tende a transformar nosso País num bando de bestas, daqui alguns anos, na hora em que eu morrer, você já estiver velho, a molecada vai ser esse bando de besta que viveu essa fase, espero que essa fase seja como qualquer outro momento da música pop brasileira, passageira, apesar que tá demorando pra passar. Porque é ridículo, é tudo a mesma batida, tudo a mesma música, só muda a letra e o jeito de cantar, um pior que o outro.

PP: O que você tem ouvido? Alguma coisa nova que tenha chamado sua atenção?

Pompeu: Puta, ultimamente eu só tenho ouvido o disco novo do Korzus cara (risos), porque eu trabalho com produção musical, estou envolvido com a produção do disco e tenho que ouvir, para poder aprovar então ir pra industrialização e chegar às mãos do fã, mas fora isso eu tenho dois filhos que estão começando com o metal agora, então eles têm me mostrado muitas bandas novas, tipo, Avenged Sevenfold, Project 46, muita coisa ai dessa molecada nova, talvez seja fora o disco novo do Korzus o que eu mais ouço.

PP: Você escuta alguma coisa fora Rock/Metal?

Pompeu: Não, eu trabalho as vezes com coisas fora do Rock/Metal, mas não trago pra minha vida pessoal.

PP: Existe uma comparação que é inevitável entre as bandas nacionais e as internacionais. Isso pode ajudar, principalmente as bandas novas, a buscarem uma qualidade maior, um profissionalismo maior?

Pompeu: Eu acho que toda comparação, se você entender que aquilo é pra você correr atrás, você tem que correr atrás, se você entender que aquilo é “bullshit”, faça o que você pensar, mas eu acho que a comparação sempre vai existir, em todos os tempos, ou é estilo de música, ou é visual, entendeu, a comparação com artistas do exterior sempre vai existir, não tem como você fugir disso.

pompeu.jpg Foto por Guilherme Nozawa

PP: No Mr. Som, vocês têm contato com inúmeras bandas, das mais experientes até músicos iniciantes. Qual é a maior dificuldade que as bandas têm hoje, na sua opinião?

Pompeu: A maior dificuldade que as bandas têm hoje? Dinheiro. É dinheiro pra poder movimentar a carreira, porque toda banda iniciante tem que enfiar a mão no bolso e nem todo mundo é riquinho, “abonadinho” pra poder fazer isso, e se você quiser crescer, você vai ter que investir, é como uma empresa, é uma empresa que começa sem capital de giro, então tem que colocar um produto na praça, pra colocar um produto na praça, só fazendo uma campanha forte, para que as pessoas saibam que você existe e para as pessoas saberem que você existe tem que investir um dinheiro. Eu acho que esse é o grande problema das bandas iniciantes, umas têm, outras não.

PP: Tem alguma banda que vocês estão produzindo ou produziram que pode se tornar uma nova promessa para o metal nacional?

Pompeu: Tem, tem e já está se transformando em uma realidade, que é a Nervosa. A Nervosa começou de um jeito que ninguém esperava e hoje é uma banda que vai colher…se manter a cabeça no lugar, vai longe e pode ser um grande nome brasileiro no exterior também.

PP: Então você acha que a cena do Metal brasileiro, esse legado do metal nacional, as bandas novas têm capacidade de dar sequência?

Pompeu: Sim, eu acho que 2013/2014 foram os melhores anos da renovação, você vê que já existe bandas novas que são influentes dentro da cena, que já têm público, a galera prestigia, tá indo atrás, e na hora em que chegar o momento das bandas antigas, até o momento mais de saúde, pararem, já vai ter um outro movimento ai andando, então, o melhor ano da renovação, melhor época da renovação que eu tenho visto é agora, entre 2013 e 2014.

PP: Beleza Pompeu, que agradecer e deixar o espaço aberto para suas considerações finais.

Pompeu: Quero mandar um abraço pra todos e fiquem ligados que o novo disco do Korzus ta chegando, que é o “Legion”, feito com muito amor, carinho e fé no Heavy Metal, principalmente no Heavy Metal brasileiro, que é a cena que me interessa, não que eu não ligue para a cena internacional, ou nossa carreira internacional, mas eu tenho um apreço maior pela minha carreira nacional, pelo heavy metal brasileiro, porque é aqui que precisa, lá (Exterior) já tem grandes nomes, já tem Metallica, muita gente conseguiu ir longe e aqui no Brasil temos como exemplo só o Sepultura, então, espero que essa cena cresça, para que tenha outros nomes que possam fazer frente jus ao que o Sepultura já foi, e depende de você headbanger, consumir, acreditar e saber que o heavy metal brasileiro é uma realidade. Um abraço e muito obrigado pelo espaço, valeu.


Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Obvious e ScreamYell. Atualmente trabalha em dois livros: um livro-reportagem provisoriamente intitulado “A Arte de Narrar Vidas", com perfis de grandes biógrafos brasileiros; outro contando as histórias dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin)..
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