Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Obvious e ScreamYell. Atualmente trabalha em dois livros: um livro-reportagem provisoriamente intitulado “A Arte de Narrar Vidas", com perfis de grandes biógrafos brasileiros; outro contando as histórias dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin).

Saint Spirit: banda utiliza Holocausto Brasileiro como tema de disco

Um dos capítulos mais obscuros na história da medicina no Brasil aconteceu no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, maior hospício que o país já teve. Durante décadas (entre 1930 e 80), mais de 60 mil pessoas foram torturadas, violentadas e mortas no local. Um detalhe curioso é que a grande maioria dos internos sequer tinha diagnóstico de doença mental, tratavam-se apenas de epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas e garotas que engravidavam antes do casamento.


De certa forma, pessoas que "incomodavam" a sociedade. Tais fatos foram narrados e revelados no livro-reportagem “Holocausto Brasileiro: vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil”, escrito pela jornalista Daniela Arbex e lançado em 2013 pela Geração Editorial.

Agora a história é contada mais uma vez, mas em formato diferente. A banda de Thrash Metal, Saint Spirit, utilizou o livro como inspiração para as letras de seu novo álbum, "Mea Culpa". Formada na cidade de Belfort Roxo, Rio de Janeiro, em 1994, a banda chega ao seu 5° disco de estúdio e usa um tema intrigante, que foge do lugar comum praticado por boa parte das bandas do estilo.

1441567912.jpg Capa do disco Mea Culpa

“O meio do rock pesado fica muito naquela coisa de guerra, satã, reclamar de política e etc”, comentou Rodrigo Bizoro, vocalista, baterista e principal compositor do Saint Spirit, que salienta ainda, a importância do tema: “É uma tragédia que ainda acontece nos dias de hoje”. Bizoro diz que chegou até o livro após ler uma matéria sobre o mesmo na internet. Ele foi atraído pela história na mesma hora. “Como sou psicólogo clínico, de imediato o tema me chamou a atenção”, diz.

Depois de “devorar” a obra rapidamente, o músico apresentou a temática aos outros dois integrantes da banda, Michel Mixa (baixo) e Clamer Lúcio (guitarra), que aprovaram trazer o conceito para as composições do Saint Spirit. “Como eu havia curtido a ideia dos dois álbuns conceituais feitos pelo Sepultura (Dante XXI e A-Lex), pensei que o tema poderia ser legal para ser trabalhado dessa forma”, revelou o músico.

Ao ser questionado sobre quais foram as intenções da banda ao tratar o assunto, Bizoro explica que a primeira foi a de assumir o desafio de “conseguir contar aquelas histórias dentro do contexto do álbum, sem que ficasse chupado do livro” e, obviamente, “que as pessoas se interessassem pelo tema e buscassem saber a respeito”.

1441567939 (1).jpg Banda Saint Spirit/Divulgação

O feedback que a banda tem recebido, tanto da crítica especializada quanto do público, tem sido “fantástico”, segundo Rodrigo: “Muita gente desconhece essa terrível realidade, então a história acaba chocando as pessoas e automaticamente algumas acabam querendo saber mais”.

A banda e sua assessoria tentaram contato com a autora da obra, Daniela Arbex, após a finalização do disco mas de acordo com os músicos, “sem muito sucesso”. De forma bem humorada, Rodrigo destaca que apesar de terem sido ignorados pela autora do livro, recomendam a sua leitura nos créditos do álbum.

Confira o disco na íntegra com as legendas:


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Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Obvious e ScreamYell. Atualmente trabalha em dois livros: um livro-reportagem provisoriamente intitulado “A Arte de Narrar Vidas", com perfis de grandes biógrafos brasileiros; outro contando as histórias dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin)..
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