Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Obvious e ScreamYell. Atualmente trabalha em dois livros: um livro-reportagem provisoriamente intitulado “A Arte de Narrar Vidas", com perfis de grandes biógrafos brasileiros; outro contando as histórias dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin).

Mino Carta: “Se houver impeachment da Dilma, a revista vai desaparecer”

Nas paredes, imagens de Oscar Niemayer, Ney Latorraca, Marco Nanini, Fernanda Montenegro, Marieta Severo, Gisele Bündchen e Paulinho da Viola. Exemplos de personalidades fotografadas para a seção “Retratos Capitas”, sempre presente na última página do periódico semanal. Sobre dois armários brancos estão diversos troféus e prêmios angariados pela publicação, que mostram sua importância e seu prestígio no âmbito da comunicação. No centro do recinto, uma mesa branca, cercada por oito cadeiras vermelhas. Ambiente limpo, claro e pequeno, mas aconchegante. Estamos em uma das salas de reuniões na redação de CartaCapital. Nossa equipe se prepara para uma entrevista exclusiva com o criador e diretor da revista, Mino Carta, que não demora a adentrar, segurando em sua mão direita um copo de vinho que o acompanhou durante toda a conversa. Não adiou muito para revelar, com notável tristeza e desagrado que, "se houver impeachment da Dilma, a revista vai desaparecer".


Mino 1.jpg Mino Carta acompanhado de seu copo de vinho. Foto - Patrícia Nascimento

Um copo de vinho. Esse foi o tempo que durou uma conversa sobre política, jornalismo, internet e a sociedade brasileira, um copo de vinho. O foco era as mudanças impostas pelo jornalismo com o advento das tecnologias. “Eu quero estabelecer uma premissa importante, por razões de honestidade. Eu não aprecio esse tipo de avanço tecnológico”, foram as primeiras palavras de Mino. Frase que, de certo modo, se contrapõe à sentença proferida pelo mesmo, com relação ao processo de impeachment que vive o Brasil. Nesse caso, a CartaCapital continuaria com seu site que, segundo ele, é algo “menos dispendioso e, portanto, factível, mesmo em situação de penúria”. Ele responsabiliza os avanços tecnológicos, a internet, e, em especial as redes sociais, como “determinante, decisiva, e, de todo modo lamentável, para a imbecilização do mundo”.

E quando o assunto é o jornalismo online, sua opinião é firme ao identificar uma possível preguiça de alguns profissionais. Mino preza pela investigação ‘in loco’. Ou seja, pela presença do repórter no local onde os fatos estão ocorrendo. A resposta que concede ao perguntarmos se as mudanças tecnológicas, em sua opinião, surtiram mais efeitos negativos no trabalho jornalístico, resume bem sua visão:

A tendência tem sido uma migração do jornalismo impresso para o online. Carta Capital também está na rede. Mas a possibilidade – bastante clara, diga-se de passagem – de a web se tornar única e exclusivamente a plataforma da revista, não agrada em nada seu fundador. Esse fato, em sua visão, não traz nenhum benefício ao jornalismo. “Estamos assistindo a um fenômeno muito claro de jornais que passam para o digital, que desaparecem, simplesmente. Revistas também”.

Escrever de maneira curta, rápida, que para Mino, não pode ser, de maneira alguma, compreendida como ideal, passa longe da redação da CartaCapital. Seja na versão impressa, ou, especificamente em seu site, os textos são sempre analíticos e, em sua grande maioria, longos. Fugindo do jornalismo raso, que muito provém da questão do imediatismo. E isso não tem sido um problema para a publicação. Basta alguns cliques e pesquisas para verificar a quantidade extremamente significativa de comentários e compartilhamentos que as matérias veiculadas nas redes sociais da revista têm. Sinal de que os textos são lidos. Ele acredita e atribui como fator determinante para isso, sem medo de soar pretensioso, a ideia de que a CartaCapital “atinja um público altamente politizado e que, realmente, sabe falar. Sabe falar e, provavelmente, também escrever. Então, é um público especial. É uma espécie de nata da sociedade brasileira”. Para ele, de um modo geral, nossa imprensa sempre serviu ao poder. Os “jornalões”, como ele gosta de chamar os periódicos tidos como a grande mídia, “sempre foram de propriedade de pessoas que editavam na Casa Grande e não na Senzala”. E vai além, “os jornalistas prestam-se ao serviço sujo com uma tranquilidade total”.

Enquanto o líquido no interior do copo não finda, a conversa continua. Mino faz questão de salientar, entre um gole e outro, entre uma crítica e outra, entre uma análise e outra, que depois que saiu da revista Veja, em fevereiro de 76 – então já se passaram 40 anos –, teve que inventar alguns empregos, “porque eu não tenho um tostão furado. Tenho um apartamento, um carro e ponto. Eu preciso de salário todo mês. Então, tive que inventar os meus empregos, Isto É primeiro, Senhor depois, Isto É novamente, e, finalmente Carta Capital”. E, mesmo aos 82 anos de idade, com um vasto currículo e imenso prestígio, ele ainda não desvendou um mistério com a relação à profissão:

O conteúdo do copo chegava ao fim, sinal de que nosso bate-papo estava prestes a acabar. Não sem antes tentar, de alguma forma, confirmarmos o que ele já havia dito. A frase que faz uma análise sobre o futuro da publicação em um ambiente criticado por Mino Carta. De forma bem humorada, diz: “nós continuaremos, a princípio. Não sei se nós acabaremos na prisão (risos). Tudo é possível! Estou brincando, evidentemente. Não imagino isso é lógico. Mas, a internet dá para fazer, a despesa é outra. A revista custa muito caro”, e encerra, erroneamente afirmando que “não tenho nenhum problema em dizer isso, porque aí vocês dirão: ‘felizmente ela acabou’”.

Mino 2.jpg Paulo Pontes e Mino Carta durante entrevista para essa matéria. Foto - Stephany Berardineli

Matéria originalmente publicada no portal Filhos da Pauta.

Colaboraram: Daniel Camargo, Patrícia Nascimento, Stephany Berardineli


Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Obvious e ScreamYell. Atualmente trabalha em dois livros: um livro-reportagem provisoriamente intitulado “A Arte de Narrar Vidas", com perfis de grandes biógrafos brasileiros; outro contando as histórias dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin)..
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