Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Roadie Metal e ScreamYell. É autor do livro-reportagem “A Arte de Narrar Vidas - Histórias além dos biografados", com perfis de grandes biógrafos brasileiros. Atualmente trabalha na biografia dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin).

Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mario Magalhães

Personagem só diabo ou só santo, para mim, não serve. Sua complexidade e seu caráter controverso são fundamentais! Até porque eu não julgo biografado, não sou juiz. Eu sou o narrador, um contador de histórias.


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Foi no final de 2003, durante um almoço entre amigos, que o jornalista e escritor Xico Sá fez uma pergunta de resposta aparentemente fácil:

“Vem cá, quanto tempo você acha que vai demorar para fazer o Marighella?”

Meses antes, o indagado havia pedido demissão da função que exercia como repórter especial no jornal Folha de São Paulo para se dedicar integralmente àquela que se tornou a mais extensa e ambiciosa reportagem em que trabalhou. A pergunta de Xico era exatamente sobre essa reportagem: quanto tempo seria necessário para o amigo escrever a obra biográfica de Carlos Marighella? O questionamento foi prontamente respondido:

“Dois, no máximo, três anos.”

Aquela pequena frase, formada por apenas cinco palavras e dita de maneira tão convicta, arrancou a gargalhada característica do autor da trilogia “Modos de Macho & Modinhas de Fêmea”, que em seguida decretou:

“Rapaz, isso é projeto para 10 anos!”

Mário Magalhães estava no início dos trabalhos, aprofundando-se na pesquisa sobre o guerrilheiro comunista que, segundo constatou, incendiou o mundo. O livro foi lançado em outubro de 2012. Nove anos e meio de trabalho. Xico Sá quase acertou.

mario-magalhaes (1).jpg Mário Magalhães - Foto: Egi Santana/G1 BA

Quando chegou o tão esperado momento de prestar o vestibular, o curso de jornalismo não foi a primeira opção de Mário Magalhães. Na verdade, antes mesmo de ir para a faculdade, decidiu entrar em uma escola técnica, no curso Técnico de Edificações. Supunha que mais tarde seria arquiteto ou engenheiro. Errou. Bastou uma semana para descobrir que aquela não era a sua “praia”. Como sabia que a escola na qual estudava era muito boa, resolveu ficar e se formou.

Em momento algum de sua vida desempenhou a função que aprendeu no curso. Partiu para a segunda opção: Pedagogia. Cursou um semestre. Já foi mais que suficiente para perceber que, mais uma vez, estava na área errada. Não continuou. Já havia perdido muito tempo. Na terceira escolha, tomou a decisão certa, e ingressou no curso de Jornalismo.

A vocação para a profissão mostrou-se primeiro pelo fato de que sempre foi um voraz consumidor de jornal. Lia muito — muitos jornais, muitas revistas e muitos livros. Ainda na juventude, a primeira coisa que fazia antes de tomar o café da manhã era abrir o jornal na seção esportiva. Assim como muitos de sua geração, aprendeu a ler o jornal do fim para o início: esportes e cadernos culturais primeiro.

Ele gostava de ler para conhecer histórias. Envolvia-se tanto com ficção como não-ficção. Isso foi motivo mais que suficiente para entender que sua melhor escolha seria o Jornalismo. Fez vestibular e estudou na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), local em que Fernanda da Escóssia, sua esposa, hoje é professora.

Descobriu-se um apaixonado, aficionado pelo jornalismo. Continua com o que chama de “perversão de caráter”. Ainda é um fanático pela profissão, em especial por seu gênero mais nobre, que, segundo o biógrafo de Marighella, é a reportagem.

Esse fanatismo pela reportagem vem da combinação de dois fatores: um é o gosto que tem, e a relevância que reconhece, em contar histórias; e, segundo, por sempre ter identificado no jornalismo um serviço público. Serviço público este que consiste, essencialmente, na difusão de informações.

— Por mais charmoso que possa se considerar um jornalista, se ele, de fato, exerce plenamente o jornalismo, a essência do que ele faz é um serviço público. Mesmo nos empreendimentos privados que proporcionam, visam lucro, o Jornalismo, com “J” maiúsculo, vai ser sempre um serviço público.

Foram anos de experiência nos mais diversos e conceituados meios de comunicação do Brasil. Aprendeu muito em todas as redações pelas quais passou. Mas uma frase, que ouviu pela primeira vez em 1987, enquanto trabalhava no jornal O Globo, o marcou muito. Em praticamente todas as reuniões de pauta, nas discussões semanais, o editor do segundo caderno do periódico, Humberto Vasconcelos, estimulava seus repórteres a escreverem perfis com a seguinte frase: “gente gosta de gente”. Aquela simples — mas, ao mesmo tempo, de uma verdade e densidade inexplicáveis — frase ficou enraizada na mente e no coração de Magalhães. “Gente gosta de gente”.

Quase vinte anos mais tarde, quando se viu prestes a completar 40 anos e consciente de que “a vida humana, com todas as nossas misérias, continua sendo algo fascinante”, o jornalista resolveu mergulhar em uma reportagem com mais tempo e mais espaço; mais tempo para apurar e escrever, mais espaço para publicar. Anos depois, descobriu que o espaço é uma ilusão, porque, se você apura de verdade e levanta, acumula uma quantidade monumental de informações, muitas vezes o espaço vai ser menor do que aquele espacinho pequeno pra contar uma história, seja em um jornal, na TV ou em um site na internet.

Já que pensava em obter maior espaço e tempo, não restavam dúvidas, o formato teria que ser um livro. Claro, um livro de não-ficção. Escolheu a biografia, que, na opinião dele, é não-ficção. Magalhães afirma que biografia não constitui um gênero independente, nem literário, nem jornalístico. Para ele, trata-se de uma peça, é expressão do gênero da reportagem, se for biografia jornalística.

— Já ouvi muitos biógrafos dizendo que se dão licenças para criar uma cena, diálogos, até personagens, mas para mim isso não existe. Os critérios que presidem a elaboração de uma biografia jornalística são rigorosamente os mesmos critérios que se impõem na elaboração de uma reportagem no cotidiano jornalístico sem maiores ambições.

O autor sempre sonhou em deixar uma história que, anos depois, contribuísse para que os brasileiros conhecessem e entendessem o que foi o que ele chama de “o nosso embriagante século XX”. Após algumas pesquisas, o guerrilheiro comunista Carlos Marighella se apresentou como um perfeito personagem para que o autor atingisse seu sonho. Para que um livro contribua, verdadeiramente, o protagonista deve ter uma boa história para contar.

Há personagens que parecem render biografias, mas rendem, no máximo, perfis. A escolha do biografado é fundamental para que os processos posteriores do fazer biográfico sejam atingidos com sucesso. Magalhães diz não ter encontrado uma pessoa para ser seu primeiro protagonista em livro com uma vida mais trepidante e fascinante do que a do ex-Deputado Federal constituinte baiano.

Agora, o que os neófitos em biografia talvez não saibam, é que o personagem vive, para sempre, com o biógrafo. Mário já fez muita matéria na Folha de S. Paulo, por exemplo, de repercussão mundial. Já fez matérias importantes, retumbantes, foi ombudsman do jornal, mas hoje é conhecido mesmo como biógrafo do Carlos Marighella. Por isso também a importância no momento de escolher a personalidade certa, pois ela vai acompanhar o autor seja onde estiver.

— Personagem só diabo ou só santo, para mim, não serve. Sua complexidade e seu caráter controverso são fundamentais! Até porque eu não julgo biografado, não sou juiz. Eu sou o narrador, um contador de histórias.

Após fazer sua escolha e iniciar as apurações, o jornalista saiu do periódico em que trabalhava. Pediu demissão ainda sem ter editora para publicar seu livro. Poucos meses depois, foi publicada na coluna “Gente boa”, de O Globo, na época editada por Joaquim Ferreira dos Santos, uma nota dizendo que Mário estava trabalhando na biografia de Marighella. Foi a primeira vez que o autor viu um anúncio sobre seu trabalho. A publicação ainda ressaltou que ele não tinha editora. Foi exatamente o que ele precisava. Quase 10 editoras o procuraram.

No fim das contas, só conversou com a Companhia das Letras e a Objetiva. As duas propostas, de acordo com o biógrafo, foram ótimas. Escolheu a Companhia muito mais pelo “encanto que ela tinha”, embora a Objetiva também fosse uma grande editora — hoje, ambas fazem parte do mesmo grupo. Magalhães assinou o contrato.

Seria ótimo ter uma editora para minimizar os gastos. Mas, em seu caso, o maior investimento — que já foi grande — da biografia não acabou sendo na obra em si. Viagens, contratação de pesquisadores em outras cidades, eventualmente em outros países, pessoas para transcrever as gravações, às vezes para pesquisar em arquivos. O autor realizou as 256 entrevistas que foram necessárias para reconstruir o personagem, já que considera importante olhar nos olhos do entrevistado: “os olhos, as emoções que são traídas, que são as expressões durante um depoimento, às vezes, falam mais que as próprias palavras”. Todo esse processo faz parte de uma operação de custo muito alto. Só que este foi o maior desafio: como manter a sobrevivência da família se estiver dedicado só à biografia?

Marighella foi feito, fundamentalmente, com o “pé-de-meia” que Magalhães tinha acumulado em seus anos de trabalho na Folha de S. Paulo. Casado, pai de duas filhas — o terceiro filho nasceu durante o processo de construção da biografia —, seria difícil se manter. Em agosto/setembro de 2006, o dinheiro acabou. Retornou para o periódico.

Voltou a ser repórter especial, depois foi ombudsman, de novo repórter especial, e continuou trabalhando no livro. Só que, naquele momento, com muito menos disponibilidade, sobretudo quando era ombudsman. Fez um novo pé-de-meia e, em janeiro de 2010, pediu as contas novamente. Assim ficou até 2012, quando entregou os originais para a editora.

O autor de “Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras, 2012), expôs a situação financeira que viveu durante a produção da obra em um texto publicado no seu antigo blog, sob o título “Caixa-preta de um biógrafo falido (debate público, confissões privadas)”. A exposição a respeito de suas finanças se fez necessária, segundo o biógrafo, após o cantor Djavan, um dos integrantes do grupo “Procure Saber”, declarar que “editores e biógrafos ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento e da indignação”.

No texto, Mário Magalhães mostra-se agradecido pela forma como o livro tornou-se tão bem sucedido. Críticas positivas partiram tanto dos jornalistas quanto dos acadêmicos. Em 2012, a obra foi premiada como a melhor biografia do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). O ator Wagner Moura, junto com a produtora O2, do cineasta Fernando Meirelles, arrematou os direitos de adaptação para o cinema. Marighella torna-se responsável pela estreia de Wagner Moura como diretor. O êxito da biografia escrita por Mário é inegável. Mas, no âmbito financeiro, as coisas teriam sido melhores se o jornalista continuasse os trabalhos como repórter especial da Folha de S. Paulo.

Todo o sacrifício teria sido menor se ele tivesse escrito a obra dentro do período que, lá no começo, em 2003, quando respondeu o questionamento do amigo Xico Sá, imaginou ser necessário dois, no máximo, três anos? Com certeza! Mas, não seria o livro que publicou. Seria outro livro. O volume monumental de informações que “Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo” tem não seria o mesmo se Mário Magalhães o tivesse feito no prazo inicialmente pré-determinado. A questão do tempo diz respeito ao livro que o autor quer, diz respeito à ambição jornalística do biógrafo. Ambição jornalística literária; tempo para apurar e tempo para escrever.

— Eu já ouvi autor de biografias — e de livro de não-ficção — dizendo que escreve um livro em seis meses. Ele diz que suas fontes são sempre os jornais da época. É possível escrever. O problema é quando a gente nota que o livro foi escrito em seis meses.

blog-biografias-arvore-de-natal.png Árvore de Natal montada com exemplares da biografia ''Marighella'', em 2012 – Foto Leonardo Pinto

A opinião do biógrafo é muito clara quando o assunto é a apuração: só se deve escrever depois de ter o grosso de tudo que foi apurado. Para Magalhães, apurar o essencial antes de começar a escrever trata-se de uma questão de domínio técnico, o mesmo que se aplica na reportagem do cotidiano, em qualquer mídia e qualquer plataforma, e que acaba sendo ainda mais importante na biografia, que é uma reportagem de longo fôlego. Desse modo, é possível planejar o livro e definir como começar, ir do desenvolvimento até o desfecho. Decifrar o que realmente é o mais importante. É óbvio que, na hora de escrever, às vezes três capítulos se tornam um e um capítulo vira três; mas isso acontece porque a história se impõe.

Para desenvolver a biografia do baiano Carlos Marighella, Mário Magalhães apurou volume muito amplo de material. Foram 32 arquivos públicos e privados — divididos em cinco países —, 600 livros na bibliografia, 256 entrevistados. Mas, mesmo com todo esse número de informações coletadas, o mais difícil foi escrever.

Ele sabia que tinha que contar a história do guerrilheiro do modo mais encantador possível. Seria digno à vida fabulosa que apurou. Magalhães faz questão de salientar que, no caso do Marighella, por mais denso e profundo que o livro pudesse ser, ao contar a história de um homem cuja vida foi marcada pela ação, não tinha o direito de escrever um livro que fosse um soporífero. Um convite ao sono. É por isso que tem muita ação no livro. É claro que a matéria-prima o ajudou.

— Apurações monumentais, no mais das vezes, costumam resultar em relatos enfadonhos, em relatos burocráticos, às vezes, tão emocionantes quanto uma bula de remédio. O biógrafo, em vez de se beneficiar da robustez e da amplitude da informação, acaba sucumbindo diante dela. Ou seja, ele abre mão de impor um relato encantador, para emplacar mais informações.

Não adianta o repórter apurar e acumular uma quantidade monstruosa de documentos se não tiver disciplina, método e rotina. No fazer biográfico, ele precisa ser ainda mais organizado, caso contrário, terá muitas dificuldades para encontrar o que realmente é importante nos conteúdos apurados.

O enorme desafio de apuração para a biografia do Marighella foi o fato de os inimigos dele — e ele, também —, por motivos diferentes, terem tentado eliminar seus passos da história. Tanto que, segundo Magalhães, o mais importante na apuração da vida de Marighella, disparado, por mais gigantesca que seja a quantidade de documentos que acumulou, são os testemunhos e as entrevistas com conterrâneos do biografado.

Mesmo com a imensa pesquisa e seleção minuciosa de informações, o autor confessa que cometeu um erro técnico de apuração. Um erro grave para um repórter, ainda mais para um repórter experimentado, como já era quando começou a escrever o livro. Iniciou todo o trabalho achando que sabia como seu biografado havia sido assassinado. Apurou, apurou, mas fechou os olhos e os ouvidos para as provas eloquentes que surgiam. Ele pensava que Marighella estava armado no momento em que foi morto. Até que, em uma entrevista com um dos policiais que o mataram, o sujeito contou que um dos maiores inimigos da Ditadura estava desarmado. Mário teimou:

“Ele estava armado.”

O policial, inconformado com a teimosia do repórter, deu um forte tapa na mesa, olhou firme para o biógrafo e disse:

“Porra, quem revistou o Marighella fui eu!”

Depois, quando o jornalista confirmou com outros policiais se tinha sido aquele policial mesmo quem revistou o morto, todos confirmaram: o Marighella estava desarmado. Isso Mário só foi descobrir um ano e meio, dois anos antes de finalizar a biografia.

No livro, a revelação do policial, que preferiu não ser identificado, ficou assim:

Numa madrugada de maio de 2011, um dos protagonistas da emboscada para Marighella confidenciou o que de fato sucedera décadas antes. Com a condição de não ter a identidade revelada, o policial aposentado afirmou ter sido o primeiro a examinar o morto e seus pertences. “Ele não portava arma nenhuma”, esclareceu em longa conversa num município da Grande São Paulo. É fonte insuspeita: fuzilar um homem desarmado jamais honrou currículo.*

O biógrafo vibra muito e considera extremamente valiosa cada descoberta que faz sobre seus personagens. E essas descobertas ajudam a resolver uma narrativa, amarrar a história. Segundo Mário, a narrativa biográfica tem que atender os mesmos pressupostos da narrativa de ficção.

Como ele costuma dizer brincando, “Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo” é um romance, mas um romance sem ficção. Logo, portanto, não é um romance; tem todos os ingredientes para sê-lo: amor, paixão, luta, violência, intrigas, amizade, perdas, dramas, alegrias, muita ideia - até porque trata-se da história de um militante político -, mas até um soluço do protagonista tem sua fonte informada. O livro não possui cenas de tortura imaginárias, são cenas de tortura relatadas. Ele não utiliza notas de rodapé, tão apreciadas por acadêmicos, pois considera que elas atrapalham a fluidez da leitura. Mas coloca todas as notas – e, no caso de Marighella, elas são mais de 2.000 - no final do livro. Sente-se obrigado a informar o leitor sobre a veracidade de cada fato relatado na biografia.

A arte principal do autor de biografias, como esclarece Magalhães, “está na maneira como ele vai narrar”. A narrativa, seja em ficção ou não-ficção, é o seguinte: uma palavra tem que combinar com a que está do lado, uma frase engancha na outra, um parágrafo se conecta ao seguinte, um capítulo vai se unindo ao próximo, mesmo quando se “manipula a informação de modo a tornar o livro mais convidativo ao leitor”.

O que o autor quer dizer com “manipular a informação” não tem nada a ver com alterar dados e fatos; tem a ver com manipulação narrativa, manipulação do tempo. Mas não é mentir o tempo. No natural, o tempo corre sempre para a frente; na narrativa, ele pode ir e voltar, como quiser o narrador e como for melhor para a história. O biógrafo vai plantando curiosidade, plantando pistas. Deixa um gancho no final de um parágrafo, bloco ou capítulo. Não precisa retomar o assunto no capítulo ou bloco seguinte, pode retomar mais adiante.

— Para contar com esse encanto, não basta querer, basta ter domínio técnico. Por isso que os nossos dois maiores biógrafos, não só pela capacidade de apuração, são Ruy Castro e Fernando Morais. Eles têm textos muito diferentes. O Fernando escreve com uma narrativa clássica; o Ruy com um texto basicamente de crônica. Mas eles são os melhores. Escrevem como ninguém e, entre os que escrevem melhor, sabem fazer biografias não superficiais. Biografias que vão fundo na alma dos personagens.

Mário Magalhães divide as fontes para suas biografias em dois grupos: documentais e testemunhais. Como em qualquer reportagem de jornal, em qualquer plataforma - na biografia mais ainda -, o autor tem que, antes de tudo, depois da escolha do personagem, reunir tudo o que já foi dito, falado, mostrado, exibido e escrito pelo biografado e sobre ele. Então, a partir desse conjunto de informações, será possível selecionar e identificar o que não foi falado, o que não foi dito e quem tem, potencialmente, as informações mais importantes a dar. Esse trabalho de largada é gigantesco.

No caso de Marighella, o biógrafo entrevistou desde os militantes, camaradas do protagonista nos anos 1930, até os companheiros dele na década de 60. O primeiro apanhado de informações foi suficiente para Magalhães identificar, por exemplo, que havia personagens ali, pessoas que tinham muito a dizer sobre o biografado e que, por um motivo ou outro, nunca tinham contado a sua história. Um exemplo concreto: Zilda Paula Xavier Pereira, a companheira de Carlos Marighella, na maior parte do tempo, durante os últimos anos de sua vida.

De certo modo, como verificou o autor, Zilda havia sido apagada da história. Por um sem-número de motivos, inclusive, em alguns casos, por ignorância, porque as pessoas não sabiam de sua existência. Mário garante que Zilda foi uma das três fontes mais importantes para o desenvolvimento da biografia. Em relação à luta armada, que domina a terceira e última parte do livro, foi, sem sombra de dúvidas, a mais importante. No caso da Zilda, ela era uma entrevistada praticamente inexplorada por historiadores e jornalistas.

Mas há, também, aqueles entrevistados que o biógrafo sabe que conhecem mais a história do que já contaram, ou porque antes não se dispuseram ou porque nunca ninguém fez a pergunta certa. Afinal, qual é a maior alegria de um entrevistador? Qual é a frase que enlouquece um repórter? É quando o entrevistado diz “eu nunca contei isso pra ninguém” e, em seguida, conta uma história até então inédita.

As revelações têm valor inenarrável para o autor de biografias. Para Mário, só há sentido em escrever livros se houver novidades relevantes para contar. Simplesmente narrar de uma maneira mais agradável, mais sedutora, não basta. Vale contar exatamente tudo o que for relevante. — Como narrar a vida do Garrincha, por exemplo, sem contar a história das filhas, da relação dele com a Elza Soares? É impossível! Ou seja, uma pessoa é o que ela faz, o que ela pensa, o que ela diz. Eu acho que é, mais do que legítimo, necessário contar tudo que seja importante, às vezes indispensável, para conhecer essa pessoa. Por exemplo, você vai contar a história, fazer a biografia do Maradona e omitir que ele se tornou um dependente de cocaína? É uma fraude, não é biografia.

Mas, segundo Magalhães, a maior armadilha que o biógrafo pode enfrentar é quando testemunhos de antípodas, de antagonistas convergem, e o biógrafo pensa: “se um lado está dizendo que é ‘A’ e o outro lado também está dizendo que é ‘A’, então é”. E não é; não necessariamente. Pode ser, mas não porque houve dolo do depoente - ou seja, ele mentiu, falseou os fatos de propósito. Não! É porque a memória é traiçoeira. A memória é muito traiçoeira.

O desafio do jornalista é descobrir a realidade. Qual é o depoimento que tem mais lastro, que corresponde ao fato. O trabalho permanente do repórter é esse, portanto, do biógrafo. Quando se descobre a verdade em documentos, aí é possível esclarecer.

O fato de praticamente todo o trabalho da biografia de Carlos Marighella ter contado com o apoio de uma editora profissional, como a Companhia das Letras, facilitou muito o processo de finalização do livro. Existe uma interlocução com vários profissionais envolvidos, desde o preparador ou a preparadora de texto, até o editor.

E para quem trabalha e sempre trabalhou no jornalismo diário, como Mário Magalhães, que é um jornalismo mais ao toque de caixa - embora ele, por muitos anos, tenha tido a oportunidade de fazer mergulhos mais profundos, mesmo exercendo a função de repórter em jornal diário -, a elaboração e o processo de edição de uma biografia retêm discussões que são muito ricas.

Para o biógrafo, em síntese, o processo de edição de uma biografia, para ser bem-sucedido, baseia-se no seguinte: o livro que chega ao leitor tem que ser melhor do que o livro que o autor entregou ao editor. É basicamente isso. No caso do Marighella, foi assim que aconteceu, a partir de muitas discussões e conversas.

Dois exemplos de debates que melhoraram a biografia, de acordo com o próprio escritor: a mãe do Carlos Marighella, uma negra haussá3, nasceu em maio de 1888, portanto, no mês da Abolição. Dona Maria Rita. A condição do protagonista de negro vai ser relevante, às vezes, determinante, para a sua história. Magalhães tinha gasto cerca 15 linhas na biografia descrevendo a história da legislação escravagista no Brasil. Seu editor, Otávio Marques da Costa, sugeriu eliminar tudo, porque aquilo era muito pesado, prejudicava a narrativa e não era essencial para o leitor. O autor, fundamentalmente, concordou e, na versão final, das 15 linhas, sobreviveram apenas duas.

Por outro lado, há um momento em que, narrando a dificuldade que Marighella e sua companheira, Clara Charf, tiveram para viver o amor deles, pela resistência do pai de dona Clara, o biógrafo faz uma referência a Romeu e Julieta. Otávio Marques da Costa achou que aquilo era um lugar-comum, um clichê, mas foi mantido pelo autor. Ele decidiu deixar no livro porque era, realmente, uma história aos moldes de Romeu e Julieta. Tinha tudo para dar errado, pela oposição do pai de Clara. Por 10 anos, ela ficou sem falar com o pai.

Essa interlocução editorial permite ao escritor ir aprimorando, melhorando o seu texto, a sua narrativa. A biografia é um trabalho de equipe, porque o jornalismo é um trabalho de equipe.

Mas o jornalista garante que o trabalho do biógrafo é, essencialmente, solitário! Como o repórter que se dedica a fazer reportagens em profundidade, também faz um trabalho solitário, por mais que ele tenha apreço, como é o caso da história de Mário Magalhães no jornalismo, de trabalhar em parcerias, seja com outros repórteres que escrevem, ou com repórteres fotográficos.

— Para quem não sabe lidar com a solidão, eu aconselho não enveredar por esse ofício de biógrafo.

Trailer do filme "Marighella", dirigido por Wagner Moura, e que tem estreia prevista no Brasil para maio de 2020

* MAGALHÃES, Mário. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. Companhia das Letras. 2012, p. 610.


Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Roadie Metal e ScreamYell. É autor do livro-reportagem “A Arte de Narrar Vidas - Histórias além dos biografados", com perfis de grandes biógrafos brasileiros. Atualmente trabalha na biografia dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin)..
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