Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Roadie Metal e ScreamYell. É autor do livro-reportagem “A Arte de Narrar Vidas - Histórias além dos biografados", com perfis de grandes biógrafos brasileiros. Atualmente trabalha na biografia dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin).

“Ordinary Man” é o melhor disco de Ozzy Osbourne neste século

A essa altura do campeonato, com internações, pneumonia, UTI, queda, shows cancelados, cirurgias, Parkinson e outros inúmeros problemas — tudo em menos de um ano e meio —, temos que concordar que um disco de inéditas do Madman não era o acontecimento mais esperado na história recente da música pesada. Mas, contrariando toda e qualquer hipótese negativa, ele veio. “Ordinary Man”, 12º segundo disco de inéditas do Ozzy, está longe de ser clássico, mas é superior e mais variado que todos os discos lançados pelo homem neste século (a saber, “Down To Earth”, de 2001; “Black Rain”, de 2007; e “Scream”, de 2010).


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O ponto positivo aqui vai para o time de apoio de Ozzy formado por Chad Smith (Red Hot Chilli Peppers) na bateria, Duff McKagan (Guns ‘N’ Roses) no baixo e o jovem guitarrista e produtor Andrew Watt, que já tocou ao lado de Glenn Hughes e Jason Bonham no California Breed, e é responsável por ótimos momentos nas seis cordas em “Ordinary Man”. A grande maioria das faixas é assinada pelo quarteto (Osbourne, Smith, McKagan e Watt) com um auxilio da guru pop Ali Tamposi, famosa por trabalhos com Camila Cabello, Kelly Clarkson e BTS, e que aqui arredonda as composições e ainda faz backing vocals. Não que fossem necessárias, mas o disco ainda conta com participações mais que especiais de Slash, Elton John, Tom Morello e Post Malone.

“Ordinary Man” abre com a poderosa “Straight to Hell”, que já ganhou videoclipe, na qual o Madman declara: “I’ll make you scream, I’ll make you defecate”; Ozzy sendo Ozzy. Aqui temos a primeira participação de Slash, responsável pelo solo da música. Percebemos também todo o entrosamento entre o baterista Chad Smith e Duff McKagan. Destaque para o som de baixo que está bem “na cara”, com um excelente timbre e repleto de drive. Ouvidos mais desavisados podem se surpreender com a forma pesada com que Chad Smith toca, mas, ao longo de toda a carreira, ele sempre se mostrou um excelente e versátil baterista.

É na primeira música também que nos deparamos com a maior fragilidade presente no disco: o vocal extremamente processado de Ozzy, que em momento algum soa com naturalidade. Dedo do produtor, claro, que efetuou mudanças necessárias nesse sentido, até porque, não fosse assim, provavelmente “Ordinary Man” não teria saído, infelizmente, até mesmo devido aos seus últimos problemas de saúde.

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A inusitada participação de Sir Elton John se dá na belíssima faixa-título, uma balada com melodias que remetem a Beatles — como acontece em grande parte das baladas de autoria de Ozzy —, um piano característico de Elton, um solo competente de Slash e uma letra praticamente autobiográfica. Composição muito bem construída. Em “Eat Me”, Ozzy aparece tocando gaita, lembrando a clássica “The Wizard”, faixa presente no disco de estreia do Black Sabbath. Aliás, “Eat Me” tem muito da antiga banda de Ozzy em sua estrutura, assim como “Goodbye”, que tem em sua introdução uma clara referência à “Iron Man”, também do Sabbath.

Diferentemente de Slash, que tocou apenas nos solos das músicas em que participou, o guitarrista Tom Morello, do Rage Against The Machine, aparece com sua seis cordas em “Scary Little Green Men” por completa. E que música. Com toda certeza o grande destaque de “Ordinary Man” e uma das melhores composições de Ozzy Osbourne em anos. Ponte forte, refrão extremamente envolvente e instrumental acima da média, com uma ótima linha de baixo.

Podemos citar como faixa mais fraca de todo o disco a desnecessária “Holy For Tonight”, balada que nada acrescenta e parece ter sido feita pra encher o disco. O encerramento vem com “It’s A Raid”, com participação do rapper Post Malone. Vale lembrar que Ozzy já havia feito uma colaboração com o músico em “Take What You Want”, que em “Ordinary Man” surge como uma espécie de bonus track. “It’s A Raid” cumpre muito bem seu papel como a última música de um bom disco, possui uma pegada mais punk rock, tirando Post Malone de sua zona de conforto; e ele se sai bem. E Ozzy, na última frase da música, manda seu recado final; “Fuck you all”.

E, apesar das dificuldades atuais, Ozzy parece estar disposto a gravar um novo álbum o quanto antes, como revelou em recente entrevista a Eddie Pappani, da iHeart Radio: “Espero que no próximo mês eu faça outro álbum com Andrew (Watt). Eu poderia, enquanto não estou fazendo shows”. Não sabemos se isso será possível, torcemos que sim. De qualquer forma, caso “Ordinary Man” tenha sido o derradeiro disco da carreira do Madman, podemos dizer que, dadas as circunstâncias, foi um bom final.

Resenha originalmente publicada no site Scream & Yell.


Paulo Pontes

Paulo Pontes é jornalista e já teve seus textos publicados na revista Roadie Crew e nos sites Roadie Metal e ScreamYell. É autor do livro-reportagem “A Arte de Narrar Vidas - Histórias além dos biografados", com perfis de grandes biógrafos brasileiros. Atualmente trabalha na biografia dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin)..
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