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Onde o cool e o cult se encontram

Rodrigo Ferreira

Rodrigo Ferreira é um pesquisador apaixonado por cinema, música e literatura. Ocasionalmente, escreve contos e artigos científicos. Sonha em publicar um livro um dia

Conto: Giulia

Camilo havia perdido a esposa. Mônica queria apenas ser amada. Até onde você iria por amor?


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Camilo não inspirava mais que uma vaga lembrança do homem que era um ano atrás. Desde que sua esposa morreu em um acidente de carro, a sua vida entrara numa espiral em direção ao abismo. Na falta dos pais, que haviam morrido quinze anos antes, os amigos em comum tentaram ajudá-lo de todas as formas. Percebendo que a perda de Giulia pudesse ser demais para ele, levaram-no a um psicólogo logo depois do acidente. No consultório, Camilo aprendeu sobre as cinco fases do luto, porém apenas um sentimento dominava a sua mente e o seu coração: culpa. Camilo estava dirigindo o carro quando tudo aconteceu.

Todos os depoimentos e laudos oficiais diziam que um motorista que vinha na direção contrária havia perdido a direção e atravessado a pista, causando o acidente. Porém, Camilo não parava de pensar sobre o quanto havia bebido antes de pegar a estrada. Talvez, se não estivesse embriagado, poderia ter evitado o desastre ou pelo menos a morte de Giulia. Numa reação que muitos dizem ter sido instintiva, Camilo virou o volante para a esquerda e, ao tentar evitar a colisão, acabou arremessando o lado do carona contra o outro carro. Giulia morreu na hora. “Se houve algum instinto naquilo”, pensava consigo, “foi o de autopreservação”. Mas, essas palavras nunca saíram da sua boca, elas estavam sufocadas no seu íntimo.

Os últimos meses tinham sido de reclusão. Camilo não recebia ninguém. Quando algum amigo ligava, ele simplesmente dizia “está tudo bem” e desligava. Nos melhores dias, pedia que o mercado entregasse as compras em casa. Nos piores, ficava sem comer ou então comia alguma coisa vencida que encontrava pela dispensa. O seu trabalho permitia total desconexão com o mundo. Camilo era escritor. Já tinha alguns livros publicados, alguns deles grandes sucessos de vendas. Quando seu editor ligava, ele simplesmente dizia que estava trabalhando no próximo best-seller. “Privilégio da galinha dos ovos de ouro”, pensava. Os últimos dias tinham sido devastadores. As palavras do psicólogo ecoavam em sua cabeça. Negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. A última fase nunca chegava. Ele se sentia numa cova há meses, sem ter como sair. Nada podia preencher o vazio que Giulia havia deixado. Suas noites eram regadas a lágrimas e álcool, e o seu coração parecia ter sido partido de maneira irreparável.

Foi quando, numa certa manhã, algo veio alterar a rotina autodestrutiva de Camilo. Batidas na porta o fizeram acordar num sobressalto. Ele havia dormido no sofá, como de costume, e alguns restos de comida e copos vazios decoravam a sala do apartamento. Alguns amigos já haviam tentado visitá-lo antes, mas ele nunca os deixava entrar. Geralmente, fingia que não estava ou, quando eram mais insistentes, os mandava embora aos gritos. Por conta disso, eles não voltaram mais. De fato, já fazia alguns meses desde a última visita. Camilo levantou-se meio cambaleante. A cabeça doía e um zumbido não deixava os seus ouvidos. Ao olhar pelo olho mágico, se sentiu intrigado. Parecia ser uma bela mulher. Pensou em simplesmente ignorá-la, mas foi quando ouviu a sua voz: “Olá, tem alguém aí?”

De repente, seu coração disparou e a respiração ficou acelerada. Ele estava mais alerta do que estivera em meses. Era como se houvesse despertado de um longo coma. A voz da mulher era exatamente igual à voz de Giulia. Ele piscou os olhos por um instante apenas para se certificar de que não estava sonhando com ela novamente. Parecia que não. Era real. E ele precisava fazer alguma coisa. Camilo limpou a garganta e tentou soar o mais natural possível: “Já vai, só um segundo”. Ele ajeitou os longos cabelos e abriu a porta.

“Posso te ajudar em alguma coisa?”, perguntou ele.

“Oi, meu nome é Mônica. Sou a nova vizinha do 5D. Eu fiz a mudança há dois dias e ainda estou arrumando as coisas. Queria instalar o varão para as cortinas, mas me lembrei que não tenho uma furadeira. Você, por acaso, tem uma?”

Mônica tentou disfarçar o máximo possível, mas não pôde deixar de notar a aparência cadavérica do rapaz. A sua primeira impressão era de que se tratava de um doente terminal. Camilo, por sua vez, não conseguiu disfarçar a sua surpresa. Mônica não só tinha uma voz muito parecida, mas também lembrava Giulia fisicamente. A pele branca levemente roseada, os cabelos negros escorrendo suavemente pela face, seios e quadris torneados. A semelhança era perturbadora. Camilo disse alguma coisa sobre ter uma ferramenta dessas, deixou a porta entreaberta e foi buscá-la. Quando retornou, Mônica agradeceu com um sorriso e voltou para o seu apartamento.

Nas semanas e meses que se seguiram, Mônica bateu à porta de Camilo por mais algumas vezes. Algumas para pedir algo, outras apenas para devolver o que tinha pegado. A cada vez que via Camilo, ele estava com uma aparência melhor. Tinha ganhado peso e feito a barba. Estava se vestindo melhor e, definitivamente, a estava conquistando aos poucos. Camilo só pensava em Mônica. Ele sentiu a vida correr por suas veias novamente. Voltou a escrever, a se alimentar, e parou de beber. Foi só uma questão de tempo para que as visitas de Mônica se tornassem mais demoradas. Em vez de apenas esperar na porta, ela se sentava por alguns instantes no sofá. E, assim, as coisas foram acontecendo. Da porta para a sala. Da sala para a cama. Parecia que Mônica ia aos poucos tomando o lugar de Giulia no coração de Camilo.

Algumas semanas depois, Camilo deu outro grande passo depois do acidente. Convidou Mônica para jantar em um restaurante que ficava na mesma rua. Já era um começo. Mônica se sentia cada vez mais apaixonada por Camilo, que era muito educado e atencioso. Eles pediram aquilo que o garçom havia lhes sugerido. Enquanto esperavam, Mônica aproveitou para fazer uma pergunta que há muito queria fazer.

“Posso te perguntar uma coisa?”

“Claro”, respondeu Camilo. Ele parecia vivo de novo. Estava bem-humorado e otimista.

“Assim que cheguei na cidade, você estava bem magro, com a aparência de alguém muito doente. O que tinha acontecido?”

“Eu te perdi, mas agora te encontrei de novo.”

Mônica se espantou com o que Camilo dissera. “Como assim?”, acabou perguntando.

Camilo pareceu ter percebido que havia dito algo que não devia e desconversou.

“Desculpa”, disse ele, esboçando um sorriso, “eu quis dizer que perdi o amor no passado e agora encontrei de novo.”

Mônica deu um sorriso sem graça. Havia algo sobre o que Camilo dissera, e a maneira como dissera, que a havia deixado desconfortável.

“Eu perdi minha mulher há um ano e meio”, continuou Camilo, “o nome dela era Giulia. Nós nos casamos muito novos. Eu tinha 23 e ela vinte. Vivíamos uma eterna lua-de-mel. Não havia nada nesse mundo que eu amasse mais. Nada mais que eu precisasse para viver. Giulia era minha vida.”

Camilo fez uma pausa. Sentiu fortes sentimentos retornarem num rompante. Tentou se recompor.

“Quando estávamos nos preparando para ter nosso primeiro filho, Giulia morreu em um acidente de carro. Estávamos indo passar o feriado na praia quando um motorista atravessou a pista e nos acertou em cheio. Ela morreu na hora. E de certa forma… parte de mim morreu ali com ela. Os meses seguintes foram terríveis. Acabei ficando extremamente deprimido, não queria falar com ninguém. Não tinha vontade de comer e bebia demais. Foi assim que cheguei naquele estado em que você me encontrou. Mas, aí… conheci você e bem… você sabe o resto da história.”

Mônica ficou sem saber o que dizer. Se havia algum desconforto sobre o que Camilo dissera, ele havia se dissipado ali mesmo. Ela estava diante de um homem que havia sofrido muito. Um homem que ela amava. E agora era seu papel ajudá-lo a deixar o passado para trás e a viver o presente com ela.

As semanas que se seguiram foram muito importantes para eles. Parecia que após aquela conversa no restaurante, as barreiras emocionais de ambos haviam caído por terra. Mônica se mudou para o apartamento de Camilo e cada vez mais o passado parecia estar sendo deixado para trás. Ela se dedicava à pintura. Ele escrevia. Às vezes trocavam ideias sobre os seus próximos trabalhos, outras vezes faziam amor entre folhas, telas e pincéis. A felicidade havia batido à porta de Camilo mais uma vez e, para todos os efeitos, ali morava o casal mais feliz do mundo. Aos poucos, entretanto, uma certa sombra do passado foi borrando o belo quadro.

Algumas vezes Camilo, meio sem querer, chamava Mônica de Giulia. No início, Mônica tentou relevar, afinal tudo tinha sido muito traumático para ele. Com o tempo, entretanto, ela percebeu que não somente não passava, como vinha piorando. Ele trocava os nomes com mais frequência e muitas vezes ressaltava algo que elas tinham em comum. “Nossa, a Giulia tinha a mesma expressão” ou “o jeito como você assopra o café é muito da Giulia”. Mônica foi se incomodando cada vez mais com isso. Sempre que abordava a questão, Camilo dizia que não era nada demais, pedia desculpas e prometia que não iria acontecer de novo. Infelizmente, ele era incapaz de cumprir a promessa.

Cada vez mais, Camilo trocava os nomes. Ele não fazia mais comparações e Mônica não sabia se ele estava falando dela ou de Giulia. Todas as vezes que tocavam no assunto, Camilo desconversava e minimizava a importância daquilo. Mônica foi ficando cansada de lutar. Ela o amava muito e tudo começou a parecer um preço pequeno demais pela felicidade que ela estava experimentando. Se ele queria que ela fosse a sua Giulia, que mal poderia haver nisso?

Não demorou muito para que o que ela temia acontecesse. Camilo não a chamava mais de Mônica. Era apenas Giulia. Para ele, Giulia estava de volta e tudo era como nos velhos tempos. Ele chegou a sugerir um corte de cabelo que a deixava mais parecida com Giulia, o que Mônica fez prontamente. Ele fazia menção a experiências que eles não tiveram juntos e Mônica sempre entrava no papel para agradá-lo. Com o tempo, Mônica se tornou Giulia. Quando saía sozinha ou ia a encontros de trabalho, ela era Mônica. Mas, dentro daquelas quatro paredes ou quando saía com Camilo, ela era Giulia. E Mônica teve que admitir que aqueles estavam sendo os melhores meses da sua vida. Se ninguém queria amá-la como Mônica, por que não receber todo amor que Camilo tinha para Giulia? Como ela se sentia amada! Seria injusto dizer que apenas Camilo estava no céu, Mônica estava lá também. Só que para estar nesse céu, ela precisava ser Giulia e ela concordava inteiramente com isso.

Era visível que Camilo estava muito feliz. Ele escrevia como nunca e o seu editor estava animado com o seu retorno. Ele chegou a dizer que Camilo estava escrevendo melhor do que antes e que provavelmente seu próximo livro seria um sucesso maior do que os outros. Entretanto, ninguém sabia ainda da existência de Mônica. Camilo temia que se alguém soubesse, colocaria o seu pequeno paraíso em risco. Mas, também era muito doloroso não poder dividir a sua felicidade com mais ninguém. Afinal, Giulia havia voltado e aquilo era um acontecimento.

Camilo então ligou para um amigo. Ricardo o havia ajudado depois do acidente e por várias vezes tentou fazer contato, sem sucesso. Camilo sabia que não tinha facilitado para nenhum dos seus amigos, mas Ricardo tinha sido seu amigo desde sempre e Camilo achou que seria certo ele ser o primeiro a saber. Ricardo, a princípio, estranhou o contato. Disse que achava que Camilo estivesse morto ou que tivesse se mudado para algum lugar distante, e que estava muito feliz por ele ter ligado.

“Eu sei que não foi certo afastar vocês”, disse Camilo.

“Tudo bem, Camilo. O importante é que você está bem. A gente entende… de certa forma. Giulia era tudo pra você.”

Alguns segundos de silêncio se seguiram.

“Sim, Ricardo. Ela é. Era exatamente sobre isso que queria falar com você.”

Ricardo estranhou a forma como Camilo dissera aquilo, mas não comentou nada.

“Claro, eu estou ouvindo. Como andam as coisas?”

“Ricardo, você não vai acreditar… ela voltou. Giulia está de volta!”, Camilo agora não conseguia mais esconder a sua ansiedade.

“Como assim? Giulia? A sua Giulia? Do que você está falando?”, Ricardo ainda não tinha conseguido processar exatamente o que Camilo havia dito.

“Sim”, confirmou Camilo, “a minha Giulia. Ela foi tirada de mim por um tempo, mas finalmente retornou. Nós nos reencontramos há alguns meses e agora está tudo bem, tudo de volta como era antes.”

Ricardo pensou naquilo por alguns instantes. Não sabia exatamente o que dizer.

“Camilo, o que você está dizendo? Você está se ouvindo? Giulia morreu em um acidente de carro há dois anos. Nós dois sabemos disso. Vocês não podem estar juntos novamente. A Giulia está morta!”

“O que você está dizendo?!”, Camilo reagiu com violência. “Ela está viva e está aqui comigo! Nós estamos juntos há vários meses. Você está dizendo isso porque não quer que sejamos felizes. Eu sabia que não devia ter contado a ninguém!”

Antes que Ricardo pudesse responder qualquer coisa, Camilo desligou o telefone, furioso. Ele estava transtornado. Ele gargalhava e gritava “ela não pode estar morta! Ela está viva!”. Logo depois, chorava e se desesperava, murmurando: “Oh, Giulia… Como você pôde fazer isso comigo? Por que você me deixou?”

Ao ouvir os gritos, Mônica saiu do quarto e foi ver o que estava acontecendo. Encontrou Camilo ajoelhado no meio da sala. As mãos esfregavam a cabeça, que estava afundada no sofá. Ela saiu correndo na direção dele, que chorava e gemia dizendo coisas sem sentido.

“Camilo?! Camilo?! O que está acontecendo? Eu estou aqui… a sua Giulia. Tudo vai ficar bem…”, disse, enquanto o abraçava.

Camilo parecia ter se acalmado quando, de repente, tomou as mãos de Mônica e começou a apertá-las com força. Seus olhos, agora, haviam mudado para uma expressão indecifrável. Ele se virou com rapidez e jogou-a no chão. Ela gritou de pavor: “O que você está fazendo?! Camilo, por favor, não faça isso!”

Antes que Mônica pudesse reagir, Camilo se lançou sobre ela. Ele segurava os seus braços, que se debatiam.

“Você não pode ser a Giulia! A Giulia está morta! Você não pode ser ela… Você não deveria estar aqui… Você está morta! Você está morta!”

As mãos de Camilo subiram e acariciaram a face de Mônica. Depois desceram e se encontraram ao redor do seu pescoço. Então, ele apertou com força. Mônica se debatia e tentava dizer algo, mas seu grito era sufocado pelas mãos fortes de Camilo. Ela tentava dizer “eu não sou Giulia, eu sou Mônica”, mas só se ouviam gemidos. Já era tarde demais. As mãos de Camilo apertaram com mais e mais força e, depois de alguns segundos, ela já não se debatia mais. Giulia estava morta.


Rodrigo Ferreira

Rodrigo Ferreira é um pesquisador apaixonado por cinema, música e literatura. Ocasionalmente, escreve contos e artigos científicos. Sonha em publicar um livro um dia.
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