Bruna Kurth

Tempo livre

É você quem conduz? Ou você é conduzido?


Partindo do conceito de Tempo Livre, conhecido como ócio, que faz uma referência ao que chamamos de uma vida “folgada”, agora se confunde. Porém, ainda entendido como um tempo disponível para que o indivíduo possa realizar atividades de seu próprio gosto e de maneira que só cabe a ele decidir, seria exercer além da sua vontade própria. Mas sim, exercer um direito humano. Deixando sua liberdade, realmente, livre. Menciono de maneira literal, pois, a liberdade própria, vem sendo controlada por outrem, de uma forma quase que invisível. Basta analisarmos o conceito de Indústria Cultural, que controla descaradamente a consciência de uma grande parte da sociedade (se não toda).

Ao analisar a sociedade, por mais pessimista que seja a conclusão, a verdade é que ela é movida pelas grandes empresas. E não por seus governantes. A partir do momento em que o lucro se torna princípio de tudo. São essas potências que movem o país de maneira geral. Desde cedo temos conhecimento de que para tudo, necessita-se de dinheiro. Seja para realização de um desejo material ou de querer aproveitar o tal do tempo livre.

“O tempo livre aumentou sobremaneira; graças às invenções tecnológicas, ainda não totalmente utilizadas – em tempos econômicos – poderá aumentar cada vez mais. Porém, o tempo livre tende em direção contrária à de seu próprio conceito. Neste se prolonga a não-liberdade, tão desconhecida da maioria das pessoas não-livres como a sua não-liberdade em si mesma.” (ADORNO, Theodor W. Palavras e sinais: modelos críticos 2. Petrópolis: Vozes, 1995).

Adorno crítica essa dupla significação, justamente, pela não-liberdade, como o mesmo define. Sendo essa mudança de papéis que tornou difícil a identificação real do papel de determinado indivíduo perante esse grande monopólio. Hoje, quem define, na maioria das vezes, é o mercado. As pessoas deixam de seguir seus objetivos por conta da necessidade financeira da sobrevivência. Admiráveis são os encorajados de inverter esses papéis. Ou melhor, de reconquistar o que lhe pertencia. É essa liberdade de decisão, escolha, atitudes, que falta nos atuais soldados desse grande batalhão que é a vida.

As pessoas acreditam utilizar seu tempo livre e usufruir de sua liberdade de forma convicta e estruturada. Quando na verdade, não percebem que até o lazer se transformou em moeda de troca. A própria natureza é vendida. Nós, muitas vezes, pagamos para usufruir dela. Assim como pagamos para melhorias estéticas que, são impostas através de propagandas, com mulheres exuberantes e julgadas como figuras perfeitas numa sociedade em que é gritante a diversidade de etnias. Para o filósofo as pessoas se tornam fetiches para outras pessoas.

É nítida a influência das figuras célebres no comportamento de um indivíduo. Vivemos num mundo rodeado de espelhos onde refletimos exatamente aquilo que somos ou que queremos ser. O ser humano é também um personagem. Um ser que se habitua a tudo e que deixou de se expressar, por viver num comodismo. Torna-se mais fácil seguir uma ideologia já existente do que criar e propagar uma nova.

O tempo livre passou a ser um apêndice do trabalho. Ele perdeu a sua real intenção. Já não é mais usado para o crescimento espiritual ou intelectual, e sim como forma de recarregar as energias. Para quê? Para retornar ao trabalho e garantir mais lucro aos seus dirigentes. Usa-se a semana para trabalhar e o final de semana para descansar. E assim, segue-se o ciclo. A vida passa a ser organizada num regime de lucro. E então surge o tédio. O qual, segundo Adorno, não deveria existir.

“Se as pessoas pudessem decidir sobre si mesmas e sobre suas vidas, se não estivessem encerradas no sempre-igual, não se entediariam”. (ADORNO, Theodor W. Palavras e sinais: modelos críticos 2. Petrópolis: Vozes, 1995).

Por necessidade de ordenar diversão com trabalho, seguimos horários e assim criamos um ordenamento não só pessoal, mas, a sociedade passa a ser ordenada para que seja organizada. Mesmo que não funcione, a intenção é essa. E então, essa descontração que poderia ser usada no tempo livre, passa a ser ignorada. Pois as pessoas alegam não ter tempo suficiente. Por quê? Pela falta de organização. E assim, se alimenta o tédio. A ideia de que não lhe sobrará tempo, impede o indivíduo de exercer determinadas atividades que o desconectariam, mesmo que de forma rápida, deste mundo de responsabilidades e funções impostas por um superior.

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A capacidade criativa e produtiva da sociedade se limita não apenas no tempo, mas também na preguiça. Por vezes o indivíduo impede a si mesmo de praticar a produtividade devido à demanda de funções diárias desempenhadas no trabalho. Aí volta a questão de usar o tempo livre para descanso em vez de crescimento. A mesma situação se encaixa quando o indivíduo se queixa de algo que não está funcionando como deveria, ou como queria, e mesmo assim, pouco faz para mudar.

Portanto, a indústria cultural e seus consumidores, se moldam um ao outro. Partindo desde consumo material, bem como o tempo livre que, como já dito, o lazer também se tornou um comércio. Fazendo então, com que as pessoas aceitem e consumam o que a indústria quer. E assim, a sociedade “sobrevive”. Rodeada de condutores, tecnologia e lucro.

Essa vivência em cima do trabalho e obtenção de recompensas financeiras, é feita de forma privativa. As pequenas e grandes empresas mantêm seus funcionários trancafiados num ambiente onde são obrigados a cumprir não só atividades a eles destinadas, mas também horários. Estes que, na maioria, coincidem com horários de início e término de expediente de outras empresas. E, o mais afetado com essa “coincidência”, é o trânsito. Basta notar as grandes cidades e seus congestionamentos que, já possuem até horário marcado.

São as pessoas que constroem a sociedade. Às vezes, uma escolha pode afetar uma grande quantidade de indivíduos, seja de forma benéfica ou não. A verdade é que podemos promover mudanças, desafios e crescimento. Basta exercer a coragem, a criatividade e, principalmente, impor-se diante do mundo. Não se tornando mais um em meio a tantos. Cabendo a si mesmo, administrar decisões, tarefas e responsabilidades impostas.


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