Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar.

Não aconteceu, virou manchete

Com direito à Bolsa-Prostituição e Suzane Richthofen na Câmara dos Deputados, ingressamos na era do “se está no Facebook e tem foto, então é verdade”. Leia, pense e respire antes de compartilhar.


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Pastora Suzane Richthofen é nomeada presidente da Comissão de Seguridade Social e Família. Portanto, passou ser funcionária da Câmara de Deputados com salário pago com os impostos que nós (babacas) recolhemos a esse governo”.

Ainda no ano passado, acompanhada de uma foto de Suzane Richthofen, a “notícia” acima despertou indignação nas redes sociais. Também, não é pra menos. Só mesmo no Brasil, uma matricida/parricida poderia assumir um cargo que tem a palavra família em seu título.

Em maio de 2013, de uma hora para a outra, na surdina da noite, o Senado aprovou a chamada “Bolsa-Prostituição”. Projeto que, no embalo do Bolsa-Família, concede R$ 2 mil mensais como auxílio para prostitutas.

Já em fevereiro de 2014, o carro do prefeito de São Paulo foi “visto e fotografado” trafegando em um corredor de ônibus na cidade, desrespeitando a lei municipal – justo ele, Fernando Haddad, que tornou a vida dos motoristas da capital paulistana em um inferno, com a construção de novas faixas exclusivas para ônibus.

O que essas “não-notícias” têm em comum? Resposta: além de falsas e pipocarem em nossas timelines, elas também me assustam.

Não por seus conteúdos em si, afinal, disse-me-disse, mentira, fofoca e hoax – expressão designada aos boatos da internet – existiram sempre, desde sempre e para sempre. Como diz a sábia, faz parte.

Algumas dessas “não-notícias”, inclusive, não escondem sua natureza falsa e, até mesmo, jocosa, produzidas por sites que apostam no jornalismo fake como método de sucesso – caso, por exemplo, do blog Diversity Chronicle, autor da declaração atribuída ao Papa Francisco sobre a ausência de fogo no inferno e o caráter mitológico da história de Adão e Eva.

Mas o que assusta mesmo é como esse tipo de conteúdo parece ganhar credibilidade proporcionalmente à sua disseminação, assumindo o status de informação.

Para se ter uma noção, por mais estapafúrdio que seja, o boato sobre a nomeação de Suzane Richthofen para a CSSF já foi compartilhado cerca de 117 mil vezes no Facebook, acompanhado em grande parte por comentários indignados, contrários a mais esse absurdo brasileiro.

Assim, pouco a pouco vamos acrescentando à ideia de “se não está no Google, não existe”, a lógica de “se está no Facebook e tem foto, então é verdade”.

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Nesse sentido, mais pelo estilo de vida que levamos do que pelo volume de conteúdo produzido, a proposta de comparar diferentes fontes de uma mesma notícia, ou ao menos de pesquisar a origem das informações, soa inviável, pouco prática, trabalhosa demais.

O tempo urge, o dedo coça.

Por outro lado, ainda que potencializado pelas e nas redes sociais, não dá para dizer que esse filtro pouco criterioso seja traço exclusivo delas. Afinal, mesmo em veículos tradicionais da mídia tradicional – talvez imbuídos pelo espírito do tempo – manchetes construídas na base do disse-me-disse não são novidades.

No caso da suposta nomeação de Suzane, por exemplo, alguns jornais embarcaram na história e, depois, precisaram abrir espaço para erratas.

Quanto a nós, meros mortais, não jornalistas, o desafio consiste em compreender essa nova forma de fazer comunicação que nos coloca no meio da arena, não apenas como espectadores ou receptores da mensagem, mas editores, censores e, às vezes, produtores da própria informação.

A responsabilidade inerente à essa posição requer, no mínimo, um mínimo reflexão. Não dá para sair compartilhando tudo o que salta na timeline sem contar até dez, respirar e ponderar.

Até porque quantos de nós, depois de publicarmos algo não verdadeiro em nossas páginas, utilizamos o mesmo espaço para reconhecer o vacilo?

E pensar que na semana passada, o SBT foi condenado a indenizar os donos da Escola de Base, pelas reportagens veiculadas em 1994. Já pensou se a gente já tivesse Facebook naquela época?

Bom senso não é aplicativo que se baixe fácil por aí.


Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar..
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