Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar.

Não era Chico, era Silvio

Do lado de lá do Caribe e do mundo, há mais de 40 anos um trovador canta as belezas, dores e alegrias de uma terra única: Cuba.


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Vivo en un país libre, cual solamente puede ser libre, en esta tierra, en este instante yo soy feliz porque soy gigante, amo a una mujer clara que amo y me ama sin pedir nada, o casi nada, que no es lo mismo pero es igual”.

A primeira vez em que ouvi Silvio Rodríguez foi ouvindo Chico Buarque. Mais precisamente, a versão de Pequeña Serenata Diurna interpretada por Chico no disco “Chico Buarque” (Samambaia). E foi o suficiente para querer saber mais.

Dono de uma discografia extensa, Silvio integrou o grupo de músicos que, no fim dos anos 60, ficou conhecido como “La Nueva Trova Cubana”, cantando temas ligados ao cotidiano cubano pós-revolução.

Período evidenciado, por exemplo, em alguns de seus primeiros sucessos, como Fusil contra Fusil e La Era Está Pariendo un Corázon, escrita um dia depois da morte de Che Guevara:

Ainda adolescente quando a revolução eclodiu, ele esteve entre os 100 mil jovens que percorreram o interior cubano levando alfabetização em 1961.

No fim dessa mesma década, depois de cumprir o serviço militar obrigatório, o trovador percorreu parte da costa africana em barcos de pesca. Viagem que ficaria marcada por 62 novas canções e uma forte ligação com o continente – para onde retornaria anos mais tarde a fim de apoiar as tropas cubanas e angolanas na luta contra a África do Sul.

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Entretanto, apesar de declaradamente alinhado aos princípios da revolução, a biografia de Silvio também reúne momentos de discordância em relação ao regime.

Entre eles, o elogio aos Beatles que custou a suspensão de um programa de TV em que era a principal atração ainda no início de sua carreira e, mais recentemente, o show ao lado do pianista Roberto Carcassés que fora proibido de apresentar-se em público em razão de críticas ao governo de Raúl Castro.

Por esses motivos e também pelo raro talento em abordar temas cotidianos com lirismo e poesia – que particularmente só encontro parâmetro na obra do mesmo Chico –, resumir a música de Silvio a uma mera “militância planfetária” não parece justo.

De seu primeiro disco, Días y Flores, ao último, Segunda Cita, o que encontramos são relatos de alguém apaixonado por Cuba e pela América Latina, capaz de produzir retratos belíssimos dessas duas realidades em forma de música, sem esconder suas convicções, mas também sem se restringir a elas.

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Além de congregar em suas letras referências culturais e artísticas distintas, como no título da canção Oleo de Mujer Con Sombrero, homônimo do quadro do pintor bielorruso Marc Chagal, e nos versos de Quien Fuera, em que o amigo Chico Buarque é colocado ao lado de John Lennon e Paul McCartney:

"Estoy buscando melodía para tener como llamarte. ¿Quién fuera ruiseñor? ¿Quién fuera Lennon y McCartney, Sindo Garay, Violeta, Chico Buarque? ¿Quién fuera tu trovador?"

Entre os momentos mais marcantes na trajetória de Silvio, o disco duplo extraído do concerto para mais de 80 mil pessoas no estádio nacional, em 1990 – quando pôde regressar ao Chile depois dos anos de Pinochet – merece destaque, servindo como excelente ponto de partida para quem quiser começar a conhecer a obra do trovador:


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