Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar.

Um dia perto dos 30

Um dia, perto dos 30, alguns descobrem que o viajar será sempre mais e maior do que a viagem.


Um dia, perto dos 30, todo mundo se encontra.

Seja na yoga, três vezes por semana. Seja no time de basquete amador levado a sério. Seja no curso de moda na segunda graduação. Seja criando raízes na horta orgânica no fundo do quintal. Um dia, perto dos 30, todo mundo se encontra.

9435123826_e89b552f7a_b.jpg

E que bom. Isso não é uma crítica. Na verdade, chego quase a acreditar que essa é uma etapa natural da nossa, tão social, condição humana, ocidental, proto-cristã, etc.

Encontrar algo para direcionar as energias, para colocar à frente dos problemas insuperáveis, respirar um pouco em meio à rotina, fazer algo “produtivo” para nós mesmos, sair do Facebook de vez em quando.

Fato é que todo mundo se acha em certo momento, se aconchega, se aquieta, se permite encontrar algo que dê sentido para a existência e, mais importante do que isso, para o dia a dia, para o viver ordinário, para a segunda, terça, quarta e quinta-feira – para a sexta não, porque ninguém precisa nem quer ter sentido nas sextas.

Mas, por empatia, compaixão ou apenas por gostar mais deles, volta e meia me pego pensando em quem não faz parte desse “todo mundo” presente desde o início do texto.

5422896158_978d4dc752_b.jpg

Desajustados para alguns, inadaptados, imaturos, inquietos, (coloque aqui seu adjetivo favorito), portadores da síndrome de Peter Pan para outros, esse tipo de gente é gente daquele tipo que ainda não se encontrou e que, para muitos, ainda “não deu certo”.

Situados sempre no fundo das classes, presença certa nos corredores dos escritórios, ausência confirmada nas reuniões de condomínios, eles estão lá, normalmente repletos de ideias e de problemas financeiros que, de tão constantes, já deixaram de ser problemas e passaram a ser companhias.

  • Sim, isso não é saudável, nem recomendável, concordo.
  • Sim, os boletos chegam para todo mundo, também estou de acordo.
  • Sim, chega uma hora em que a gente sonha com estabilidade, pode ser.

Então, por que eles insistem em ser assim?

Talvez, só talvez, por perceberem que perto dos 30 "muito pouco" já foi vivido – no sentido mais correto dessa expressão. Muito pouco foi vivido.

IMG_0665-1300x866.jpg

Talvez, só talvez, pela série de tentativas de tirar o pé e atirar a âncora, que no fim, ao invés de criarem portos fixos e seguros só revelaram a beleza de viver em processo, em constante reconstrução e mudança, chegando e partindo de lugares diferentes, impensáveis.

  • A instabilidade vicia.
  • A angústia é a antessala da criação.

Para mim, que não sou assim, a leveza dessas pessoas me atrai. É como se elas conduzissem suas vidas com uma crença ingênua, linda e estúpida de que, no fundo, a gente não precisa dar certo, nem se encontrar.

No fundo, apesar do que nos dizem, a gente não precisa sossegar, pelos menos não agora. O viajar já é mais que a viagem.


Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Talles de Lima