Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar.

O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro

Construído com os tijolos da desconstrução de outros povos, contorcido entre as dores e as delícias dos trópicos, esquecido pelos brasileiros, nós mesmos, os próprios.


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Existem livros que, para o nosso conforto, é melhor a gente não ler. Entre esses, um dos meus casos favoritos é o “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro.

Ao fim da primeira página, o estrago já está feito: um novo brasileiro encontra-se prestes a nascer.

A partir de então, durante o período da leitura – talvez da gestação –, somos conduzidos pela história da formação do povo brasileiro, assumindo uma perspectiva poucas vezes registrada, incansavelmente explorada: a do povo, no caso, a do nosso próprio povo.

Escrito e rescrito durante três décadas, mas publicado em caráter de urgência apenas dois anos antes da morte de Darcy, o livro é um daqueles que sabem, de antemão, a importância que carregam. E não é para menos.

Ainda em 1964, exilado no Uruguai, Darcy deu início ao seu audacioso projeto de compreender o porquê do Brasil ainda não ter dado certo. Empreitada que assumiria sua forma definitiva em um livro-painel, como dizem, reconstituindo como os brasileiros fizeram-se a si mesmos.

Sem qualquer pretensão de esconder sua abordagem crítica, política, da história do Brasil, Darcy produziu uma obra que não pode ser considerada nem exclusivamente antropológica, nem exclusivamente histórica .

Na primeira parte, o antropólogo-político-romancista-educador reivindica o título de “Nova Roma” para o Brasil, ao apresentar o processo de formação do povo brasileiro como resultado da desconstrução do Português (fora da Europa), do Negro (escravo e fora da África) e do Índio (o pouco que restou, longe de suas tribos-nações):

Era o brasileiro que surgia, construído com os tijolos dessas matizes à medida que elas iam sendo desfeitas.

E mais adiante, destacando o caráter germinal do povo brasileiro, alicerçado sobre a mestiçagem:

"Nações germinais, como Roma no passado, foram os iberos, os ingleses e os russos no mundo moderno. Cada um deles deu origem a uma variante ponderável da humanidade. [...]Nós brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo".

Posteriormente, o autor dedica-se a apresentar outro traço particular da constituição do Brasil, a presença de cinco grandes culturas, tão distintas como complementares.

Assim, esses cinco Brasis, Crioulo, Caboclo, Sertanejo, Caipira e Sulino, são relatados como marcas desse improvável povo-nação, capaz de abrigar grupos tão diversos em uma mesma entidade cívica e política:

É simplesmente espantoso que esses núcleos tão iguais e tão diferentes se tenham mantido aglutinados numa só nação. Durante o período colonial, cada um deles teve relação direta com a metrópole e o "natural" é que, como ocorreu na América hispânica, tivessem alcançado a independência como comunidades autônomas. Mas a história é caprichosa, o "natural" não ocorreu. Ocorreu o extraordinário[...]

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No fim, o “homem de fé e de partido”, como ele mesmo dizia, passa a tratar do destino nacional, com um olhar novamente crítico, apontando o modo de ordenação da sociedade brasileira como responsável por seu atraso e desigualdade – segundo ele, um modelo desde sempre contrário aos interesses da população e a favor de uma minoria dominante:

Para seus pais, o negro escravo, o forro, bem como o mulato, eram mera força energética, como um saco de carvão, que desgastado era substituído facilmente por outro que se comprava. Para seus descendentes, o negro livre, o mulato e o branco pobre são também o que há de mais reles, pela preguiça, pela ignorância, pela criminalidade inatas e inelutáveis”.

Ao mesmo tempo, talvez justamente pela fé, Darcy também encontra espaço para expor seu convicto otimismo ao resgatar o grandioso feito da construção do Brasil, para vislumbrar um futuro promissor:

Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra”.

Antes que alguém o diga, é evidente que o tom nacionalista presente em “O Povo Brasileiro” faz da obra uma expressão muito particular de seu autor, demonstrada, por exemplo, na ideia de uma nova romanidade que acompanha o texto.

No entanto, entre seus tantos méritos, Darcy era dono de uma franqueza rara, ao ponto de deixar claro desde o início que seu livro pretendia sim influenciar a compreensão dos leitores sobre a história nacional: “faço política e faço ciência movido por razões étnicas e por um profundo patriotismo. Não procure aqui, análises isentas”.

Assim, como seu subtítulo sugere, entre a história, a antropologia e a sociologia, o clássico de Darcy tornou-se indispensável para compreendermos a formação e o sentido do Brasil, enquanto que em mim ele renovou o sonho da construção de um país mais justo e mais brasileiro. E isso é incrível.

Obrigado, Darcy. Viva o Povo Brasileiro!


Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar..
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