Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar.

No hall de um hotel em Paris

Pela primeira vez em sua vida, ela encontrou Dona Benedita e a si mesma


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No hall do hotel, ela estava lá: florida e engomada, de saia branca rendada e maquiagem, no alto de seus 63 anos, marcados pela chuva e pelo sol – muito mais pelo sol, como só o sotaque de quem é de Maceió pode revelar –: Dona Benedita.

Em dois minutos, enquanto espera as duas irmãs descerem para o café, deixamos de ser meras desconhecidas para partilhar “intimidades”, como o gosto pela tapioca, o desgosto pela turbulência e pelo chá de boldo (que estava em falta no hotel). Além, é claro, do vício de linguagem que coloca Deus em tudo, a cada duas novas palavras:

- “Jesus, menina, mas o que você está fazendo aqui? Graças a Deus por ser brasileira. Anota meu telefone e fica com esse guardanapo que eu mesma bordei.”

As irmãs chegam e passo a desconfiar de que exista, em algum canto do meu país, uma fábrica de Donas Beneditas, únicas e produzidas em série, localizada muito provavelmente ao lado da fábrica de falas mansas, tamancos e água de colônia.

- “Deus te abençoe.”

Ela se vai, o café não pode e nem deve esfriar. E eu, parada, sinto saudades de tudo e de todos, até mesmo de quem ainda não cheguei a conhecer. O rádio do hotel lembra que são casas simples, com cadeiras na calçada, e na fachada escrito em cima que é um lar.

Ela nunca mais me verá, mas eu, em compensação, tenho certeza que ainda encontrarei outras Donas Beneditas em meu caminho. Isso, se Deus quiser.

Não há nada como o Brasil!


Talles de Lima

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