Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar.

Marx: A (re)volta do Espírito

"Querendo-o ou não, sabendo-o ou não, todos os homens sobre a face da Terra são, em uma certa medida, herdeiros de Marx e do Marxismo."


teste_2.jpg

Basta abrir o Facebook para encontrá-lo. Entre bebês, gatos e gifs, ele estará lá, citado diretamente ou não, reduzido a uma palavra de ordem ou ilustrando um meme.

Marx é um cadáver que fala. Um fantasma que assombra nossas vidas e timelines, capaz de interferir nos rumos de nossas decisões políticas e, assim, conceder razão à formulação de Jacques Derrida: « Querendo-o ou não, sabendo-o ou não, todos os homens sobre a face da Terra são, em uma certa medida, herdeiros de Marx e do Marxismo ».

Ainda que sem qualquer caráter científico, uma rápida busca no Google Trends é suficiente para revelar como termos ligados a Marx retornaram à pauta nos últimos anos. Tendência corroborada por qualquer pessoa que testemunhe, ao menos uma vez, uma das milhares de discussões que povoam as redes sociais, fóruns e sessões de comentários na internet – ou que se atente ao sucesso editorial de livros como o Capital no século XXI de Thomas Piketty.

captura-de-tela-2015-06-16-c3a0s-17-01-41.png

Entretanto, como não poderia deixar de ser, a presença constante de referências ou supostas referências à obra de Marx resulta, invariavelmente, na proliferação de interpretações pouco condizentes ao pensamento do bom velhinho e filósofo alemão. Traço ainda mais acentuado quando nos referimos à teoria marxista, visto que, ao contrário do que muitos tendem a acreditar, o marxismo constitui-se mais como um arquipélago de ideias e controvérsias do que como um bloco único e homogêneo. Em outras palavras, resgatando Edward Thompson, o paradigma marxista comporta em si uma tendência à diferenciação, revelando-se complexo à compreensão por abrigar tanto uma dimensão política quanto uma dimensão científica em seu interior.

Ainda assim, apesar da complexidade inerente ao tema, Marx não cansa de ser quotidianamente evocado por simpatizantes de todos os matizes e cores que formam, por exemplo, o cenário político brasileiro e nossos feed de notícias. Inclusive em artigos e matérias de economistas, filósofos e cronistas que arrastam multidões de leitores, muitos torcedores, em suas respectivas tribunas.

Na semana passada, um dos “responsáveis” por resgatar Marx foi o indivíduo entrevistado pelo CQC, recentemente transformado em web celebridade graças a um vídeo no qual ele aparece humilhando dois haitianos no Rio Grande do Sul. Partidário do movimento que sugere a existência em curso de um golpe comunista no Brasil, o rapaz associa a imigração haitiana aos sórdidos e vermelhos planos Forum de São Paulo – invariavelmente considerado o berço do processo do Bolivarianismo Tupiniquim e da Venezualização Brasileira.

captura-de-tela-2015-06-09-c3a0s-16-40-16-400x230.png

Exemplos como esses podem ser observados sob aquilo que Derrida concebe como hantologie, ou se preferirmos, a ciência fantasmagórica, a ciência do assombro. Em seu livro intitulado Espectros de Marx (1993), J. Derrida debruça-se sobre o marxismo para mostrar como o mesmo, ao longo do tempo, assumiu uma nova forma, deixando de ser uma teoria hegemônica no interior da esquerda internacional para assumir um caráter espectral, fantasmagórico, capaz de assombrar a cultura mundial.

Nesse sentido, Derrida destaca como a narrativa sobre o fim do comunismo costuma ser ora de regozijo, ora encantatória. Segundo ele, a frequência com a qual a “morte do comunismo” passou a ser repetida no discurso daqueles que apregoam o triunfo do capitalismo, depois da queda do muro de Berlim, revelaria uma inquietude quanto ao real estado do comunismo: “e se ele não estiver realmente morto?” Sem corpo, e por isso mesmo sem um luto efetivo, o comunismo seria um morto-vivo, um espírito que vaga sem lugar fixo, assombrando a todos nós, inclusive aos neoliberais que, sem sucesso, tentam exorcizá-lo a qualquer mínima suspeita de sua aparição.

Para Derrida, o espectro é uma voz estranha, às vezes presente e não presente, singular e múltipla, portadora de diferença, fantasmagórica, diferente dela mesma e de seu próprio espírito. O espectro desarticula o tempo. Ele é um traço. Ainda que vindo do passado, carregando uma herança, sendo imprevisível e sobretudo irredutível.

Essa compreensão de Marx e do comunismo como espírito pode ser utilizada para descrever o momento pelo qual atravessa parte da sociedade brasileira, assombrada por algo desconhecido, mas que ao mesmo tempo parece estar presente em tudo e todos – do papa Francisco ao governo federal, passando pelos ativistas LGBT. Assim, ao que parece, da noite para o dia, como um raio que corta um céu azul, 51% da população brasileira acordou pronta para subverter a lógica dos meios de produção e estabelecer a ditadura do proletariado, naquela que seria a maior das revoluções da América, escolhendo o governo federal para levar a cabo um plano forjado com a ajuda de médicos cubanos, imigrantes haitianos e ciclo-faixas pintadas de vermelho.

marx.jpg

No entanto, ainda que interessante, o fenômeno não chega a ser surpreendente. Isso porque, o fantasma do marxismo torna-se particularmente mais assustador durante os períodos de crise, pronto para pairar sobre a cabeça de seus herdeiros que retomam de alguma maneira, ainda que sem saberem, aquilo que o marxismo nos deixou.

Elemento sempre presente em qualquer referência a Derrida, a ironia da constatação é fortalecida quando observamos que a tradicional/antiga/ex-esquerda brasileira, representada por partidos como o PT, não cessa de promover políticas distantes de suas bases ideológicas originais, abertamente inspiradas na crítica marxista. Ainda que o discurso, quando conveniente, como na última corrida presidencial, busque associá-la à expectativa da emancipação do Homem e ao desenvolvimento social.

Inversamente, a herança de Marx apresenta-se mais e mais valorizada pelos setores conservadores do cenário nacional, inserindo em seus discursos a retórica do medo em torno do comunismo, relacionando-o a um possível golpe de Estado e regimes ditatoriais, mas também à justiça social plena, atuando como herdeiros que buscam combater aquilo que evocam.

captura-de-tela-2015-06-16-c3a0s-17-33-49.png

O que talvez estes não percebam é que tal comportamento acaba por revelar que nesta era, inaugurada a partir do fim do regime soviético, o marxismo não poderá, jamais, desaparecer totalmente. O que talvez estes não percebam é que aquele que pratica o exorcismo acaba por mostrar, antes de tudo, sua crença na existência do fantasma e dos espíritos, assim como em seus efeitos.

Para Derrida, enquanto espírito, Marx tende a retornar de novo e para sempre, não mais como uma doutrina que busque comprovar sua pretendida totalidade sistêmica, mas como um projeto de crítica radical, inclusive a si mesmo, indispensável por nos apresentar a, messiânica e insuperável, esperança de um futuro justo.


Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @obvious //Talles de Lima