Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar.

Babás Filipinas e Que Horas Ela Volta?

A arte sempre diz mais e melhor sobre aquilo que a sociologia procura dizer. E quanta coisa pode ser dita depois de assistirmos "Que Horas Ela Volta ?". Tudo está ali. A violência de gênero, o classicismo tupiniquim e a versão nacional da drenagem internacional do care.


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Em um artigo que apresenta a história de uma mãe filipina que deixa seus dois filhos em seu país de origem para trabalhar como babá nos Estados Unidos, Arlie Hochschild nos apresenta o conceito de “care drain”.

Segundo Arlie Hochschild, historicamente, o ingresso das mulheres no setor produtivo da economia nos países desenvolvidos, a partir da segunda metade do século XX, não foi acompanhado por uma divisão do trabalho no âmbito familiar.

Na prática, isso quer dizer que, mesmo diante da inserção feminina em novos setores do mercado de trabalho, os homens recusaram-se a aceitar uma nova redistribuição das tarefas domésticas, na qual eles participariam como responsáveis pelo cuidado de crianças, doentes e idosos.

Ainda de acordo com a socióloga, esse quadro teria provocado a criação de uma extensa demanda de atividades do tipo “care work” nos países do norte, suprimida pela intensa importação de mão-de-obra feminina originária do hemisfério sul.

Progressivamente, os resultados dessa drenagem internacional assumiram os contornos de uma inflação de atividades cuidadoras nos países desenvolvidos – vide seus parques repletos de babás vestidas de branco e falando inglês com sotaque – e de uma deflação, ou crise, nos países do sul, que também não experimentaram a adesão masculina aos serviços do “care”.

O interessante em “Que Horas Ela Volta” é apresentar, para aqueles que estranhamente nunca se atentaram ao fato, um quadro semelhante, reproduzido nacionalmente, mas que inverte os pontos de partida e chegada no território nacional – “nosso norte é o sul”.

[ fim da referência sociológica ]

Digo estranhamente porque, para aqueles como eu, filho e sobrinho de algumas “Val”, essa realidade foi sempre algo escancarado, gritante e aberto, desde que me reconheço por gente e desde que me reconhecem por gente.

Ainda hoje, lembro do misto de prazer e vergonha que as visitas nas casas dos patrões – assim como no filme, localizadas no Morumbi -, provocavam em mim durante minha infância. Tudo era tão incrivelmente diferente do Grajaú naquelas ocasiões: os carros, a altura dos prédios, a existência de telefones, as casas com mais de três cômodos, o perfume forte e doce que a patroa utilizava mesmo para ficar trancada dentro do quarto, o sorvete napolitano, o Master System. Ah, o Master System.

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Invariavelmente, depois de algum tempo assistindo as partidas, o controle parava em minhas mãos e eu podia colocar o Sonic para correr durante uma fase inteira. Eram minutos saborosos, não menos que o sorvete napolitano. O problema é que nunca foram meus, nem os minutos, nem o sorvete.

Assim como no caso de Jéssica, ambos eram expressões da gentileza dos filhos dos patrões, orientados para compartilhar o que possuíam, ocasionalmente, com os pobres – e como a oferta de seres humanos que se enquadravam em tal categoria era restrita em seus círculos sociais, essa função educativa encontrava em mim e em minhas irmãs seus principais agentes realizadores.

Anos mais tarde, eu continuaria a prestar esse favor aos meninos e meninas do Morumbi, obrigando-os a compartilharem comigo aquilo que por “direito natural” sempre pertenceu a eles, como os assentos da USP e da Sorbonne.

O irônico disso é que, ao longo desse processo, invariavelmente acabei e acabo sendo reconhecido, pelos mais desavisados, como um filho (i)legítimo da classe média paulistana. Exemplar de uma espécie que com suor, esforço e dedicação é capaz de mostrar ao mundo a força e a beleza da meritocracia.

Que zuado!

A história de Val e Jéssica dá um filme (e um bom filme) porque, representa a exceção, o excepcional, o não-cotidiano.

Afinal, ninguém iria ao cinema para assistir a história do Fabinho, dando um tempo na Austrália para colocar as ideias em ordem e postar fotos nos Instagram. Ou ainda, para assistir o relato da filha de uma empregada doméstica que, para não repetir a trajetória da mãe, trabalha em uma empresa de telemarketing durante o dia e estuda em uma universidade noturna com mensalidades a partir de R$ 450.

É aí que mora o problema.


Talles de Lima

Publicitário, estudante de sociologia, paulistano do grajaú, ouvindo Belchior, olhando o trânsito e parando pra conversar..
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