lady day

Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

John Wayne não morreu

Como o faroeste é capaz de reaproximar pai e filha em torno de um amor em comum: o cinema.


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Quando me convidaram para escrever um artigo sobre o cinema western, vi um desafio. Afinal, adoro cinema, mas nunca gostei do gênero. E como poderia? Eu, uma menina de 10 anos, ficava profundamente incomodada com aquele universo de homens viris, montados em seus cavalos, exterminando native americans – naquela época ainda chamados de índios –, e bebendo e jogando em saloons. Que vida emocionante a desses heróis. Às mulheres, pobres donzelas, restava aguardar em casa, com a comida pronta no fogão, e seus vestidos longos com espartilhos, a volta de seus homens. Os filmes de cowboy acenderam em mim os primeiros ideais feministas.

No sofá da sala, via meu pai assistir a todos os filmes. Ele sim, um grande fã do gênero. Meu pai me ensinou a gostar de cinema. Portanto, do alto dos meus dez anos de existência, eu não podia discutir se o que ele via era de qualidade ou não. Hoje, mais de três décadas depois, continuo não gostando de filmes de faroeste, mas reconheço que há ali bom cinema. E como não reconhecer o western-spaghetti dos italianos Sergio Leone e Enio Morricone? Quando o prestígio dos filmes de cowboy não andava lá essas coisas em Hollywood, a dupla reinventou o gênero produzindo clássicos como a Trilogia dos Dólares: “Por um Punhado de Dólares” (1964), “Por uns Dólares a Mais” (1965) e “Três Homens em Conflito” (1966). O primeiro deles é considerado a pedra-fundamental do western-spaghetti. Inspirado claramente em “Yojimbo”, de Akira Kurusowa (1961), ambientado no Japão dos samurais, tem a ação transportada para o México, onde Leone imprime seu estilo pessoal: em vez do cowboy clássico, que chega montado em um imponente cavalo, temos um andarilho de moral duvidosa, que veste um poncho fuleiro e é acompanhado por uma mula.

seven_samurai.jpg “Yojimbo”, de Akira Kurusowa (1961), referência direta para o western de Sergio Leone

Quando o diretor conclui sua trilogia de maneira magistral com “Três Homens em Conflito”, reescrevendo definitivamente a história do western, parecia difícil que pudesse se superar. Então, com a ajuda de outro mestre italiano, o jovem Bernardo Bertolucci, escreve a história de “Era Uma Vez no Oeste”, uma obra-prima do cinema. Com Leone trabalharam grandes atores de Hollywood. Só para citar alguns: Charles Bronson, Henry Fonda e Clint Eastwood, que o homenageou dedicando o filme “Unforgiven”, Os Imperdoáveis (1992). Além de Sergio Leone, três dos mais importantes diretores americanos responsáveis pela popularização do gênero foram John Ford, Howard Hawks e Anthony Mann. Em seus filmes estrelaram uma infinidade de excelentes atores: Burt Lancaster, sempre imbuído de uma grande missão; o xerife novato de Anthony Perkins; o shakespeariano Kirk Douglas; e James Stewart, o meu preferido, com seu jeitão de homem comum, em um heroísmo que o aproxima afetivamente de nós.

Mas ninguém bate John Wayne, sem dúvida, o mais popular entre os populares. John Wayne é o Humphrey Bogart dos filmes de western. Símbolo maior do gênero cheio de testosterona por excelência. Que Stallone e Schwarzenegger, que nada! Em Rastros de Ódio (1956), Wayne dizima sozinho uma tribo de apaches, coloca a mocinha nas costas, e sai andando tranquilamente.

Assistir a um western hoje me faz relembrar a infância e traz de volta a presença de meu pai. O meu John Wayne, o meu herói. É uma pena que ele não esteja mais aqui para, juntos, sentarmos no sofá e colocarmos na TV um daqueles velhos filmes que ele tanto gostava. Com certeza, eu faria críticas ao enredo que coloca as mulheres de uma maneira simplista, mas admiraria com ele a bela fotografia, a trilha sonora e as interpretações dos astros que nós dois admirávamos. Afinal western não é só filme para homem, mas também de pai para filha.


Érika Bazilio

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