lady day

Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

Van Gogh cortaria a própria orelha se tivesse que abrir conta em um banco

A gourmetização do setor bancário para caçar qualquer níquel do nosso bolso.


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Trabalho com publicidade no mercado financeiro. Sei que não é exatamente o que qualquer colaborador desta revista gostaria de fazer, mas sabe como é, preciso colocar comida na mesa. Há um tempo venho observando um efeito interessante no processo de segmentação dos bancos. Embora esse processo não seja recente, iniciando-se no final da década de 1990, os bancos não economizam em ações para aprimorá-lo.

Todo esse esforço tem um só objetivo: atrair e reter diferentes nichos de clientes, mediante o enfoque adequado às necessidades de cada um deles.

A primeira segmentação de todas foi a separação entre pessoa jurídica e pessoa física. De lá para cá, o que se vê são sucessivas segmentações, que resultam na criação de novos nichos de mercado a que eu prefiro chamar de gourmetização do serviço bancário. Sim, amigos, a gourmetização também chegou ao setor bancário. Um terreno dominado por homens, quer dizer, coxinhas. E coxinhas ainda gourmet.

feijoada_gourmet.jpg Versão gourmet da feijoada. Segundo a chef que 'criou' o prato, ‘a feijoada pode sim ser apreciada por quem gosta de uma culinária mais refinada’ ". Detalhe para o vinagrete no copinho. Do tumblr Gourmetização da Vida.

A gourmetização nos bancos consiste em criar nomes pomposos para serviços voltados para clientes especiais, entenda-se, alta renda.

No Itaú, por exemplo, o cliente com renda mensal acima de 7 mil reais, não tem personalidade, tem Personnalité. E se você tem esse mesmo valor no HSBC, não chega primeiro, mas Premier. Por ser muito chique, o francês é a língua preferida dos publicitários e dos responsáveis nas instituições financeiras em aprovar a criação dos nomes.

Mas o caso mais interessante sem dúvida é o do Santander. A Van Gogh, que era a faixa de alta renda do Real, foi mantida após a fusão do banco com a instituição espanhola. Agora, além do cliente pessoa física (menor renda) e o private banking (com saldo de aplicações acima de 3 milhões de reais), existem o Select, para correntistas com renda superior a 10 mil reais e investimentos acima de 30 mil reais (ou apenas com investimentos acima de 200 mil reais), e o Van Gogh, para clientes com renda entre 4 mil e 10 mil reais (ou com investimentos acima de 40 mil reais).

comedores_de_batatas_van_gogh.jpg “Os Comedores de Batata” (Van Gogh). Se o pintor entrasse em uma agência que leva o seu nome, com a renda que tinha, o gerente com certeza o mandaria plantar batatas.

Como todo artista à frente de seu tempo, Van Gogh foi um incompreendido e teve uma carreira marcada por fracassos. Durante sua vida vendeu somente um único quadro, sendo sempre sustentado pelo irmão caçula. Theo, que era marchand, via um grande futuro nas obras do irmão, mas não conseguia vendê-las. Vivendo no limite da miséria, dependia de ajuda até para conseguir seu material de pintura.

Fico imaginando como Vincent seria recebido ao entrar em uma agência Santander Van Gogh. Provavelmente seria expulso pelos seguranças, acusado de rolezinho.


Érika Bazilio

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