lady day

Escrever é perigoso.

Érika Bazilio

Gostaria de viver para escrever.
Por enquanto vai escrevendo para viver mesmo

Caim matou Abel que matou Teresa que matou João que não amava ninguém

Se a educação incentiva a competitividade em vez da cooperação, como esperar um mundo melhor?


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Há pouco tempo levei meu sobrinho para conhecer o Planetário do Rio de Janeiro. Caio, tem apenas 4 anos e, como a maioria dos meninos da sua idade, adora planetas, estrelas, galáxias e tudo o que gira em torno desse universo. Literalmente. Mais do que uma aula de Astronomia, o passeio era uma grande brincadeira, como devem ser as descobertas de uma criança.

Depois de tirar fotos em roupa de astronauta e descobrir seu peso em diferentes planetas, fomos brincar nos totens interativos do 2º andar. Os equipamentos ensinam os mistérios do espaço de forma lúdica. Tem quiz, jogo da memória, monte sua nave, entre outros. Até aí tudo bem. O problema é que para realizar cada tarefa existe um contador. Se você não conseguir, por exemplo, montar sua espaçonave ou encaixar os planetas que formam o sistema solar a tempo... Babau. Perdeu, playboy. Acabou a brincadeira. Percebi que meu sobrinho ficava nervoso com aquilo, afinal ele só queria brincar, não estava interessado no jogo.

Por que tudo precisa ser um jogo? Por que um tem que ganhar e o outro perder? Por que as crianças não podem brincar juntas em cooperação, em vez de competirem umas com as outras?

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"As evidências sugerem de modo avassalador que a competição é destrutiva especialmente para as crianças. É uma maneira tóxica de criar filhos. A competição do tipo vale-tudo, vista como algo natural da vida moderna, pode promover a ansiedade, prejudicar a autoestima e levar ao isolamento emocional", afirma Alfie Kohn, especialista em educação e comportamento humano, que dá palestras nos Estados Unidos sobre o tema.

Kohn suscita controvérsia, o que não surpreende. Imagina dizer que a competição não é benéfica em um país como os Estados Unidos? Uma cultura em que nem os filmes são feitos para divertir. Servem para exaltar o poderio dos norte-americanos, e para serem considerados bons dependem diretamente de seu desempenho na bilheteria?

Antes mesmo de chegarem ao mundo, as crianças já competem através de seus pais. Tenho uma amiga que assim que ficou grávida, criou um e-mail para o próprio filho para garantir que ele não perdesse o domínio.(?!) E a filha de outra amiga, antes mesmo de ser alfabetizada, já aprende na creche palavras e canções em inglês e as repete sem ter muito ideia do que está falando.

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Fico preocupada com os slogans de escolas que pregam: "Formando vencedores", "O maior índice de aprovação no vestibular","Preparando o seu filho da creche ao vestibular". E para a vida, quem prepara?

Estudei em colégios assim a minha vida toda. Trabalho cercada de gente formada no Santo Inácio, Santo Agostinho, Sacré-Coeur de Marie, e outras escolas nobres aqui do Rio. Passaram para as principais faculdades do país, fizeram intercâmbio em diferentes lugares do mundo, mas a cada situação de estresse, agem como crianças, imaturas emocionalmente.

O psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) dizia que "o real aprendizado se dá quando as informações fazem sentido para o indivíduo, que está necessariamente inserido num dado contexto social". Uma visão bem parecida com a do educador brasileiro Paulo Freire, para quem antes de ensinar a ler e a escrever, a escola tem a missão de fornecer elementos para que a criança possa “ler o mundo”.

Eu tenho encontrado por aí muita gente que sabe ler em vários idiomas, mas incapaz de interpretar e refletir sobre o seu próprio lugar no mundo.


Érika Bazilio

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